sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Isola, de Allegra Goodman

Que leitura tão inesperada e intensa.

Fui completamente às cegas porque este livro fazia parte do conceito "Blind Date with a Book" da HmbookGang. Não sabia praticamente nada sobre a história e deixei-me simplesmente levar. E que surpresa extraordinária foi.

Desde as primeiras páginas percebi que estava perante algo especial. A escrita é fluída, envolvente e com um tom quase clássico que nos faz sentir e ler de forma compulsiva. Em vários momentos senti o ambiente de Jane Eyre, noutros a sensibilidade emocional que me fez lembrar os romances de Lesley Pearse, passando à vertente de sobrevivência de Robinson Crusoe. Esta combinação torna o livro intenso e emocionante, e não tenho dúvidas de que daria uma ótima série de TV.

Marguerite de la Rocque, órfã e entregue à tutela do seu primo Jean‑François de la Rocque de Roberval, vê a sua vida tomar um rumo inesperado quando a confiança é traída e acaba isolada numa ilha remota, acompanhada apenas pelo seu amor, Auguste, e pela sua ama, Damienne. A partir daí, tudo se transforma. Não quero revelar demasiado porque parte do impacto está na forma como os acontecimentos se desenrolam diante de nós.

A construção da personagem é profundamente comovente. A evolução de Marguerite é dolorosa, inspiradora e intensa. Sofremos com ela, revoltam-nos as injustiças e admiramos a sua força.

Há uma frase que ficou comigo e que resume muito da sua vivência:

“Como sempre, deixou-me na ilusão de que era livre”.

É possível perceber a desigualdade da época retratada no romance, em que a narrativa mostra que, naquela época, mesmo mulheres com segurança financeira podiam tornar-se vulneráveis se os homens à sua volta agissem de forma injusta ou imprevisível. Saber que a história tem base real acrescenta uma camada extra de impacto emocional.

Se tivesse de apontar um ponto menos forte, seria o final. Depois de uma jornada emocional tão poderosa, senti que o desfecho poderia ter sido um pouco mais desenvolvido ou mais arrebatador.

Ainda assim, foi uma leitura intensa, marcante e absolutamente envolvente.

Recomendo muito.

O Pacto de Água, de Abraham Verghese

 

 Esta história é sobre uma família que vive sob uma sombra inexplicável: em cada geração, alguém morre afogado. 

Tudo começa com Mariamma, uma menina de 12 anos que entra num casamento arranjado e cresce para se tornar o pilar da família. Acompanhamos, ainda, o marido, Jojo, Philipose, Ninan e Mariamma. 

Os seus caminhos cruzam-se com médicos estrangeiros, leprosos isolados e mudanças sociais profundas numa Índia em transformação: do colonialismo à independência, com a medicina, tradições familiares e relações humanas sempre em jogo.

 “Todas as famílias têm segredos, mas nem todos os segredos são para enganar. O que define uma família não é o sangue, mas os segredos que partilham.” 

Curiosamente, ao longo da saga, são as mulheres que carregam a história, sustentam relações e enfrentam perdas com coragem silenciosa. 

Não é uma leitura fácil. Este calhamaço [de 736 págs] exigiu-me atenção e entrega, com passagens detalhadas e pequenas digressões.

Mas...foi a resiliência das mulheres, a constante sombra da água e o retrato comovente dos leprosos que me prenderam à história do início ao fim.

É uma leitura que me emocionou algumas vezes e que recomendo sem hesitar

 Já leste? Que segredos desta família te prenderam mais? A água? 

 


O Segredo da Casa May Day, de Victoria Scott

Há casas que guardam memórias…

E há casas que guardam segredos. 

 Este livro leva-nos a uma casa isolada no Tamisa, com duas histórias que se entrelaçam: 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, e 2013, no presente.

No passado, seguimos Ellen, uma jovem enfermeira a cuidar de soldados marcados pela guerra. A casa é tensa, cheia de silêncios e pequenas inquietações… e rapidamente percebemos que nada é o que parece.

No presente, Meredith e o marido mudam-se para a casa, à procura de um recomeço. Mas a casa tem segredos, e os ecos do passado começam a aparecer de forma inesperada.

A leitura é envolvente e ligeiramente sombria, com o mistério a crescer devagarinho; mais focado as emoções e nas personagens do que em grandes reviravoltas.

