segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A mania da escrita (repost)

A propósito da imperfeição das pessoas e da inteligência artificial, da obsessão pela perfeição e da escrita em segundos, revisitei um texto antigo aqui no blog que continua surpreendentemente actual. 
A criatividade é isto. 
O perfeito é, sem qualquer dúvida, profundamente desumano.

A não esquecer.

«Quem se revê numa escrita que se proclama próxima da perfeição dirá que deslocar uma vírgula ou substituir uma palavra por um sinónimo é, por si só, escrever melhor. Contudo, em contexto profissional, nada me parece mais nocivo do que esperar que tudo resulte à primeira tentativa ou arrogar-se autoridade absoluta nessa matéria.

Na escola primária aprendemos que uma vírgula fora do lugar pode matar o sentido e a verdade das palavras, quando estas são arrancadas do seu contexto. Aprendemos também, desde cedo, que a escrita obedece a regras, como estas que aqui se aplicam. Ainda assim, não é raro que o aprumo dos dedos de quem sabe, num teclado que não é o nosso, adquira, aos nossos olhos, uma forma e um conteúdo novos, supostamente superiores e elegantes. E, nesse equívoco, convencemo-nos de que há falhas que só acontecem aos outros. Mas quando não existe um manual de instruções de quem tem a mania, nem uma bula que indique a hora exacta da toma, acabamos por engolir vírgulas com a vontade reprimida de lhes gritar impropérios vários, ainda que néscios.

Creio que o elevado grau de intransigência de quem tem a mania não decorre de uma alegada superioridade intelectual, exercida através de tácticas dirigidas aos seus supostos serviçais. Pelo contrário, revela antes a incapacidade de assumir uma liderança estimulante e consciente.

E então, uma vírgula, um sinónimo, fazem ou não a diferença? Podem fazer, mas não devem. Poder não é dever. Tal como, para se ser soberano na matéria, não basta parecer sê-lo, é essencial saber sê-lo. Perante semelhante espezinhamento, a assertividade dos argumentos teria apenas o efeito de enfadar e acintar quem cultiva tal mania, termo que, curiosamente, se define como apego excessivo ou obsessivo a uma ideia ou intenção. Entender isso como escrever melhor do que o outro não é mais do que uma obsessão, palavra que, não menos curiosamente, significa perseguição diabólica.

Por tudo isto, prefiro manter uma espécie de si-lên-ci-o perante tanta imperfeição, amparando-me no exemplo de quem verdadeiramente percebe de escrita, aquele que escreve porque sente e sente aquilo que escreve».

Lobos, de Tânia Ganho

 

Lobos, de Tânia Ganho, foi o meu primeiro contacto com a escrita da autora enquanto romancista. Não foi uma leitura que me envolvesse por completo desde o início. A narrativa é contida, avança com alguma reserva, e precisei de tempo para entrar verdadeiramente na história. Ainda assim, à medida que fui avançando, senti-me cada vez mais presa às personagens e ao universo que a autora constrói.

A narrativa acompanha várias figuras marcadas por experiências duras e limites difíceis de gerir. Fedra é antropóloga forense e lida diariamente com os horrores da dark web, uma exposição constante ao lado mais sombrio do ser humano. Leonor é uma adolescente a tentar recuperar de uma experiência profundamente traumática. Helena, a mãe, vive dividida entre a protecção da filha e os seus próprios conflitos internos. Stefan, ex-repórter de guerra, encontrou nos lobos e na natureza um refúgio inesperado, quase terapêutico, um espaço de silêncio e de cura depois de tudo o que viveu.

Os temas abordados são pesados e actuais. Abuso sexual de menores, saúde mental, envelhecimento e relações familiares surgem entrelaçados num contexto pandémico que acentua fragilidades já existentes. Nada é tratado de forma sensacionalista. Pelo contrário, há contenção, rigor e uma escrita consciente do peso emocional das situações descritas.

