quinta-feira, 31 de julho de 2025

Um casal perfeito, de Ruth Ware

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Um Casal Perfeito, de Ruth Ware, chegou numa altura em que só queria sair do barulho dos dias e mergulhar numa história que me fizesse esquecer o mundo. E conseguiu. 


A premissa, à partida, não é nova: um reality show, um grupo de concorrentes numa ilha isolada, um prémio para o último casal sobrevivente. Mas o que podia ser apenas mais um thriller com sabor a déjà vu, torna-se, nas mãos de Ruth Ware, num jogo psicológico envolvente, onde cada detalhe conta e nada é o que parece.


Lyla é uma personagem com quem é fácil criar empatia. Está num momento frágil da vida, profissional e emocionalmente, e essa vulnerabilidade torna-a real. O namorado, Nico, quer uma carreira no mundo do espetáculo — e é assim que acabam por entrar num programa que promete diversão, desafios e talvez um novo rumo. Mas, quando a ilha se revela mais hostil do que paradisíaca, e quando os desafios passam do físico ao psicológico, percebemos que há muito mais em jogo do que um prémio em dinheiro. Há decisões morais, jogos de poder e sobrevivência a sério.


O que mais me impressionou foi a forma como a autora nos conduz pela tensão crescente sem nunca cair na tentação do exagero. Tudo é plausível, até quando o medo se instala. A escrita é fluída, o ritmo é certeiro e o ambiente — entre sol, chuva e suspeita — cria uma sensação de claustrofobia que nos cola à história. 


Na minha opinião, Ruth Ware presta aqui uma subtil homenagem a Agatha Christie, especialmente na forma como manipula suspeitas e nos obriga a desconfiar de todos. Mas com uma linguagem moderna, com temas atuais, e com um olhar atento àquilo que consumimos como entretenimento.


E o final? O final é daqueles que nos faz repensar toda a leitura. O interesse não reside apenas na resolução do mistério, mas na motivação subjacente, que levanta questões morais e psicológicas muito interessantes. 


Foi uma leitura viciante, inesperada e inteligente. 


Recomendo vivamente.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

O que deveria ser "Não percebi"

Acordei às 6h30. Como sempre. Mesmo estando de férias. Bebi café ainda de olhos semicerrados, agarrei no telemóvel como se fosse uma extensão da mão, emails, notícias, notificações que diziam que o mundo continuava, como se isso fosse um consolo. Nada mudou. Ou talvez tenha mudado tudo, mas de forma tão subtil que já nem noto.


A rotina era um disfarce. Mas nesse dia, já não serviu. Abri o computador. Ia escrever algo leve, talvez uma crónica para limpar a cabeça. Mas os dedos recusaram.


Escrevi o título: “O que deveria ser.”  


Fiquei a olhar para ele durante uns minutos. Do outro lado do ecrã, o cursor a piscar...um pulso mecânico a lembrar que estou viva. Ou que deveria estar. E então escrevi, não com intenção, mas com urgência. Não pensei no que ia dizer, só sabia que não queria mais fingir que tudo estava mais ou menos.


Falei daquilo que se engole todos os dias para manter o corpo funcional: as concessões, as versões de mim que não escolhi, os gestos repetidos até perderem sentido. Falei da sensação de estar sempre a meio de um lugar nenhum. Falei do absurdo de sorrir às pessoas enquanto dentro há escombros. Falei do medo de nunca encontrar nada que não me desgaste. Falei do silêncio; não o pacífico, o outro, o que se acumula nas vísceras. Falei de mim sem escapatória.


O texto transformou-se num conto. Uma mulher com uma vida exemplar escrevia um manifesto secreto.


No final do conto, ela enviava esse texto como candidatura para um emprego público.


Chamaram-na a entrevista.


Aprovaram-na com distinção.


Ela sentou-se na cadeira nova, abriu o computador do emprego e nunca mais escreveu.


FIM.


***


Publiquei-o num blogue antigo, esquecido. Sem nome, sem partilhas.


Uma hora depois, um comentário: “Não percebi.”


Respondi: Era essa a ideia. Que não se perceba. Tal como ninguém percebe como é que alguém sobrevive a trabalhar anos num sítio onde a criatividade vai morrer.


