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domingo, 28 de dezembro de 2025

Huris, de Kamel Daoud

A narrativa centra-se em Alva, uma jovem argelina sobrevivente de um ataque islamista. A violência marcou-a para sempre: perdeu a voz e carrega uma cicatriz profunda na garganta. Incapaz de falar, Alva passa a contar a sua história em silêncio, dirigindo-se à filha que ainda traz no ventre. “Falo-te em silêncio, porque neste país até a dor aprendeu a calar-se” -é a essa criança que ela confessa os seus medos, dúvidas e memórias, questionando se faz sentido nascer num país onde ser mulher continua a ser tão difícil.

Ao longo do livro, Alva revisita a guerra, a impunidade, a violência quotidiana e o peso de uma sociedade profundamente patriarcal. A narração não se limita à sua voz interior: o autor dá espaço a múltiplas perspectivas — mulheres, crianças, sobreviventes, mortos e até animais — criando um coro de testemunhos que expõe uma realidade dura e muitas vezes silenciada. 

A escrita é poética, intensa e carregada de imagens fortes, tornando a leitura emocionalmente exigente.

A primeira parte destaca-se pela força e impacto com que nos mergulha na história e na dor da protagonista. À medida que o livro avança, o ritmo e a intensidade tornam-se mais irregulares, mas a carga simbólica e temática mantém-se presente, sempre ligada à memória, ao trauma e à impossibilidade de esquecer.

A polémica em torno da obra surge não só pela censura estatal, mas também pelas acusações de que a história poderá ter sido inspirada numa vítima real.

 Independentemente disso, Huri acaba por cumprir um papel importante: expõe um período da história argelina pouco conhecido e lança luz sobre a condição das mulheres num contexto marcado pela violência e pelo silêncio.

Uma leitura intensa, desconfortável e, sem dúvida, diferente.