A dureza das histórias leva inevitavelmente à reflexão sobre a complexidade da natureza humana. A frase “Uma praga, as pessoas” surgiu, na minha mente, ao longo da leitura e resume bem o desconforto que o livro provoca. Há violência, dor e incompreensão, mas também tentativas de sobrevivência e de reconstrução.

A presença da natureza e dos lobos assume aqui um papel simbólico importante. Mais do que um cenário, funcionam como um espaço de afastamento do ruído humano, quase como uma forma de terapia, onde é possível respirar, observar e, de alguma forma, aprender a lidar com o trauma.

Lobos é um livro cujo impacto maior surge depois de terminada a leitura. Não se fecha de forma confortável nem oferece respostas fáceis. Obriga-nos a pensar, a revisitar temas incómodos e a reflectir sobre o que lemos. E é precisamente aí que reside a sua força.

Gostei muito e recomendo.

E vocês, já o leram? Como sentiram a escrita e as personagens?

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

SAPO Blogs: O fim de uma Era

 

Há dez anos, troquei o Blogger pelo SAPO Blogs. E há dez anos, a minha conta no Blogger foi usurpada por um hacker qualquer (quem nunca, não é?). Hoje, volto aqui com o coração apertado. Não só porque o SAPO Blogs vai fechar as portas em 2026, mas porque perder este espaço é perder uma parte do meu percurso. Uma parte que, por mais simples que fosse, era minha. Era o meu cantinho, onde escrevia sem filtros, sem pressa e onde, muitas vezes, fazia o meu “trabalho para aquecer”; aquele que se faz porque se gosta, não porque se tem de fazer.

Durante muitos anos, o SAPO Blogs foi a minha casa. A minha casa de férias, para ser mais precisa. Aquele sítio onde as minhas ânsias anti-redes sociais se dissipavam. Onde as palavras fluíam com mais facilidade. Onde, a cada post, eu sabia que havia alguém do outro lado, no mesmo bairro digital, a ler-me. A trocar uma palavra, a deixar um comentário, a fazer-me sentir um bocadinho menos sozinha nesta imensidão que é a Internet.

Mas, como tudo na vida, chega a altura de fechar a porta e sair. E enquanto o SAPO Blogs se despede e nos dá a ordem de despejo, porque não foi dada outra opção senão sair, isto não é só sobre blogs a fechar. É o início de uma mudança muito maior. A inteligência artificial está a tomar conta de tudo. Hoje acabam-se os blogs, amanhã acabam-se os jornais e, depois, começam a substituir-se pessoas por máquinas (o que, convenhamos, já é realidade em alguns países).

Sim, a IA chegou para ficar. E custa admitir que, pouco a pouco, estamos a ser empurrados para o lado. À medida que as "máquinas" ganham terreno, perdemos espaço para criar de forma genuína. O que antes era feito à mão, com alma, erros e emoção, está a ser trocado pela eficiência, pela rapidez e pela perfeição ...mas sem espírito e sem sentimentos.

E é isso que mais me custa. Ter sentimentos. Essa imperfeição. Depois disso, é ter de sair de um espaço onde as palavras eram minhas. Onde guardei os meus melhores momentos. Onde encontrei refúgio nas histórias que escrevi e onde sabia que alguém, por mais longe que estivesse, as lia com carinho. Hoje, parece-me quase irreal dizer que O Gato Preto não terá mais visitas.

O mundo vai seguir,  os blogs vão desaparecendo e a inteligência artificial vai continuar a evoluir.

E nós?
Nós vamos assistir ao fim de uma Era.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O neto do homem mais sábio, de Tomás Guerrero



Li O Neto do Homem Mais Sábio da para um desafio literário e fui agradavelmente surpreendida.

Uma novela gráfica sensível e inteligente que, a partir da célebre frase de Saramago sobre o avô, nos guia pela sua vida e obra.

«O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever.»

Uma bonita homenagem à literatura portuguesa, e que me deixou com vontade de ler tudo de Saramago

 

sábado, 17 de janeiro de 2026

O caminho até casa, de Kristin Hannah


Sempre fui uma admiradora da escrita de Kristin Hannah, e O Caminho Até Casa (reedição) confirmou novamente o quanto ela consegue tocar-nos profundamente.