Fechei o computador. Bebi outro café. Não senti alívio. Mas naquela manhã, pela primeira vez em muito tempo, tudo pareceu verdadeiro.


 


 

terça-feira, 29 de julho de 2025

Que género literário é o teu? Um quiz moderno para descobrir

Há uns anos, uma amiga pediu-me recomendações de leitura — e essa pergunta ficou na minha cabeça durante uns dias: como escolher o livro certo para cada pessoa ou momento da vida? O que nos encanta num verão pode não fazer sentido noutra fase. Tudo depende do que estamos a viver, do que procuramos, daquilo que sentimos necessidade de explorar. Às vezes queremos mergulhar num romance arrebatador; noutras, preferimos um policial cheio de suspense ou uma leitura leve para saborear ao sol.


Inspirada por essa conversa, lembrei-me dos testes que fazíamos nas revistas da adolescência — aqueles quiz divertidos que “revelavam” a nossa personalidade ou a nossa compatibilidade com alguém. Eram brincadeiras inocentes, mas cheias de charme e boas memórias. Mais recentemente, encontrei um teste literário online, mais atual e alinhado com as tendências de leitura de 2025. Decidi adaptá-lo e criar uma versão descontraída para quem quiser descobrir qual o género literário que mais combina consigo.


Se gostas de livros e de te conhecer melhor, este teste é para ti. Pega num papel, aponta as tuas respostas e soma os pontos no final!


TESTE: Que género literário é o teu?


1. O teu programa preferido durante uma viagem é:


a) Visitar museus e conhecer um pouco da história local.
b) Realizar atividades radicais. Sempre em busca de adrenalina!
c) Observar os costumes dos moradores locais.
d) Descobrir as lendas e mistérios por detrás de cada lugar visitado.
e) Conhecer pessoas e fazer amizades.


2. Acabaste de ganhar uma viagem para qualquer destino. Para onde ias?


a) Ficaria na dúvida. Gostava de ir a vários sítios.
b) Qualquer destino na Europa. Quero conhecer mais da história europeia.
c) Vaticano – sonho estar num local importante para o Catolicismo.
d) Itália, terra de Dante, poetas e amores eternos.
e) Uma cidade brasileira – adorava conhecer a cultura e os costumes locais.


3. Se pudesses viajar no tempo, para quando irias?


a) Ficava no presente. Gosto da modernidade.
b) Avançava para o futuro – adoro novidades tecnológicas!
c) Século XII, para participar numa Cruzada e desvendar novos mundos.
d) Ao início da humanidade, para descobrir como tudo começou.
e) Século XV – queria dançar nos bailes da nobreza nos castelos.


4. O que não pode faltar numa viagem?


a) "O Principezinho" – uma leitura que consola sempre.
b) Um romance de verão – nada como um amor breve.
c) Histórias engraçadas para contar depois.
d) Visitas a locais históricos e culturais.
e) Aventura e muita adrenalina!


5. Que traço é essencial no companheiro de viagem?


a) Espírito de aventura.
b) Bom humor.
c) Curiosidade.
d) Companheirismo.
e) Mente aberta e sem preconceitos.


6. Qual destes títulos te chama mais à atenção?


a) O Livro dos Prazeres.
b) Os Homens Não São Máquinas.
c) De Cabeça para Baixo.
d) Jerusalém.
e) Histórias de Detetive.




Soma os teus pontos!


Tabela de pontos:



  1. a = 3 | b = 2 | c = 0 | d = 4 | e = 1

  2. a = 2 | b = 3 | c = 4 | d = 1 | e = 0

  3. a = 0 | b = 2 | c = 3 | d = 4 | e = 1

  4. a = 4 | b = 1 | c = 0 | d = 3 | e = 2

  5. a = 2 | b = 0 | c = 3 | d = 1 | e = 4

  6. a = 1 | b = 3 | c = 0 | d = 4 | e = 2




RESULTADOS:


🟡0 a 4 pontos – Contos e Crónicas
Gostas de ficção, mas com os pés bem assentes na realidade. Observador(a), atento(a) aos detalhes, és como um cronista da vida — gostas de partilhar o teu olhar sobre o mundo, com um toque de crítica e ironia.


🟠 5 a 9 pontos – Romances e Poesias
És uma alma sensível e apaixonada. A emoção está sempre presente nas tuas leituras. Valorizas histórias humanas, relações profundas e palavras que toquem o coração.