É um romance que mistura história e mistério, perfeito para quem gosta deste género e sente aquela vibe que também encontramos nos livros de Kate Morton.

Ficaram com vontade de ler? Só posso dizer: gostei!

 E o final… ai, o final! Gostava imenso de ter alguém com quem partilhar.

 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A Donzela, de Kate Foster

 

Gostei muito deste livro. A escrita é envolvente, fluida e lê-se extremamente bem, o que torna a leitura rápida, apesar da dureza dos temas abordados.


A história passa-se em Edimburgo, em 1679, e acompanha Violet, uma jovem criada acusada de ter assassinado o seu patrão, James Forrester. E é aqui que a coisa começa a apertar, porque Violet é mulher, pobre e sem qualquer tipo de poder, ou seja, tudo a jogar contra ela. Ao longo do livro vamos percebendo como chegou até ali, o que viveu e como o sistema simplesmente não estava feito para a proteger.

A história expõe com clareza a desigualdade social, o abuso de poder e a forma como a justiça tratava uma mulher pobre, sem proteção e sem voz. 

Um dos aspetos que mais me marcou foi o facto de o livro se basear em factos verídicos. Saber que Violet existiu e que este julgamento aconteceu na realidade dá outra profundidade à leitura e faz-nos refletir sobre quantas histórias semelhantes ficaram perdidas ou silenciadas ao longo da História.

É um romance histórico intenso, bem construído e impossível de ler com indiferença.

Já leram A Donzela? O que acharam desta história inspirada em acontecimentos reais? 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Leituras do mês de janeiro, uma história sem final feliz

 

Hoje vou escrever para vocês usando os títulos dos 9 livros que li. 

Janeiro começou com tudo: O Crime Mais Maravilhoso do Ano aconteceu… e não, não foi nada digno de CSI, apenas o suficiente para mexer com a vizinhança. Entre olhares furtivos, surgiu também Uma Questão de Atração, porque, claro, nada como um mistério para acender faíscas.

Enquanto isso, alguém ainda se lembrava de Os Crimes do Verão de 1985 (e sim, Miguel D’Alte tinha razão: até as melhores famílias guardam segredos). Mas nada como um bom lenço para recuperar a compostura em O Caminho Até Casa.

No meio deste caos de emoções, conheci O Neto do Homem Mais Sábio, que me deixou conselhos do género “escuta mais, fala menos”. Pelo caminho, cruzei-me com Lobos (ok, talvez fossem apenas cães muito grandes) e imaginei o que aconteceria se Os Gatos Falassem… se os víssemos. São seres independentes e surpreendentes, por isso fiquei-me apenas pela imaginação.

No fim, quando tudo parecia demasiado complicado, surgiu A Donzela. Não a que espera ser salva, mas a que mata. E foi aí que confirmei o que já sabia: mistérios e segredos são mesmo os melhores ingredientes para as minhas leituras.

Só ficou a faltar Todas as Famílias Felizes, que era o que eu desejava para terminar bem o mês de janeiro. 


Fim.


Agora, a realidade. 

A realidade ultrapassou qualquer ficção e não consigo deixar de pensar nisso (talvez até seja egoísmo estar aqui a escrever com títulos de livros), mas dou-vos uma explicação plausível: a mente humana é frágil. Por isso, optei por seguir em frente e mudar de mês. 

Já que estou em fevereiro, Deus queira que o final feliz apareça. Será provavelmente através das leituras, mas vou acreditar, piamente, que tudo vai mudar à minha volta. Não estou alheia ao que se passa, apenas ativei o meu modo de sobrevivência. 

E vocês? 


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Se os gatos falassem, de Piergorgio Pulixi


 Se o vosso gato pudesse falar, provavelmente diria: “Não preciso de ti, mas este navio e este mistério são divertidos!” 

Em Se os Gatos Falassem, de Piergiorgio Pulixi (@clubedoautor), transporta-nos para um cruzeiro à volta da Sardenha onde o nosso querido livreiro Marzio Montecristo se vê envolvido num mistério, digamos, clássico. Quando um assassinato acontece a bordo, ninguém pode sair do navio e todos se tornam suspeitos. Com a ajuda do inspetor Caruso e dos seus gatos, Miss Marple e Poirot, Marzio tenta desvendar o crime usando a sua paixão por romances policiais. 

