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quarta-feira, 30 de julho de 2025

O que deveria ser "Não percebi"

Acordei às 6h30. Como sempre. Mesmo estando de férias. Bebi café ainda de olhos semicerrados, agarrei no telemóvel como se fosse uma extensão da mão, emails, notícias, notificações que diziam que o mundo continuava, como se isso fosse um consolo. Nada mudou. Ou talvez tenha mudado tudo, mas de forma tão subtil que já nem noto.


A rotina era um disfarce. Mas nesse dia, já não serviu. Abri o computador. Ia escrever algo leve, talvez uma crónica para limpar a cabeça. Mas os dedos recusaram.


Escrevi o título: “O que deveria ser.”  


Fiquei a olhar para ele durante uns minutos. Do outro lado do ecrã, o cursor a piscar...um pulso mecânico a lembrar que estou viva. Ou que deveria estar. E então escrevi, não com intenção, mas com urgência. Não pensei no que ia dizer, só sabia que não queria mais fingir que tudo estava mais ou menos.


Falei daquilo que se engole todos os dias para manter o corpo funcional: as concessões, as versões de mim que não escolhi, os gestos repetidos até perderem sentido. Falei da sensação de estar sempre a meio de um lugar nenhum. Falei do absurdo de sorrir às pessoas enquanto dentro há escombros. Falei do medo de nunca encontrar nada que não me desgaste. Falei do silêncio; não o pacífico, o outro, o que se acumula nas vísceras. Falei de mim sem escapatória.


O texto transformou-se num conto. Uma mulher com uma vida exemplar escrevia um manifesto secreto.


No final do conto, ela enviava esse texto como candidatura para um emprego público.


Chamaram-na a entrevista.


Aprovaram-na com distinção.


Ela sentou-se na cadeira nova, abriu o computador do emprego e nunca mais escreveu.


FIM.


***


Publiquei-o num blogue antigo, esquecido. Sem nome, sem partilhas.


Uma hora depois, um comentário: “Não percebi.”


Respondi: Era essa a ideia. Que não se perceba. Tal como ninguém percebe como é que alguém sobrevive a trabalhar anos num sítio onde a criatividade vai morrer.


Fechei o computador. Bebi outro café. Não senti alívio. Mas naquela manhã, pela primeira vez em muito tempo, tudo pareceu verdadeiro.


 


 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A permanência de uma memória

Uma avó, em sinapse memorável, pressentiu a chegada doadeus à memória, em arrebatada permanência, mas com uma brevidade equiparada auma folha de caderno que insiste em não se desprender. O que fazer quando aspalavras não chegam?!
- Era uma …
- Era uma vez, é muito piroso, avó! A história vaiparecer que é para bebés e eu já sou muito crescido! – disse o Gonçalo.
- Está bem - respondeu a avó -, vou continuar sedeixares. Há um mundo misterioso que existe na cabeça das pessoas. Esse mundopode ser uma memória ou um lugar enorme, cheio de experiências extraordinárias.O que preferes?
- Eu prefiro uma história sobre carros – disse ele - ecom carrosséis, pipocas coloridas, e algodão doce com sabor a chocolate.
- A avó vai contar a história, mas primeiro quero quesaibas que a memória pode ser simples ou complicada. Se for simples, tens umcérebro feliz. Se for complicada, tens de lutar e, se conseguires, tens deprocurar as respostas. Sabes, a tua cabecinha tem vida própria, mas preciso queentendas o início.
- A sério, avó? A história é sobre a minha cabeça! Eusei que, no outro dia, não a quis lavar..
Em luminescência incerta, a avó achou que deveriaexplicar. Talvez, se ….
- A tua cabeça? Não. Vou fazer uma pergunta e depoiscomeço a história. O teu carro tem um motor?
- Claro, o motor faz o carro andar!
- Com a memória é igual, pois, tal como um carro velho,pode esquecer-se de trabalhar.
- E o óleo, avó?
- O óleo ajuda.
- E não existe um óleo desses para amemória, avó?
- Existe. Chama-se paciência e amor.
- Avó, tu já és velhinha, contas ahistória?
-Paciência amor, vou contar…Era uma…