A história acompanha a vida de Jude, Lexi, Mia e Zach – quatro personagens cujas vidas são marcadas por escolhas, silêncios e feridas que, muitas vezes, só o tempo é capaz de sarar. 

O início do livro é sereno, quase tímido, mas rapidamente a narrativa nos envolve, aperta o coração e não nos deixa ir.

Há dor, sem dúvida. Mas também há uma empatia genuína, uma humanidade que nos faz refletir sobre os limites do perdão e o poder da redenção. 

A escrita de Hannah é capaz de criar personagens imperfeitos, mas tão reais que nos sentimos parte da sua história. 

A Jude, por exemplo, é uma figura complexa: os seus erros podem irritar, mas a dor que carrega é impossível de ignorar. Já a Lexi, forte e vulnerável na mesma medida, é uma personagem que nos ensina sobre resiliência, enquanto os gémeos Zach e Mia, unidos por um laço indestrutível, são o reflexo da necessidade de pertencimento.

A presença do marido de Jude e da tia de Lexi traz um equilíbrio necessário à trama, suavizando o turbilhão emocional e oferecendo uma esperança, por vezes inesperada. 

É uma história que, embora profundamente comovente, também nos ensina que, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, o caminho até casa,  seja ele físico ou emocional, é sempre possível.

Preparem os lenços para este livro comovente, intenso, humano e inesquecível.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Todas as Famílias Felizes, de Miguel D' Alte


Todas as Famílias Felizes
começa com o desaparecimento de Clara Paixão, uma menina de 12 anos no Porto. A investigação, conduzida pelos inspetores Jaime Ferreira e Beatriz Peixoto, cruza-se com o olhar do jornalista Ademar Leal, que acaba por se envolver de forma intensa no caso. 

Mas..

rapidamente percebi que este livro não se resume a um mistério por resolver.

O que mais me prendeu foi a forma como a história vai muito além do enredo policial e se concentra nos segredos, nas fragilidades e nas zonas cinzentas das pessoas. Nada é simples, nada é totalmente seguro, e isso cria uma inquietação constante.

Para mim, antes de o catalogar como policial, considero-o sobretudo um thriller: a investigação está presente, mas o verdadeiro impacto reside no lado psicológico e na tensão emocional que atravessa toda a narrativa.

A alternância de planos narrativos mantém a tensão sempre elevada, o que tornou a leitura completamente viciante. Daquelas em que dizemos “só mais um capítulo” vezes sem conta.

O final deixou-me sem palavras. É forte, inesperado e perturbador, com aquela sensação agridoce.

Li de forma quase compulsiva, senti-me desconfortável (o que, para mim, é sempre um ótimo sinal) e cheguei ao fim a pensar: ok, isto foi mesmo muito bem feito. 

E, como adorei, fiquei com uma vontade enorme de continuar a ler o autor!

Recomendo vivamente.

E tu, gostas mais de thrillers cheios de ação ou daqueles que nos mexem com a cabeça e nos fazem desconfiar de tudo e de todos?


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Os crimes de Verão de 1985, de Miguel D'Alte

 

Terminei Os Crimes do Verão de 1985, e Uauu, que leitura viciante! 

A história passa-se na pequena Ilha do Poço Negro, em 1985, quando duas crianças desaparecem juntamente com a sua cuidadora, Beatriz, numa noite de tempestade. O caso é encerrado oficialmente nesse mesmo ano, mas décadas mais tarde, em 2012, novas pistas obrigam o jornalista Ademar Leal a retomar a investigação, trazendo à tona mistérios antigos e segredos que ainda pairam sobre a ilha.

O livro lida com temas como violência, segredos familiares, entre outros, e a narrativa consegue manter o suspense, com ritmo constante e novas revelações que nos prendem do início ao fim. 

Confesso que normalmente não gosto de narrativas com saltos entre períodos temporais, mas aqui está muito bem conseguido; o passado e o presente complementam-se de forma perfeita.