Comparando com A Livraria dos Gatos Negros, que se passava numa livraria e apresentava Marzio como detetive amador, este segundo livro coloca-o num cenário mais fechado e claustrofóbico, mas dá mais destaque aos gatos, Marple e Poirot. Também achei menos denso e mais fácil de ler! É mesmo leve, inteligente, perfeito para fãs de policiais, e as referências a livros tornam a leitura ainda mais agradável. 

Gostei bastante! É uma leitura divertida, envolvente e com momentos de pura ironia, ou de irritação, mas que qualquer fã de mistério e gatos vai adorar.

Já leram? Têm curiosidade em ler? 



segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A mania da escrita (repost)

A propósito da imperfeição das pessoas e da inteligência artificial, da obsessão pela perfeição e da escrita em segundos, revisitei um texto antigo aqui no blog que continua surpreendentemente actual. 
A criatividade é isto. 
O perfeito é, sem qualquer dúvida, profundamente desumano.

A não esquecer.

«Quem se revê numa escrita que se proclama próxima da perfeição dirá que deslocar uma vírgula ou substituir uma palavra por um sinónimo é, por si só, escrever melhor. Contudo, em contexto profissional, nada me parece mais nocivo do que esperar que tudo resulte à primeira tentativa ou arrogar-se autoridade absoluta nessa matéria.

Na escola primária aprendemos que uma vírgula fora do lugar pode matar o sentido e a verdade das palavras, quando estas são arrancadas do seu contexto. Aprendemos também, desde cedo, que a escrita obedece a regras, como estas que aqui se aplicam. Ainda assim, não é raro que o aprumo dos dedos de quem sabe, num teclado que não é o nosso, adquira, aos nossos olhos, uma forma e um conteúdo novos, supostamente superiores e elegantes. E, nesse equívoco, convencemo-nos de que há falhas que só acontecem aos outros. Mas quando não existe um manual de instruções de quem tem a mania, nem uma bula que indique a hora exacta da toma, acabamos por engolir vírgulas com a vontade reprimida de lhes gritar impropérios vários, ainda que néscios.

Creio que o elevado grau de intransigência de quem tem a mania não decorre de uma alegada superioridade intelectual, exercida através de tácticas dirigidas aos seus supostos serviçais. Pelo contrário, revela antes a incapacidade de assumir uma liderança estimulante e consciente.

E então, uma vírgula, um sinónimo, fazem ou não a diferença? Podem fazer, mas não devem. Poder não é dever. Tal como, para se ser soberano na matéria, não basta parecer sê-lo, é essencial saber sê-lo. Perante semelhante espezinhamento, a assertividade dos argumentos teria apenas o efeito de enfadar e acintar quem cultiva tal mania, termo que, curiosamente, se define como apego excessivo ou obsessivo a uma ideia ou intenção. Entender isso como escrever melhor do que o outro não é mais do que uma obsessão, palavra que, não menos curiosamente, significa perseguição diabólica.

Por tudo isto, prefiro manter uma espécie de si-lên-ci-o perante tanta imperfeição, amparando-me no exemplo de quem verdadeiramente percebe de escrita, aquele que escreve porque sente e sente aquilo que escreve».

Lobos, de Tânia Ganho

 

Lobos, de Tânia Ganho, foi o meu primeiro contacto com a escrita da autora enquanto romancista. Não foi uma leitura que me envolvesse por completo desde o início. A narrativa é contida, avança com alguma reserva, e precisei de tempo para entrar verdadeiramente na história. Ainda assim, à medida que fui avançando, senti-me cada vez mais presa às personagens e ao universo que a autora constrói.

A narrativa acompanha várias figuras marcadas por experiências duras e limites difíceis de gerir. Fedra é antropóloga forense e lida diariamente com os horrores da dark web, uma exposição constante ao lado mais sombrio do ser humano. Leonor é uma adolescente a tentar recuperar de uma experiência profundamente traumática. Helena, a mãe, vive dividida entre a protecção da filha e os seus próprios conflitos internos. Stefan, ex-repórter de guerra, encontrou nos lobos e na natureza um refúgio inesperado, quase terapêutico, um espaço de silêncio e de cura depois de tudo o que viveu.

