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sexta-feira, 22 de agosto de 2025

A última resistência: abrir um livro




Em 2019 escrevi sobre a minha crise com o Facebook aqui e a forma como as redes sociais se tornavam um vício, semelhante ao das batatas fritas: satisfazem no momento, mas só nos prejudicam. Nesse tempo já apelava à importância de preservar os hábitos de leitura.


Hoje, ao reler esse texto, percebo como continua atual. O problema já não é o Facebook, é o instagram, o tiktok e o scroll infinito das redes sociais. Pais e filhos, lado a lado, presos ao mesmo ecrã, a deslizar sem parar. E depois, com surpresa, muitos admiram-se quando se fala no fim do Plano Nacional de Leitura. Mas como manter vivo um programa que promove os livros, se ninguém lê? Se os livros são substituídos por vídeos de 30 segundos, por frases rápidas que não pedem reflexão?


Não é apenas a questão do “tempo a mais nas redes”. É um verdadeiro mudança de paradigma. A informação tem de ser instantânea, sem esforço, sem demora. Enquanto isso, a tecnologia avança, cria atalhos, promete pensar por nós. Mas será que ainda sabemos pensar sem ela?


Ler nunca foi apenas um passatempo. É um ato de resistência. É a forma mais simples e poderosa de aprender a refletir, de exercitar o pensamento crítico, de não deixar que outros escolham por nós.


A situação lembra a distopia literária Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, onde os livros eram queimados e a sociedade perdia a capacidade de pensar criticamente — e é exatamente esse cenário que enfrentamos se a tecnologia vencer e não houver livros para nos devolver essa capacidade de reflexão.


Por isso, hoje como em 2019, deixo o mesmo apelo: Por favor, leiam. Ensinem os vossos filhos a abrir um livro… antes que a última resistência se perca, que só saibam deslizar o dedo e, qualquer dia, perguntem como se liga um livro.


Estou a exagerar? Talvez. Mas espero que daqui a [outros] seis anos o que me parece agora uma distopia não se confirme como realidade - e como dura lição. 


 

terça-feira, 22 de julho de 2025

A Pressão Invisível nas Redes Sociais: O Lado Oculto do Bookstagram e da Tirania do Algoritmo

Nas redes sociais, especialmente no universo dos bookstagrammers, a leitura — esse ato íntimo, tranquilo, quase sagrado — transformou-se, muitas vezes, numa corrida sem meta definida. Há cada vez mais pressão para ler mais, mostrar mais, publicar mais. Vejo contas com pilhas de livros lidos em tempo recorde e outras que, não lendo assim tanto, fazem parecer que sim. Finjo que acredito. Cada um sabe de si. A vida é feita de escolhas, e ler porque se gosta também é uma escolha. Mas é uma escolha que parece estar a desaparecer, engolida pelas exigências de uma plataforma que recompensa o excesso.


O Instagram, esse patrão invisível e incansável, dita regras com mão de ferro: mais conteúdo, mais engagement, mais visibilidade. A tirania do algoritmo impõe uma presença constante, criatividade infindável, imagens sempre perfeitas. Não basta ler — é preciso mostrar que se lê. Não basta gostar — é preciso convencer os outros disso. E quando a exaustão bate à porta, há quem vá ao Threads desabafar, queixar-se da queda de alcance, da falta de seguidores, do cansaço que se instala. A culpa, dizem, é do algoritmo.


Mas será só isso? Será mesmo necessário viver esta maratona permanente? Será que ainda lemos por prazer, ou apenas para cumprir um calendário não escrito, ditado por métricas invisíveis e vontades alheias? A pressão é real — silenciosa, mas esmagadora. Talvez esteja na hora de parar. De recuperar o prazer lento e honesto da leitura. De escolher o silêncio ao ruído, a autenticidade à performance.


Porque, no fim, o mais importante não é quantos livros lemos, mas o que eles deixam em nós. E isso, por mais filtros que se apliquem, não cabe numa fotografia quadrada.