A escrita é envolvente, os capítulos curtos tornam a leitura viciante, e o ambiente da ilha está descrito de forma magistral. Um thriller português que não dá descanso e que recomendo a todos os fãs do género. 

Já leram este livro? O que acharam? 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Uma Questão de Atração, de David Nicholls


Comecei este livro cheia de boa vontade. Mesmo.Parecia ser daquelas leituras com ar de “isto vai ser bom”. 

Spoiler: não foi mau… mas também não me agarrou como eu queria. 

Brian acredita que ser inteligente chega. Que o conhecimento compensa tudo o resto. Que, se uma pessoa for suficientemente brilhante, o amor acaba por aparecer por mérito académico.

Na universidade, entre "borgas" e aulas, ele vai percebendo que a atração não funciona assim. Alice, claro, é o problema central: confiante, distante, linda e completamente fora do seu alcance emocional. 

Fiquei desapontada, confirmando-se a minha teoria de há livros que só fazem sentido se forem lidos na altura certa da vida. Ainda assim, trouxe-me uma certa nostalgia.

Muitas das músicas mencionadas no livro são dos anos 80 e 90, e talvez por isso queira ver o filme Starter for 10 (título original do livro). Só que não ajuda o facto de não estar disponível na Netflix, nem lado nenhum, já agora 

E vocês, já leram o livro ou viram o filme?

sábado, 3 de janeiro de 2026

O Crime mais maravilhoso do ano, de Ally Carter


Este livro responde à pergunta que ninguém fez mas todos precisávamos de ver respondida: E se juntássemos Natal, um crime, uma mansão isolada pela neve e dois escritores que se detestam?

Resultado: funciona. E funciona bem.

Temos Maggie Chase, autora de cozy mysteries, organizada, controlada e com uma ligeira alergia a pessoas difíceis.

E temos Ethan Wyatt, escritor de thrillers cheios de ação, ego grande, charme excessivo e uma necessidade inexplicável de a irritar a cada frase.

Ambos são convidados para passar o Natal numa mansão inglesa pertencente à lendária Eleanor Ashley, aka Duquesa da Morte. Só que Eleanor decide fazer aquilo que toda a gente educada evita no Natal: desaparecer num quarto trancado por dentro.

A partir daqui temos neve a bloquear saídas, suspeitos por todo o lado, pistas espalhadas com mais estilo do que lógica policial e diálogos cheios de sarcasmo.

O livro é divertido. Lê-se depressa, ri-me algumas vezes e avancei mais pelo prazer da interação entre as personagens do que pela urgência de descobrir o culpado.

É perfeito para quem: gosta de cozy crime, aprecia rivalidade com química e quer mistério sem muito stress.

Gostei muito! 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A Felicidade na Forma de um Gato, de Rui Kodemari


A Felicidade na Forma de um Gato conta a história de Ayano e Michio, um casal que se encontra depois de relações falhadas e constrói uma vida em comum marcada pela rotina, pelo afeto e pela presença silenciosa de um gato que acaba por se tornar o verdadeiro centro emocional da casa. A narrativa acompanha os anos que passam, as mudanças inevitáveis e a forma como este animal observa, sem julgar, tudo o que acontece à sua volta.

A escrita é suave, a leitura confortável e a mensagem clara: a felicidade mora nas pequenas coisas — e, muitas vezes, tem quatro patas.

Gostei da história, está bem contada e é agradável de ler, mas confesso que fiquei com a sensação de que Ayano e Michio podiam ter sido mais desenvolvidos enquanto personagens, talvez porque o livro assume, acima de tudo, o papel de uma verdadeira ode aos gatos, acabando o lado humano por ficar um pouco mais em segundo plano.

Uma leitura bonita, tranquila, reconfortante e comovente, perfeita para amantes de gatos.