🔵 10 a 14 pontos – Suspense e Policiais
Tens sede de aventura! A tua curiosidade leva-te por enredos cheios de mistério, enigmas e reviravoltas. Adoras um bom quebra-cabeças e raramente resistes a descobrir “quem foi o culpado”.


🟤 15 a 19 pontos – Históricos e Biográficos
Viajar no tempo? Contigo, é possível! Fascinam-te os grandes feitos do passado e as histórias reais de quem moldou o mundo. Através dos livros históricos ou biografias, revives eras longínquas com emoção.


🟣 20 a 24 pontos – Religiosos ou Esotéricos
Tens um espírito curioso e contemplativo. As grandes questões da vida não te assustam — pelo contrário, motivam-te. Procuras sentido, conhecimento e conexão através de leituras mais introspectivas.




E então? Identificaste-te com o teu resultado? Que género literário te saiu? Partilha nos comentários.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Quando um clube de leitura deixa de ser só sobre livros

Começou como uma experiência de biblioterapia, essa forma tão simples e profunda de encontrar sentido nos livros e, com eles, em nós próprios. Líamos para estarmos presentes num convívio saudável, para compreendermos os nossos gostos e os dos outros e, sobretudo, para partilhar as melhores leituras de cada um. Era um espaço íntimo, quase terapêutico, uma catarse de ideias onde a palavra tinha peso e a escuta era tão importante como a fala. As leituras eram diferentes, os estilos variavam, mas isso não importava. A beleza estava na diversidade, na liberdade com que cada um trazia o seu mundo e o oferecia aos outros. Era leve, era vivo.E assim, num círculo de leitores livres, criava-se algo bonito: uma escuta sem pressa e uma partilha verdadeira.


Mas os grupos crescem. E, com o crescimento, chegam também as dificuldades. Mais pessoas significam mais livros, mais opiniões, mais vozes a quererem ser ouvidas. O tempo, que antes parecia sobrar, começou a faltar. As intervenções tiveram de ser controladas, os temas passaram a ser sugeridos, as regras começaram a surgir — discretas, mas necessárias. E com elas vieram os primeiros sinais de desconforto.


Nem todos gostaram. Alguns sentiram-se travados, outros atropelados. Uns queriam mais profundidade, outros mais leveza. Os que seguiam as regras começaram a sentir que eram os únicos a ceder. Os que não as respeitavam pareciam não perceber o impacto que causavam. A harmonia deu lugar ao desequilíbrio. E, com o tempo, a partilha passou a ser também frustração.


Mais pessoas significaram mais livros, mais gostos, mais formas de estar. Aos poucos, a leitura deixou de ser encontro e passou a exibição. Já não se fala tanto do que o livro nos fez sentir, mas da opinião que temos sobre ele. 


Tentámos ajustar. Dividir o tempo, dividir o grupo, encontrar soluções. Mas gerir um grupo é, muitas vezes, gerir vontades que nem sempre se cruzam. E quando se começa a criticar sem propor alternativas, quando se fala alto mas se recusa escutar, já não se está a contribuir. Está-se a complicar.Está-se a repetir e a fazer parte do problema.


Aquele lugar onde se partilhavam emoções transformou-se, aos poucos, num espaço onde se acumulam opiniões. E o que era terapêutico tornou-se cansativo.


Partilhar livros é partilhar pedaços de nós. É um gesto de entrega. E a entrega só floresce quando há respeito, quando há tempo para o outro existir também. Talvez um clube de leitura não precise de ser perfeito. Mas precisa de ser humano. Precisa de saber acolher. E isso começa em cada um de nós. No silêncio atento, na palavra comedida, no desejo sincero de estar ali, não só para ser ouvido, mas para ouvir também.


O que se sonhou como biblioterapia não precisa de morrer. Só precisa de reencontrar o seu centro. E esse centro está sempre em nós. Talvez o segredo não esteja em agradar a todos, mas em não esquecer o propósito que nos juntou. 


O que pensas sobre o desafio de partilhar leituras num grande grupo? Achas que é possível manter o espírito da biblioterapia num grupo maior?


