«Quem se revê numa escrita que se proclama próxima da perfeição dirá que deslocar uma vírgula ou substituir uma palavra por um sinónimo é, por si só, escrever melhor. Contudo, em contexto profissional, nada me parece mais nocivo do que esperar que tudo resulte à primeira tentativa ou arrogar-se autoridade absoluta nessa matéria.
Na escola primária aprendemos que uma vírgula fora do lugar pode matar o sentido e a verdade das palavras, quando estas são arrancadas do seu contexto. Aprendemos também, desde cedo, que a escrita obedece a regras, como estas que aqui se aplicam. Ainda assim, não é raro que o aprumo dos dedos de quem sabe, num teclado que não é o nosso, adquira, aos nossos olhos, uma forma e um conteúdo novos, supostamente superiores e elegantes. E, nesse equívoco, convencemo-nos de que há falhas que só acontecem aos outros. Mas quando não existe um manual de instruções de quem tem a mania, nem uma bula que indique a hora exacta da toma, acabamos por engolir vírgulas com a vontade reprimida de lhes gritar impropérios vários, ainda que néscios.
Creio que o elevado grau de intransigência de quem tem a mania não decorre de uma alegada superioridade intelectual, exercida através de tácticas dirigidas aos seus supostos serviçais. Pelo contrário, revela antes a incapacidade de assumir uma liderança estimulante e consciente.
E então, uma vírgula, um sinónimo, fazem ou não a diferença? Podem fazer, mas não devem. Poder não é dever. Tal como, para se ser soberano na matéria, não basta parecer sê-lo, é essencial saber sê-lo. Perante semelhante espezinhamento, a assertividade dos argumentos teria apenas o efeito de enfadar e acintar quem cultiva tal mania, termo que, curiosamente, se define como apego excessivo ou obsessivo a uma ideia ou intenção. Entender isso como escrever melhor do que o outro não é mais do que uma obsessão, palavra que, não menos curiosamente, significa perseguição diabólica.
Por tudo isto, prefiro manter uma espécie de si-lên-ci-o perante tanta imperfeição, amparando-me no exemplo de quem verdadeiramente percebe de escrita, aquele que escreve porque sente e sente aquilo que escreve».