Os temas abordados são pesados e actuais. Abuso sexual de menores, saúde mental, envelhecimento e relações familiares surgem entrelaçados num contexto pandémico que acentua fragilidades já existentes. Nada é tratado de forma sensacionalista. Pelo contrário, há contenção, rigor e uma escrita consciente do peso emocional das situações descritas.

A dureza das histórias leva inevitavelmente à reflexão sobre a complexidade da natureza humana. A frase “Uma praga, as pessoas” surgiu, na minha mente, ao longo da leitura e resume bem o desconforto que o livro provoca. Há violência, dor e incompreensão, mas também tentativas de sobrevivência e de reconstrução.

A presença da natureza e dos lobos assume aqui um papel simbólico importante. Mais do que um cenário, funcionam como um espaço de afastamento do ruído humano, quase como uma forma de terapia, onde é possível respirar, observar e, de alguma forma, aprender a lidar com o trauma.

Lobos é um livro cujo impacto maior surge depois de terminada a leitura. Não se fecha de forma confortável nem oferece respostas fáceis. Obriga-nos a pensar, a revisitar temas incómodos e a reflectir sobre o que lemos. E é precisamente aí que reside a sua força.

Gostei muito e recomendo.

E vocês, já o leram? Como sentiram a escrita e as personagens?

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

SAPO Blogs: O fim de uma Era




Há dez anos, troquei o Blogger pelo SAPO Blogs. E há dez anos, a minha conta no Blogger foi usurpada por um hacker qualquer (quem nunca, não é?). Hoje, volto aqui com o coração apertado. Não só porque o SAPO Blogs vai fechar as portas em 2026, mas porque perder este espaço é perder uma parte do meu percurso. Uma parte que, por mais simples que fosse, era minha. Era o meu cantinho, onde escrevia sem filtros, sem pressa e onde, muitas vezes, fazia o meu “trabalho para aquecer”; aquele que se faz porque se gosta, não porque se tem de fazer.

Durante muitos anos, o SAPO Blogs foi a minha casa. A minha casa de férias, para ser mais precisa. Aquele sítio onde as minhas ânsias anti-redes sociais se dissipavam. Onde as palavras fluíam com mais facilidade. Onde, a cada post, eu sabia que havia alguém do outro lado, no mesmo bairro digital, a ler-me. A trocar uma palavra, a deixar um comentário, a fazer-me sentir um bocadinho menos sozinha nesta imensidão que é a Internet.

Mas, como tudo na vida, chega a altura de fechar a porta e sair. E enquanto o SAPO Blogs se despede e nos dá a ordem de despejo, porque não foi dada outra opção senão sair, isto não é só sobre blogs a fechar. É o início de uma mudança muito maior. A inteligência artificial está a tomar conta de tudo. Hoje acabam-se os blogs, amanhã acabam-se os jornais e, depois, começam a substituir-se pessoas por máquinas (o que, convenhamos, já é realidade em alguns países).

Sim, a IA chegou para ficar. E custa admitir que, pouco a pouco, estamos a ser empurrados para o lado. À medida que as "máquinas" ganham terreno, perdemos espaço para criar de forma genuína. O que antes era feito à mão, com alma, erros e emoção, está a ser trocado pela eficiência, pela rapidez e pela perfeição ...mas sem espírito e sem sentimentos.

E é isso que mais me custa. Ter sentimentos. Essa imperfeição. Depois disso, é ter de sair de um espaço onde as palavras eram minhas. Onde guardei os meus melhores momentos. Onde encontrei refúgio nas histórias que escrevi e onde sabia que alguém, por mais longe que estivesse, as lia com carinho. Hoje, parece-me quase irreal dizer que O Gato Preto não terá mais visitas.

O mundo vai seguir,  os blogs vão desaparecendo e a inteligência artificial vai continuar a evoluir.

E nós?
Nós vamos assistir ao fim de uma Era.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O neto do homem mais sábio, de Tomás Guerrero



Li O Neto do Homem Mais Sábio da para um desafio literário e fui agradavelmente surpreendida.

Uma novela gráfica sensível e inteligente que, a partir da célebre frase de Saramago sobre o avô, nos guia pela sua vida e obra.

«O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever.»