Já leste este livro? 



domingo, 28 de dezembro de 2025

Huris, de Kamel Daoud

A narrativa centra-se em Alva, uma jovem argelina sobrevivente de um ataque islamista. A violência marcou-a para sempre: perdeu a voz e carrega uma cicatriz profunda na garganta. Incapaz de falar, Alva passa a contar a sua história em silêncio, dirigindo-se à filha que ainda traz no ventre. “Falo-te em silêncio, porque neste país até a dor aprendeu a calar-se” -é a essa criança que ela confessa os seus medos, dúvidas e memórias, questionando se faz sentido nascer num país onde ser mulher continua a ser tão difícil.

Ao longo do livro, Alva revisita a guerra, a impunidade, a violência quotidiana e o peso de uma sociedade profundamente patriarcal. A narração não se limita à sua voz interior: o autor dá espaço a múltiplas perspectivas — mulheres, crianças, sobreviventes, mortos e até animais — criando um coro de testemunhos que expõe uma realidade dura e muitas vezes silenciada. 

A escrita é poética, intensa e carregada de imagens fortes, tornando a leitura emocionalmente exigente.

A primeira parte destaca-se pela força e impacto com que nos mergulha na história e na dor da protagonista. À medida que o livro avança, o ritmo e a intensidade tornam-se mais irregulares, mas a carga simbólica e temática mantém-se presente, sempre ligada à memória, ao trauma e à impossibilidade de esquecer.

A polémica em torno da obra surge não só pela censura estatal, mas também pelas acusações de que a história poderá ter sido inspirada numa vítima real.

 Independentemente disso, Huri acaba por cumprir um papel importante: expõe um período da história argelina pouco conhecido e lança luz sobre a condição das mulheres num contexto marcado pela violência e pelo silêncio.

Uma leitura intensa, desconfortável e, sem dúvida, diferente.



quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Os meus amigos, de Fredrik Backman


Já tinha lido boas críticas sobre Os Meus Amigos, e como sou fã do Fredrik Backman decidi finalmente pegá-lo. Desde logo, muitas pessoas falaram da intensidade emocional e da beleza da escrita, e senti que tinha de o ler também, especialmente por ser um autor que já me tocou noutras obras e cuja prosa admiro profundamente. Além disso, o livro foi eleito pelos leitores do Goodreads como o melhor na categoria de ficção, o que aumentou ainda mais a minha curiosidade.

A história gira em torno de um grupo de adolescentes aparentemente perdidos (Joar, Ted, Ali e “o artista”), que encontram uns nos outros um refúgio e uma razão para enfrentar cada dia durante um verão inesquecível. Vinte e cinco anos depois, a Louisa "encontra" uma obra de arte que a leva a querer descobrir quem foram essas figuras e aquele que as criou, embarcando numa jornada de autodescoberta e reflexão sobre amizade, arte e o que realmente importa na vida.

As minhas impressões de leitura: este livro é um daqueles que te agarram pelo coração. A forma como Backman constrói as personagens faz com que te importes com cada uma delas, com as suas falhas, as suas dores e as suas pequenas vitórias. Há momentos de humor subtil, outros profundamente comoventes, e uma sensibilidade na descrição das relações humanas que me deixou muitas vezes emocionada. Como diz uma das passagens do livro, “Não é verdade que temos medo de estar sozinhos — o que realmente tememos é ser abandonados.”, e é precisamente esta vulnerabilidade que torna a história tão tocante. Também encontramos outra reflexão poderosa: “A arte é aquilo que deixamos de nós nos outros.”, lembrando-nos de como as nossas ações e relações podem deixar marcas duradouras.

Recomendo Os Meus Amigos sem hesitar, principalmente se gostas de histórias que exploram a essência da amizade e aquilo que nos forma como seres humanos.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Amor na Porta da Frente, de Andreia Ramos


Beatriz é médica em Lisboa e tem a vida organizada: está prestes a casar com um advogado conceituado. Mas tudo muda quando o vizinho barulhento, Gabriel, aspirante a músico, propõe que ela finja ser sua namorada durante o Natal, para agradar à família. O que começa como uma farsa transforma-se numa história divertida e ternurenta, mostrando que, por vezes, o amor está mesmo à porta da frente.