 


 

domingo, 27 de julho de 2025

Água Salgada”, de Charles Simmons


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Este foi daqueles livros que se lê num ápice. Com uma escrita bonita e envolvente, Charles Simmons conta-nos a história de Michael, um rapaz de 16 anos que vai passar mais um verão com os pais numa pequena ilha, como sempre fez. Tudo parece familiar, até surgir Zina, uma jovem de 20 anos que vai abalar por completo a rotina e a paz daquela família. O que começa por parecer um verão leve e típico de juventude rapidamente se transforma numa história sobre amor, desejo, ciúmes e perda. A narrativa é viciante e a teia de relações que se forma entre os personagens é densa, ainda que subtilmente construída. Trata-se de um daqueles romances de formação que retratam a passagem da adolescência para a vida adulta com intensidade e melancolia.

Confesso que estava à espera do final e isso retirou-lhe um pouco do impacto. Se não tivesse adivinhado o desfecho cedo demais, talvez tivesse dado mais do que 4 estrelas. Ainda assim, é uma história poderosa, ideal para ler numa tarde de verão. A brevidade da narrativa torna-a perfeita para quem procura uma leitura intensa, mas acessível.

Recomendo sem hesitação.

Já leste “Água Salgada”? Que impressão te deixou o final?

sexta-feira, 25 de julho de 2025

A fotografia que atravessou o tempo: curiosidades sobre o Expresso de Paris

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Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Expresso_Paris-Granville


Depois de terminar a leitura de O Expresso de Paris, fiquei a pensar na imagem com que a autora nos presenteia no final — uma locomotiva a atravessar uma estação, a destruir uma parede e a ficar pendurada sobre a rua, como se o tempo tivesse parado ali, naquele segundo. A autora oferece-nos alguns pormenores históricos nas últimas páginas, é verdade, mas confesso: sou curiosa. E aquela fotografia, tão real, tão absurda, tão assustadora, não me saiu da cabeça. Fui investigar.


O acidente aconteceu a 22 de outubro de 1895, na estação de Montparnasse, em Paris. Um comboio vinha de Granville com um ligeiro atraso. O maquinista, ansioso por compensar os minutos perdidos, acelerou demasiado. Ao chegar à estação, não conseguiu travar. A composição passou pela plataforma, rompeu as barreiras de segurança, atravessou a parede e... caiu. Literalmente. A locomotiva número 721 ficou pendurada na fachada do edifício e caiu de uma altura de cerca de 10 metros até à rua, matando uma única pessoa: uma senhora que vendia jornais na via pública, no pior lugar possível, no pior momento possível. A fotografia do desastre tornou-se famosa — reproduzida em jornais, postais e até em obras de arte. Foi retirada com recurso a um guincho e à força de 14 homens. Um episódio tão surreal que parece ficção, mas foi real. E tornou-se símbolo de um tempo em que o progresso era veloz, mas nem sempre seguro.


É fascinante ver como um romance pode abrir caminho à curiosidade, ao espanto e à descoberta. E como uma imagem, mesmo antiga, mesmo a preto e branco, diz tanto sem palavras que nos prende e torna impossível ignorar. Cada história guarda um fragmento do mundo, uma verdade que só se revela a quem tem a paciência de ir além do visível. E é nessa busca que a leitura se torna uma viagem sem fim.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

O Expresso de Paris, de Emma Donoghue

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Inspirado no famoso acidente ferroviário de 1895 na Gare Montparnasse, O Expresso de Paris é um romance que exige entrega. O início pode ser desafiante: há muitas personagens, o enredo parece disperso e a sensação de desorientação acompanha os primeiros capítulos.Já conhecia Emma Donoghue pelos livros O Quarto de Jack e O Prodígio, que gostei bastante, por isso foi estranho encontrar aqui um ritmo mais lento e um estilo mais denso. Foi só quando deixei de tentar seguir uma narrativa linear e comecei a ler como quem vê um filme, cena a cena, que a história ganhou vida. 


A autora leva-nos a bordo de um comboio que viaja de Granville para Paris, onde se cruzam figuras inspiradas em personagens reais e outras puramente ficcionais. Entre elas destaca-se Mado Pelletier, uma jovem anarquista, determinada e inconformada, disposta a levar os seus ideais ao limite. É uma personagem vibrante e complexa que marca profundamente o livro. Ao seu lado, encontramos Henry Tanner, pintor americano negro, e Marcelle, estudante de medicina, filha de cubana e francesa, ambos confrontados com o racismo e os preconceitos do final do século XIX. Blonska, uma mulher prática e resiliente, representa a classe trabalhadora e o espírito de resistência silenciosa.