Uma bonita homenagem à literatura portuguesa, e que me deixou com vontade de ler tudo de Saramago

 

sábado, 17 de janeiro de 2026

O caminho até casa, de Kristin Hannah


Sempre fui uma admiradora da escrita de Kristin Hannah, e O Caminho Até Casa (reedição) confirmou novamente o quanto ela consegue tocar-nos profundamente.

A história acompanha a vida de Jude, Lexi, Mia e Zach – quatro personagens cujas vidas são marcadas por escolhas, silêncios e feridas que, muitas vezes, só o tempo é capaz de sarar. 

O início do livro é sereno, quase tímido, mas rapidamente a narrativa nos envolve, aperta o coração e não nos deixa ir.

Há dor, sem dúvida. Mas também há uma empatia genuína, uma humanidade que nos faz refletir sobre os limites do perdão e o poder da redenção. 

A escrita de Hannah é capaz de criar personagens imperfeitos, mas tão reais que nos sentimos parte da sua história. 

A Jude, por exemplo, é uma figura complexa: os seus erros podem irritar, mas a dor que carrega é impossível de ignorar. Já a Lexi, forte e vulnerável na mesma medida, é uma personagem que nos ensina sobre resiliência, enquanto os gémeos Zach e Mia, unidos por um laço indestrutível, são o reflexo da necessidade de pertencimento.

A presença do marido de Jude e da tia de Lexi traz um equilíbrio necessário à trama, suavizando o turbilhão emocional e oferecendo uma esperança, por vezes inesperada. 

É uma história que, embora profundamente comovente, também nos ensina que, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, o caminho até casa,  seja ele físico ou emocional, é sempre possível.

Preparem os lenços para este livro comovente, intenso, humano e inesquecível.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Todas as Famílias Felizes, de Miguel D' Alte


Todas as Famílias Felizes
começa com o desaparecimento de Clara Paixão, uma menina de 12 anos no Porto. A investigação, conduzida pelos inspetores Jaime Ferreira e Beatriz Peixoto, cruza-se com o olhar do jornalista Ademar Leal, que acaba por se envolver de forma intensa no caso. 

Mas..

rapidamente percebi que este livro não se resume a um mistério por resolver.

O que mais me prendeu foi a forma como a história vai muito além do enredo policial e se concentra nos segredos, nas fragilidades e nas zonas cinzentas das pessoas. Nada é simples, nada é totalmente seguro, e isso cria uma inquietação constante.

Para mim, antes de o catalogar como policial, considero-o sobretudo um thriller: a investigação está presente, mas o verdadeiro impacto reside no lado psicológico e na tensão emocional que atravessa toda a narrativa.

A alternância de planos narrativos mantém a tensão sempre elevada, o que tornou a leitura completamente viciante. Daquelas em que dizemos “só mais um capítulo” vezes sem conta.

O final deixou-me sem palavras. É forte, inesperado e perturbador, com aquela sensação agridoce.

Li de forma quase compulsiva, senti-me desconfortável (o que, para mim, é sempre um ótimo sinal) e cheguei ao fim a pensar: ok, isto foi mesmo muito bem feito. 

E, como adorei, fiquei com uma vontade enorme de continuar a ler o autor!

Recomendo vivamente.

E tu, gostas mais de thrillers cheios de ação ou daqueles que nos mexem com a cabeça e nos fazem desconfiar de tudo e de todos?


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Os crimes de Verão de 1985, de Miguel D'Alte

 

Terminei Os Crimes do Verão de 1985, e Uauu, que leitura viciante! 

A história passa-se na pequena Ilha do Poço Negro, em 1985, quando duas crianças desaparecem juntamente com a sua cuidadora, Beatriz, numa noite de tempestade. O caso é encerrado oficialmente nesse mesmo ano, mas décadas mais tarde, em 2012, novas pistas obrigam o jornalista Ademar Leal a retomar a investigação, trazendo à tona mistérios antigos e segredos que ainda pairam sobre a ilha.

O livro lida com temas como violência, segredos familiares, entre outros, e a narrativa consegue manter o suspense, com ritmo constante e novas revelações que nos prendem do início ao fim. 

Confesso que normalmente não gosto de narrativas com saltos entre períodos temporais, mas aqui está muito bem conseguido; o passado e o presente complementam-se de forma perfeita.

