
Inspirado no famoso acidente ferroviário de 1895 na Gare Montparnasse, O Expresso de Paris é um romance que exige entrega. O início pode ser desafiante: há muitas personagens, o enredo parece disperso e a sensação de desorientação acompanha os primeiros capítulos.Já conhecia Emma Donoghue pelos livros O Quarto de Jack e O Prodígio, que gostei bastante, por isso foi estranho encontrar aqui um ritmo mais lento e um estilo mais denso. Foi só quando deixei de tentar seguir uma narrativa linear e comecei a ler como quem vê um filme, cena a cena, que a história ganhou vida.
A autora leva-nos a bordo de um comboio que viaja de Granville para Paris, onde se cruzam figuras inspiradas em personagens reais e outras puramente ficcionais. Entre elas destaca-se Mado Pelletier, uma jovem anarquista, determinada e inconformada, disposta a levar os seus ideais ao limite. É uma personagem vibrante e complexa que marca profundamente o livro. Ao seu lado, encontramos Henry Tanner, pintor americano negro, e Marcelle, estudante de medicina, filha de cubana e francesa, ambos confrontados com o racismo e os preconceitos do final do século XIX. Blonska, uma mulher prática e resiliente, representa a classe trabalhadora e o espírito de resistência silenciosa.
O livro é uma tapeçaria de histórias individuais que refletem tensões sociais e políticas da época: desigualdade, identidade de género, orientação sexual, luta de classes e colonialismo. A frase “o conhecimento não é a única forma de poder” funciona como mote para refletir sobre as diferentes formas de influência e resistência que se cruzam a bordo daquele comboio.
As referências literárias, como A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Jules Verne, ou A Máquina do Tempo, de H. G. Wells, acentuam o valor simbólico da deslocação, do progresso e da aceleração histórica. O acidente ferroviário que inspira o romance não surge como ponto alto da ação, mas antes como metáfora de um mundo em avanço desmedido, que colide inevitavelmente com os seus próprios limites. A imagem da locomotiva a atravessar a estação e a tombar na rua encarna essa tensão entre velocidade, modernidade e consequência.
Recomendo O Expresso de Paris a quem aprecia romances históricos ricos em personagens e temas sociais, e que gosta de uma leitura lenta, reflexiva e repleta de simbolismo.
Já leste este livro? Conta-me se também sentiste essa dificuldade inicial e qual das personagens mais te marcou.