O livro é uma tapeçaria de histórias individuais que refletem tensões sociais e políticas da época: desigualdade, identidade de género, orientação sexual, luta de classes e colonialismo. A frase “o conhecimento não é a única forma de poder” funciona como mote para refletir sobre as diferentes formas de influência e resistência que se cruzam a bordo daquele comboio.


As referências literárias, como A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Jules Verne, ou A Máquina do Tempo, de H. G. Wells, acentuam o valor simbólico da deslocação, do progresso e da aceleração histórica. O acidente ferroviário que inspira o romance não surge como ponto alto da ação, mas antes como metáfora de um mundo em avanço desmedido, que colide inevitavelmente com os seus próprios limites. A imagem da locomotiva a atravessar a estação e a tombar na rua encarna essa tensão entre velocidade, modernidade e consequência.


Recomendo O Expresso de Paris a quem aprecia romances históricos ricos em personagens e temas sociais, e que gosta de uma leitura lenta, reflexiva e repleta de simbolismo.  


Já leste este livro? Conta-me se também sentiste essa dificuldade inicial e qual das personagens mais te marcou.

Dos 1001 livros... e dos sonhos que mudam de forma

Sei que há quem leia este blogue em várias cidades do nosso pequeno país, Portugal, e também no Brasil, no Reino Unido, em Hong Kong, em Singapura e até nos Estados Unidos. Mas se estiverem por aqui, e já tiverem visitado a página dos 1001 livros para ler antes de morrer (lista 1001 livros), tenho duas coisas para partilhar convosco.


A primeira: quando comecei este espaço, essa lista era um projeto pessoal. Um daqueles desafios que nos motivam, que nos dão rumo e entusiasmo. Confesso que li apenas alguns títulos, não tantos como gostaria. O tempo, os gostos que vão mudando, outras leituras que se atravessam no caminho... tudo isso foi desviando-me do plano inicial.


A segunda: o meu gato — sim, o mesmo que adormece em cima dos livros como se fossem almofadas escolhidas a dedo — decidiu que aquele livro era um ótimo arranhador. Resultado? Capas rasgadas, páginas vincadas, um estrago irreversível. As unhas felinas são, afinal, inimigas naturais do papel.


Hoje, a reflexão impôs-se: os sonhos são frágeis. Às vezes, basta um gesto — ou uma pata! — para que se transformem noutra coisa. O que era entusiasmo virou frustração. E ficou um sabor agridoce, uma lembrança de que nada é eterno, nem sequer os nossos objetivos mais queridos.


Como escrevi no post anterior (este aqui), sinto, cada vez mais, a pressão em torno da leitura. As listas, os desafios, as novidades que não param de chegar. E eu pergunto-me: quantos bons livros vão ficar para trás, esquecidos, simplesmente porque não há tempo, ou porque a vida levou a atenção noutra direção?


Não sei se algum dia lerei os 1001 livros. Talvez nunca leia os 1001 livros. Mas talvez isso não importe, desde que continue a sonhar, e a lembrar-me de que, no fundo, sou eu quem decide o que fazer com os meus sonhos (e... com o meu gato!).

terça-feira, 22 de julho de 2025

A Pressão Invisível nas Redes Sociais: O Lado Oculto do Bookstagram e da Tirania do Algoritmo

Nas redes sociais, especialmente no universo dos bookstagrammers, a leitura — esse ato íntimo, tranquilo, quase sagrado — transformou-se, muitas vezes, numa corrida sem meta definida. Há cada vez mais pressão para ler mais, mostrar mais, publicar mais. Vejo contas com pilhas de livros lidos em tempo recorde e outras que, não lendo assim tanto, fazem parecer que sim. Finjo que acredito. Cada um sabe de si. A vida é feita de escolhas, e ler porque se gosta também é uma escolha. Mas é uma escolha que parece estar a desaparecer, engolida pelas exigências de uma plataforma que recompensa o excesso.