A escrita é envolvente, os capítulos curtos tornam a leitura viciante, e o ambiente da ilha está descrito de forma magistral. Um thriller português que não dá descanso e que recomendo a todos os fãs do género. 

Já leram este livro? O que acharam? 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Uma Questão de Atração, de David Nicholls


Comecei este livro cheia de boa vontade. Mesmo.Parecia ser daquelas leituras com ar de “isto vai ser bom”. 

Spoiler: não foi mau… mas também não me agarrou como eu queria. 

Brian acredita que ser inteligente chega. Que o conhecimento compensa tudo o resto. Que, se uma pessoa for suficientemente brilhante, o amor acaba por aparecer por mérito académico.

Na universidade, entre "borgas" e aulas, ele vai percebendo que a atração não funciona assim. Alice, claro, é o problema central: confiante, distante, linda e completamente fora do seu alcance emocional. 

Fiquei desapontada, confirmando-se a minha teoria de há livros que só fazem sentido se forem lidos na altura certa da vida. Ainda assim, trouxe-me uma certa nostalgia.

Muitas das músicas mencionadas no livro são dos anos 80 e 90, e talvez por isso queira ver o filme Starter for 10 (título original do livro). Só que não ajuda o facto de não estar disponível na Netflix, nem lado nenhum, já agora 

E vocês, já leram o livro ou viram o filme?

sábado, 3 de janeiro de 2026

O Crime mais maravilhoso do ano, de Ally Carter


Este livro responde à pergunta que ninguém fez mas todos precisávamos de ver respondida: E se juntássemos Natal, um crime, uma mansão isolada pela neve e dois escritores que se detestam?

Resultado: funciona. E funciona bem.

Temos Maggie Chase, autora de cozy mysteries, organizada, controlada e com uma ligeira alergia a pessoas difíceis.

E temos Ethan Wyatt, escritor de thrillers cheios de ação, ego grande, charme excessivo e uma necessidade inexplicável de a irritar a cada frase.

Ambos são convidados para passar o Natal numa mansão inglesa pertencente à lendária Eleanor Ashley, aka Duquesa da Morte. Só que Eleanor decide fazer aquilo que toda a gente educada evita no Natal: desaparecer num quarto trancado por dentro.

A partir daqui temos neve a bloquear saídas, suspeitos por todo o lado, pistas espalhadas com mais estilo do que lógica policial e diálogos cheios de sarcasmo.

O livro é divertido. Lê-se depressa, ri-me algumas vezes e avancei mais pelo prazer da interação entre as personagens do que pela urgência de descobrir o culpado.

É perfeito para quem: gosta de cozy crime, aprecia rivalidade com química e quer mistério sem muito stress.

Gostei muito! 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A Felicidade na Forma de um Gato, de Rui Kodemari


A Felicidade na Forma de um Gato conta a história de Ayano e Michio, um casal que se encontra depois de relações falhadas e constrói uma vida em comum marcada pela rotina, pelo afeto e pela presença silenciosa de um gato que acaba por se tornar o verdadeiro centro emocional da casa. A narrativa acompanha os anos que passam, as mudanças inevitáveis e a forma como este animal observa, sem julgar, tudo o que acontece à sua volta.

A escrita é suave, a leitura confortável e a mensagem clara: a felicidade mora nas pequenas coisas — e, muitas vezes, tem quatro patas.

Gostei da história, está bem contada e é agradável de ler, mas confesso que fiquei com a sensação de que Ayano e Michio podiam ter sido mais desenvolvidos enquanto personagens, talvez porque o livro assume, acima de tudo, o papel de uma verdadeira ode aos gatos, acabando o lado humano por ficar um pouco mais em segundo plano.

Uma leitura bonita, tranquila, reconfortante e comovente, perfeita para amantes de gatos.

Já leste este livro? 



domingo, 28 de dezembro de 2025

Huris, de Kamel Daoud

A narrativa centra-se em Alva, uma jovem argelina sobrevivente de um ataque islamista. A violência marcou-a para sempre: perdeu a voz e carrega uma cicatriz profunda na garganta. Incapaz de falar, Alva passa a contar a sua história em silêncio, dirigindo-se à filha que ainda traz no ventre. “Falo-te em silêncio, porque neste país até a dor aprendeu a calar-se” -é a essa criança que ela confessa os seus medos, dúvidas e memórias, questionando se faz sentido nascer num país onde ser mulher continua a ser tão difícil.

