segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Lobos, de Tânia Ganho

 

Lobos, de Tânia Ganho, foi o meu primeiro contacto com a escrita da autora enquanto romancista. Não foi uma leitura que me envolvesse por completo desde o início. A narrativa é contida, avança com alguma reserva, e precisei de tempo para entrar verdadeiramente na história. Ainda assim, à medida que fui avançando, senti-me cada vez mais presa às personagens e ao universo que a autora constrói.

A narrativa acompanha várias figuras marcadas por experiências duras e limites difíceis de gerir. Fedra é antropóloga forense e lida diariamente com os horrores da dark web, uma exposição constante ao lado mais sombrio do ser humano. Leonor é uma adolescente a tentar recuperar de uma experiência profundamente traumática. Helena, a mãe, vive dividida entre a protecção da filha e os seus próprios conflitos internos. Stefan, ex-repórter de guerra, encontrou nos lobos e na natureza um refúgio inesperado, quase terapêutico, um espaço de silêncio e de cura depois de tudo o que viveu.

Os temas abordados são pesados e actuais. Abuso sexual de menores, saúde mental, envelhecimento e relações familiares surgem entrelaçados num contexto pandémico que acentua fragilidades já existentes. Nada é tratado de forma sensacionalista. Pelo contrário, há contenção, rigor e uma escrita consciente do peso emocional das situações descritas.

A dureza das histórias leva inevitavelmente à reflexão sobre a complexidade da natureza humana. A frase “Uma praga, as pessoas” surgiu, na minha mente, ao longo da leitura e resume bem o desconforto que o livro provoca. Há violência, dor e incompreensão, mas também tentativas de sobrevivência e de reconstrução.

A presença da natureza e dos lobos assume aqui um papel simbólico importante. Mais do que um cenário, funcionam como um espaço de afastamento do ruído humano, quase como uma forma de terapia, onde é possível respirar, observar e, de alguma forma, aprender a lidar com o trauma.

Lobos é um livro cujo impacto maior surge depois de terminada a leitura. Não se fecha de forma confortável nem oferece respostas fáceis. Obriga-nos a pensar, a revisitar temas incómodos e a reflectir sobre o que lemos. E é precisamente aí que reside a sua força.

Gostei muito e recomendo.

E vocês, já o leram? Como sentiram a escrita e as personagens?

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