O Instagram, esse patrão invisível e incansável, dita regras com mão de ferro: mais conteúdo, mais engagement, mais visibilidade. A tirania do algoritmo impõe uma presença constante, criatividade infindável, imagens sempre perfeitas. Não basta ler — é preciso mostrar que se lê. Não basta gostar — é preciso convencer os outros disso. E quando a exaustão bate à porta, há quem vá ao Threads desabafar, queixar-se da queda de alcance, da falta de seguidores, do cansaço que se instala. A culpa, dizem, é do algoritmo.


Mas será só isso? Será mesmo necessário viver esta maratona permanente? Será que ainda lemos por prazer, ou apenas para cumprir um calendário não escrito, ditado por métricas invisíveis e vontades alheias? A pressão é real — silenciosa, mas esmagadora. Talvez esteja na hora de parar. De recuperar o prazer lento e honesto da leitura. De escolher o silêncio ao ruído, a autenticidade à performance.


Porque, no fim, o mais importante não é quantos livros lemos, mas o que eles deixam em nós. E isso, por mais filtros que se apliquem, não cabe numa fotografia quadrada.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Com amor, mãe, de Iliana Xander

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Existem livros que nos agarram de tal forma que mal conseguimos largar. Com amor, mãe, de Iliana Xander, é um desses casos.

A história começa com Mackenzie, que perde a mãe num acidente que, à primeira vista, parece trágico, mas depressa percebemos que há muito mais por trás. Quando começam a chegar cartas assinadas “Com amor, Mãe”, o mistério intensifica-se. Mackenzie e o seu melhor amigo, EJ, lançam-se numa investigação pessoal que os leva a desvendar segredos familiares profundos e perigosos.

A narrativa é construída a partir de pequenos fragmentos — capítulos curtos, várias perspetivas — que mantêm o ritmo rápido e a tensão sempre viva. Apesar de sentir uma ligeira quebra perto do final, o desfecho surpreendeu-me e emocionou-me, fechando a história com coerência e um impacto real.

Este thriller psicológico provocou-me dúvida, nervosismo e uma empatia inesperada. 

Gostei muito e recomendo.

Se procuras um livro cheio de reviravoltas, emoções fortes e segredos, este é para ti.

Já leste Com amor, mãe? 

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Sandwich, de Catherine Newman

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Um romance sobre estar no meio, entre filhos adultos e pais envelhecidos, entre o corpo em mutação e as exigências que nunca cessam. E também entre o amor, a frustração e o silêncio.

Rocky, a protagonista, passa uma semana de férias em Cape Cod com a família, mas o descanso parece impossível. Há conversas atravessadas, memórias que pesam, raiva silenciosa e amor que resiste. A escrita de Newman recorre a flashbacks para revelar outras camadas da protagonista, nem sempre simpática, muitas vezes exausta, tantas vezes centrada em si.

A menopausa é tratada com uma honestidade crua, quase desconcertante, o corpo esgotado por tudo o que lhe foi exigido: menstruar, engravidar, abortar, parir, amamentar, cuidar. E ainda estar inteira.

Confesso que tinha expetativas altas — pelo tema, claro, mas também por ter adorado O Amor Mora Aqui.  Por isso, esperava algo igualmente envolvente, terno e transformador. Sandwich seguiu um caminho diferente: mais cru, mais íntimo, mais desconfortável. Não me tocou da mesma forma, mas deixou marcas.

Gostei particularmente da barafunda que existe em todas as famílias que tentam passar férias juntas. As relações são tensas, reais, mas sem cortes dramáticos. Há irritação, sim, mas também espaço para continuar a ser família.

A escrita é íntima, irónica e por vezes amarga, mas capta com sensibilidade esse lugar ambíguo que tantas mulheres ocupam: entre o que já deram e o que ainda lhes é pedido.

Sandwich não é um livro que vai agradar a toda a gente. Por vezes, é mesmo desconfortável, sobretudo quando percebemos o quanto Rocky desgasta quem a rodeia… e o leitor. Mas há ali algo verdadeiro: um espelho imperfeito, que devolve fragmentos reconhecíveis para quem está nesta fase da vida.

Catherine Newman escreve com rara precisão sobre o desgaste físico e emocional de ser mulher entre gerações (entre pais que enfraquecem, filhos que exigem, e um corpo que muda sem aviso)..

A capa conquistou-me de imediato, e o tema prometia muito — mas não me envolveu como esperava.