Ao longo do livro, Alva revisita a guerra, a impunidade, a violência quotidiana e o peso de uma sociedade profundamente patriarcal. A narração não se limita à sua voz interior: o autor dá espaço a múltiplas perspectivas — mulheres, crianças, sobreviventes, mortos e até animais — criando um coro de testemunhos que expõe uma realidade dura e muitas vezes silenciada. 

A escrita é poética, intensa e carregada de imagens fortes, tornando a leitura emocionalmente exigente.

A primeira parte destaca-se pela força e impacto com que nos mergulha na história e na dor da protagonista. À medida que o livro avança, o ritmo e a intensidade tornam-se mais irregulares, mas a carga simbólica e temática mantém-se presente, sempre ligada à memória, ao trauma e à impossibilidade de esquecer.

A polémica em torno da obra surge não só pela censura estatal, mas também pelas acusações de que a história poderá ter sido inspirada numa vítima real.

 Independentemente disso, Huri acaba por cumprir um papel importante: expõe um período da história argelina pouco conhecido e lança luz sobre a condição das mulheres num contexto marcado pela violência e pelo silêncio.

Uma leitura intensa, desconfortável e, sem dúvida, diferente.



quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Os meus amigos, de Fredrik Backman


Já tinha lido boas críticas sobre Os Meus Amigos, e como sou fã do Fredrik Backman decidi finalmente pegá-lo. Desde logo, muitas pessoas falaram da intensidade emocional e da beleza da escrita, e senti que tinha de o ler também, especialmente por ser um autor que já me tocou noutras obras e cuja prosa admiro profundamente. Além disso, o livro foi eleito pelos leitores do Goodreads como o melhor na categoria de ficção, o que aumentou ainda mais a minha curiosidade.

A história gira em torno de um grupo de adolescentes aparentemente perdidos (Joar, Ted, Ali e “o artista”), que encontram uns nos outros um refúgio e uma razão para enfrentar cada dia durante um verão inesquecível. Vinte e cinco anos depois, a Louisa "encontra" uma obra de arte que a leva a querer descobrir quem foram essas figuras e aquele que as criou, embarcando numa jornada de autodescoberta e reflexão sobre amizade, arte e o que realmente importa na vida.

As minhas impressões de leitura: este livro é um daqueles que te agarram pelo coração. A forma como Backman constrói as personagens faz com que te importes com cada uma delas, com as suas falhas, as suas dores e as suas pequenas vitórias. Há momentos de humor subtil, outros profundamente comoventes, e uma sensibilidade na descrição das relações humanas que me deixou muitas vezes emocionada. Como diz uma das passagens do livro, “Não é verdade que temos medo de estar sozinhos — o que realmente tememos é ser abandonados.”, e é precisamente esta vulnerabilidade que torna a história tão tocante. Também encontramos outra reflexão poderosa: “A arte é aquilo que deixamos de nós nos outros.”, lembrando-nos de como as nossas ações e relações podem deixar marcas duradouras.

Recomendo Os Meus Amigos sem hesitar, principalmente se gostas de histórias que exploram a essência da amizade e aquilo que nos forma como seres humanos.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Amor na Porta da Frente, de Andreia Ramos


Beatriz é médica em Lisboa e tem a vida organizada: está prestes a casar com um advogado conceituado. Mas tudo muda quando o vizinho barulhento, Gabriel, aspirante a músico, propõe que ela finja ser sua namorada durante o Natal, para agradar à família. O que começa como uma farsa transforma-se numa história divertida e ternurenta, mostrando que, por vezes, o amor está mesmo à porta da frente.

Li este livro porque a Márcia  disse: “vais gostar, confia”. Lá fui eu, meio desconfiada… e acabei a gostar muito! É leve, divertido e tem aquele drama na medida certa. A Beatriz e o Gabriel têm uma química que nos faz sorrir e continuar a virar páginas sem parar. Já conhecia a autora pelas redes sociais, mas esta foi a minha estreia com ela… e foi mesmo uma boa estreia, uma leitura perfeita para quem gosta de romances ternurentos e divertidos, ainda por cima com aquele clima natalício que adoro. 

💬 E vocês? Gostam de romances de Natal?