Li este livro porque a Márcia  disse: “vais gostar, confia”. Lá fui eu, meio desconfiada… e acabei a gostar muito! É leve, divertido e tem aquele drama na medida certa. A Beatriz e o Gabriel têm uma química que nos faz sorrir e continuar a virar páginas sem parar. Já conhecia a autora pelas redes sociais, mas esta foi a minha estreia com ela… e foi mesmo uma boa estreia, uma leitura perfeita para quem gosta de romances ternurentos e divertidos, ainda por cima com aquele clima natalício que adoro. 

💬 E vocês? Gostam de romances de Natal? 

sábado, 6 de dezembro de 2025

A Filha do Alemão, de Marius Gabriel


Durante a Segunda Guerra Mundial, uma mulher seduzida pela propaganda nazi junta-se ao programa Lebensborn. Décadas depois, a sua filha descobre, sem suspeitar, a sua verdadeira origem. A morte do avô dá início a uma viagem pela Europa (da Inglaterra à Noruega e Berlim) em busca de respostas e de uma irmã que nunca conheceu. Uma história de segredos enterrados, identidades roubadas e consequências que atravessam gerações.

A Filha do Alemão prende e envolve: mistura história e emoção de forma eficaz e faz-nos refletir sobre identidade e legado. Mas confesso: esperava aquele momento “uau” que me fizesse suspirar… e acabou por ser uma leitura mais tranquila nesse aspeto. Continua a ser interessante e vale a pena, só que sem aquele efeito surpresa que imaginei.

Acreditam que conhecer o passado nos transforma… ou apenas nos deixa cicatrizes difíceis de sarar?


terça-feira, 25 de novembro de 2025

Trilogia "Louis Clarke", Jojo Moyes


 Depois de ler Viver Depois de Ti, confesso que fiquei demasiado triste para continuar a trilogia e disse isso mesmo à própria Jojo Moyes quando a conheci na Feira do Livro de Lisboa. Pediu-me imediatamente desculpa ("so sorry you feelt heartebroken"!). 

Bem, se calhar devia mesmo ler o segundo e o terceiro livro, pensei eu, até porque achei que ela era mesmo muito querida, tão genuína e simpática que me desarmou por completo.

1.Viver Depois de Ti

Louisa trabalha como assistente de Will Traynor, um homem tetraplégico e amargurado. Com energia e empatia, Lou tenta mostrar-lhe que a vida ainda vale a pena, enfrentando escolhas difíceis pelo caminho. 

2.Viver Sem Ti

Louisa enfrenta o luto e as consequências das suas escolhas, aprendendo a aceitar o passado e abraçar um futuro incerto, mas cheio de possibilidades. 

3.O Meu Coração Entre Dois Mundos

Explora a dualidade do amor, da perda e da identidade, convidando-nos a refletir sobre equilíbrio entre o que deixamos e o que preservamos.

Adorei esta trilogia! 

Terminar esta trilogia foi inesquecível: A Jojo escreve com emoção e autenticidade, e adorei sentir cada momento de alegria, dor e esperança ao lado de Louisa.


sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Nem todas as árvores morrem de Pé, de Luísa Sobral

 


No começo, confesso que hesitei com este livro, depois de ler opiniões tão contraditórias. Acabei por o escolher pelo seu tamanho pequeno e aparência delicada, e surpreendi-me . A história incomoda, atravessa-nos com simplicidade e, mesmo rápida de ler, não nos deixa indiferentes.

O livro acompanha Emmi e M. ao longo dos quarenta anos da Alemanha dividida, mostrando como a vida se adapta a tempos difíceis e como as escolhas e relações se moldam à realidade.

“Mas o ser humano adapta-se a tudo, nisso somos diferentes das plantas. As plantas só crescem onde encontram condições perfeitas para se desenvolverem. Nós, seres humanos, temos muitas vezes de criar condições perfeitas num lugar imperfeito.”

Gostei bastante da história e da maneira simples, sensível e poética com que Luísa Sobral a conta. 

Recomendo muito. 