Já leste Sandwich? O que achaste? Estou com vontade de falar sobre este livro.

terça-feira, 15 de julho de 2025

A Misteriosa Padaria na Rue de Paris, de Evie Woods

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Há livros que nos surpreendem pela forma como misturam o real e o improvável. A Misteriosa Padaria na Rue de Paris, de Evie Woods, foi exatamente assim. Edie Lane, vinda da Irlanda, aceita um trabalho numa pequena padaria francesa onde se diz que os bolos têm um efeito especial — desbloqueiam memórias, despertam emoções, mudam vidas. E, sem dar por isso, Edie mergulha num enredo cheio de segredos, onde o passado se mistura com o presente em cada gesto, cada receita, cada silêncio.


Gostei da leveza da escrita, da proximidade das personagens e do toque mágico que atravessa a história sem exageros. A protagonista tem o nome Edith — tão próximo do meu, Edite — o que me fez sentir uma ligação ainda mais pessoal. Foi uma leitura rápida, mas que deixou marca.


Ideal para esta altura do ano, em que sabe bem entrar numa história doce, reconfortante e cheia de descoberta.
Já te deixaste levar por um livro assim?

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Entre livros, monstros e tarefas

Este fim-de-semana foi cheio — e, ainda assim, trouxe-me pequenas pausas onde couberam palavras e pensamentos.


No sábado, o clube de leitura voltou a juntar-se, desta vez com um tema que nos levou à infância: livros infantojuvenis, com crianças como protagonistas, perguntas grandes em corpos pequenos e mundos que ainda acreditam no impossível.


Houve espaço para partilhas bonitas, e para a apresentação do livro Os monstros que vivem na minha cabeça, da Celina Lopes. Tive a oportunidade de assistir à leitura do livro ao vivo, feita pela autora Celina Lopes e pela ilustradora Daniela Lomba, e foi um momento mágico. Ver a emoção com que ambas partilharam esta história tornou a experiência ainda mais especial. 


Claro que o fim de semana não ficou por aqui. No domingo, a parte doméstica não tirou folga: organizei o tempo entre limpezas e roupa, enquanto as refeições ficaram a cargo do marido. Mas, entre um gesto e outro, consegui ainda sentar-me com o meu livro e avançar umas páginas.


Às vezes, os melhores momentos não são os mais extraordinários. São os que nos mostram que, entre o ruído dos dias, ainda sabemos escutar uma história, partilhar um livro, sentir que pertencemos.

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Fotografar é uma forma de pensar em imagens

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Fotografar é também uma forma de pensar em imagens, um diálogo silencioso entre o que somos, o que mostramos e o que ainda tentamos desvendar em nós mesmos. A Carla Oliveira Sousa captou mais do que a minha imagem: captou o desassossego da busca, a crítica interna, a imperfeição que carrego e que, pouco a pouco, tento acolher.

A Alma Perdida, de Olga Tokarczuk e Joanna Concejo

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Li o post da Inês do Mar de Maio e pensei logo que era o meu género de livro! 

 

Nesta breve e delicada narrativa, somos confrontados com uma verdade incómoda: a vida acelerada pode levar-nos a perder a nossa própria alma. O protagonista corre tanto que se esquece de quem é, até que um dia… para. E é na pausa que começa o reencontro com aquilo que o define. 

Da autora vencedora do Prémio Nobel da Literatura, A Alma Perdida é um tesouro visual com ilustrações lindíssimas. Não é, todavia, apenas uma história, é um espelho que nos devolve a pergunta: o que temos sacrificado em nome da pressa?

Gostei muito, só é pena que acabe rápido.

Vale a pena ler, reflectir, e contemplar as ilustrações. 

terça-feira, 8 de julho de 2025

O Sono dos Culpados, de Fábio Ventura

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No isolado Hotel Royal Enigma, uma equipa de filmagens fica presa após um fenómeno estranho e inquietante: um som ensurdecedor, semelhante a gritos, que deixa todos inconscientes. Ao acordar, descobrem que estão isolados, sem comunicações e rodeados por corpos adormecidos que não despertam.


Valentim, Jonas, Antoinette, Serena, Ângelo, Dante e Tadeu enfrentam não só o mistério do som e do isolamento, mas também os seus próprios segredos e culpas — ameaças invisíveis que pesam como sombras.


A escrita é direta e envolvente, com uma tensão constante que prende o leitor do início ao fim. Apesar de achar algumas passagens repetitivas, creio que essa persistência reforça o ambiente opressivo e a inquietação interna das personagens.


O final (de que não se está à espera) é inquietante e permanece connosco, muito depois da última página.


Em suma, é um thriller psicológico intenso e envolvente que explora o mistérios dos fantasmas da culpa e da consciência.


Gostei muito desta leitura. 


Já leste? Como foi a tua experiência com este livro?

domingo, 6 de julho de 2025

Tudo pela minha mãe, de Celina Lopes

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Pedro tem oito anos e foge de casa com um relógio e um saco de biscoitos. Não sabe bem do que foge (talvez da dor, do medo, da doença, da morte). Pelo caminho, encontra personagens que parecem saídas de uma fábula e, através delas, fragmentos de respostas. Cada encontro é uma janela para o mundo e para o coração de um menino que só quer voltar a sentir‑se inteiro.


Senti todas as emoções com ele. A confusão, o silêncio, o peso no peito. Lembrei‑me de quando tinha nove anos e perdi a minha avó paterna, das perguntas que não sabia fazer, das respostas que ninguém me podia dar. 


A narrativa é simples, como os pensamentos de uma criança, e está cheia de lengalengas infantis que fazem todo o sentido dentro do universo do Pedro.O final não é o que imaginamos, é mais calmo, mais verdadeiro, mais íntimo. Toca-nos com uma serenidade emocional que nos aquece e dá esperança.


A jornada de Pedro tem também algo de místico — chega ao fim‑do‑mundo “sem dar conta das horas”, como se atravessasse um espaço onde o tempo e a dor se dissolvem. Há algo de fábula e de cura nessa travessia.


Não dei 5 estrelas porque, apesar da emoção, senti que a história poderia ter sido mais contida em extensão.Há momentos em que perde impacto. Ainda assim, é um livro que toca fundo e fica connosco.


Este é um livro sobre o luto que não se sabe dizer, aquele que vive no silêncio de uma criança que ainda não aprendeu a perder.


Gostei. Fez-me emocionar e voltar à infância.


Já te emocionaste com um livro como se fosse contigo? 

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Desligar para ler

Gosto de ler porque me faz desligar. Da pressa. Das vozes. Dos pedidos constantes de atenção.É quando me perco num livro que encontro um silêncio bom, um espaço meu — onde o tempo se estica e a mente respira.Mas, ultimamente, até esse refúgio parece menos imune.As redes sociais não param. Pedem, puxam, exigem. Mais presença, mais conteúdo, mais rapidez.Nem sempre mais qualidade.E isso pesa.
Até o que é leve começa a cansar. Até o prazer da leitura sofre pequenas interrupções invisíveis, ruídos constantes que nos distraem do essencial. Ler devia continuar a ser isso: um desligar inteiro, um estar por completo. Talvez o desafio esteja em reaprender a proteger esse espaço.E não permitir que a urgência lá fora nos roube a paz cá dentro.

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Primeiro Semestre 2025:

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Li muito, li pouco, li quando quis e quando não quis.

No fim, o que fica é o hábito — ler é sempre continuar a viver.

terça-feira, 1 de julho de 2025

Frases para pensar

 


Tudo sabe a pouco, e a nada, mas é no pouco, no nada,que encontro o tanto que me faz respirar, o tanto que me faz querer ficar.


Tudo é nada, quando a alma pede sentido.
E ainda assim, esse mesmo pouco, esse nada, faz tanto — porque é nele que se medem as nossas maiores vontades,os gestos pequenos que acabam por ser tudo. 


 

Como avalio os livros que leio

Sempre que termino um livro, gosto de o avaliar com base em 6 categorias que, para mim, fazem toda a diferença numa boa leitura:  Enredo e ação, Personagens, Estilo de escrita, Originalidade, Impacto emocional e Final. Cada uma destas categorias recebe uma pontuação de 1 a 5 estrelas️ e depois obtenho a média. 

Nem sempre um livro precisa de brilhar em tudo para me conquistar… e, quando várias destas áreas se destacam, é quase certo que vai ficar comigo por muito tempo.️

E tu, costumas avaliar os teus livros? Que critérios usas?