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Doce Tóquio, de Durian Sukegawa


Depois da última leitura, precisava de algo leve (no tamanho), algo que me devolvesse a calma e a concentração.

Doce Tóquio foi o escolhido e revelou-se exatamente isso: uma história serena que me prendeu desde o início, com sabor a esperança.

Entre o aroma do feijão doce e o florescer das cerejeiras, cruzam-se três vidas improváveis: Sentarô, um homem cansado que carrega o peso dos erros do passado; Wakana, uma menina solitária que observa o mundo à distância; e Tokue, uma mulher idosa com as mãos marcadas pelo tempo e um passado que o mundo tentou esquecer.

Doce Tóquio é um livro simples mas cheio de significado e beleza.

Gostei muito desta leitura e recomendo-a a quem procura uma história doce e cheia de humanidade.

E tu? Já leste este livro?


Entrada 5- O sentido da vida...depende

Eu: “IA, qual é o sentido da vida?”
IA: “Depende.”
Eu: “Exato. Depende de quem me enche a tigela.”

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Kafka à beira-mar, de Haruki Murakami

Há livros que nos confundem, que nos perdem e nos tornam diferentes, e Kafka à Beira-Mar é um deles. Murakami conduz-nos por um labirinto onde o real e o sonho se misturam.

Kafka é o nome que o protagonista escolhe para si mesmo quando decide fugir. Um nome inventado, talvez um escudo, talvez uma libertação. Sai de casa para se afastar de uma relação paterna marcada pela violência e pela ausência, e parte em busca da mãe e da irmã que desapareceram quando ele era apenas uma criança. É acompanhado pelo “rapaz-corvo”, essa voz interior que lhe fala, o aconselha e o julga- uma consciência que ora protege, ora atormenta.


“O teu coração é como um grande rio depois de uma forte chuvada.”

Em paralelo, conhecemos Nakata, um velho que perdeu a memória e a capacidade de ler depois de um estranho acidente na infância, mas que ganhou dons inexplicáveis: fala com gatos, compreende o que o mundo não explica e, por vezes, faz com que peixes chovam do céu. Um personagem terno e enigmático que parece existir num plano próprio, guiado apenas pela simplicidade e pela intuição.

Murakami tece entre estes dois mundos uma teia de realismo mágico: gatos falantes, florestas vivas, espíritos errantes e objetos simbólicos que nos levam a questionar onde termina o sonho e começa a realidade. Há também uma presença constante da música e da literatura, como se ambas fossem pontes invisíveis entre as dimensões que as personagens habitam.

“Quando estás acordado, sempre podes suprimir a imaginação. Mas não podes eliminar os sonhos.” 

No início, estranhei. A meio, confundi-me. No fim, percebi que essa estranheza nunca desapareceria — pelo contrário, cresceu comigo. Terminei o livro com mais perguntas do que respostas, e nem todas boas.

É impossível ignorar o desconforto que certas passagens provocam, sobretudo na forma como as personagens femininas são apresentadas. Em Murakami, as mulheres parecem nascer do olhar masculino (são corpos, desejos, presenças etéreas que servem a transformação interior dos homens). A sexualização é constante, e algumas cenas ultrapassam o limite do necessário. Fica a sensação de que a profundidade feminina é sacrificada em nome da fantasia.

Ainda assim, há algo de magnético em Kafka à Beira-Mar. É um livro que se lê com perplexidade e, talvez, com fascínio. Uma viagem espiritual, mítica e confusa, mas também uma reflexão sobre a culpa, a memória e o destino. Murakami convida-nos a aceitar o mistério, a caminhar na névoa e a encontrar sentido no absurdo.

Esta foi uma leitura partilhada e intensa com o grupo #KafkaGirls, uma experiência literária cheia de descobertas e vozes que se cruzaram no espelho da interpretação. Agradeço à Sara por me ter levado a mergulhar neste mar simbólico, um mar onde, por mais que tentemos compreender, acabamos sempre à deriva, entre o sonho e o despertar.

E assim é a vida.