quarta-feira, 23 de julho de 2025

O Expresso de Paris, de Emma Donoghue

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Inspirado no famoso acidente ferroviário de 1895 na Gare Montparnasse, O Expresso de Paris é um romance que exige entrega. O início pode ser desafiante: há muitas personagens, o enredo parece disperso e a sensação de desorientação acompanha os primeiros capítulos.Já conhecia Emma Donoghue pelos livros O Quarto de Jack e O Prodígio, que gostei bastante, por isso foi estranho encontrar aqui um ritmo mais lento e um estilo mais denso. Foi só quando deixei de tentar seguir uma narrativa linear e comecei a ler como quem vê um filme, cena a cena, que a história ganhou vida. 


A autora leva-nos a bordo de um comboio que viaja de Granville para Paris, onde se cruzam figuras inspiradas em personagens reais e outras puramente ficcionais. Entre elas destaca-se Mado Pelletier, uma jovem anarquista, determinada e inconformada, disposta a levar os seus ideais ao limite. É uma personagem vibrante e complexa que marca profundamente o livro. Ao seu lado, encontramos Henry Tanner, pintor americano negro, e Marcelle, estudante de medicina, filha de cubana e francesa, ambos confrontados com o racismo e os preconceitos do final do século XIX. Blonska, uma mulher prática e resiliente, representa a classe trabalhadora e o espírito de resistência silenciosa.


O livro é uma tapeçaria de histórias individuais que refletem tensões sociais e políticas da época: desigualdade, identidade de género, orientação sexual, luta de classes e colonialismo. A frase “o conhecimento não é a única forma de poder” funciona como mote para refletir sobre as diferentes formas de influência e resistência que se cruzam a bordo daquele comboio.


As referências literárias, como A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Jules Verne, ou A Máquina do Tempo, de H. G. Wells, acentuam o valor simbólico da deslocação, do progresso e da aceleração histórica. O acidente ferroviário que inspira o romance não surge como ponto alto da ação, mas antes como metáfora de um mundo em avanço desmedido, que colide inevitavelmente com os seus próprios limites. A imagem da locomotiva a atravessar a estação e a tombar na rua encarna essa tensão entre velocidade, modernidade e consequência.


Recomendo O Expresso de Paris a quem aprecia romances históricos ricos em personagens e temas sociais, e que gosta de uma leitura lenta, reflexiva e repleta de simbolismo.  


Já leste este livro? Conta-me se também sentiste essa dificuldade inicial e qual das personagens mais te marcou.

Dos 1001 livros... e dos sonhos que mudam de forma

Sei que há quem leia este blogue em várias cidades do nosso pequeno país, Portugal, e também no Brasil, no Reino Unido, em Hong Kong, em Singapura e até nos Estados Unidos. Mas se estiverem por aqui, e já tiverem visitado a página dos 1001 livros para ler antes de morrer (lista 1001 livros), tenho duas coisas para partilhar convosco.


A primeira: quando comecei este espaço, essa lista era um projeto pessoal. Um daqueles desafios que nos motivam, que nos dão rumo e entusiasmo. Confesso que li apenas alguns títulos, não tantos como gostaria. O tempo, os gostos que vão mudando, outras leituras que se atravessam no caminho... tudo isso foi desviando-me do plano inicial.


A segunda: o meu gato — sim, o mesmo que adormece em cima dos livros como se fossem almofadas escolhidas a dedo — decidiu que aquele livro era um ótimo arranhador. Resultado? Capas rasgadas, páginas vincadas, um estrago irreversível. As unhas felinas são, afinal, inimigas naturais do papel.


Hoje, a reflexão impôs-se: os sonhos são frágeis. Às vezes, basta um gesto — ou uma pata! — para que se transformem noutra coisa. O que era entusiasmo virou frustração. E ficou um sabor agridoce, uma lembrança de que nada é eterno, nem sequer os nossos objetivos mais queridos.


Como escrevi no post anterior (este aqui), sinto, cada vez mais, a pressão em torno da leitura. As listas, os desafios, as novidades que não param de chegar. E eu pergunto-me: quantos bons livros vão ficar para trás, esquecidos, simplesmente porque não há tempo, ou porque a vida levou a atenção noutra direção?


Não sei se algum dia lerei os 1001 livros. Talvez nunca leia os 1001 livros. Mas talvez isso não importe, desde que continue a sonhar, e a lembrar-me de que, no fundo, sou eu quem decide o que fazer com os meus sonhos (e... com o meu gato!).

terça-feira, 22 de julho de 2025

A Pressão Invisível nas Redes Sociais: O Lado Oculto do Bookstagram e da Tirania do Algoritmo

Nas redes sociais, especialmente no universo dos bookstagrammers, a leitura — esse ato íntimo, tranquilo, quase sagrado — transformou-se, muitas vezes, numa corrida sem meta definida. Há cada vez mais pressão para ler mais, mostrar mais, publicar mais. Vejo contas com pilhas de livros lidos em tempo recorde e outras que, não lendo assim tanto, fazem parecer que sim. Finjo que acredito. Cada um sabe de si. A vida é feita de escolhas, e ler porque se gosta também é uma escolha. Mas é uma escolha que parece estar a desaparecer, engolida pelas exigências de uma plataforma que recompensa o excesso.


O Instagram, esse patrão invisível e incansável, dita regras com mão de ferro: mais conteúdo, mais engagement, mais visibilidade. A tirania do algoritmo impõe uma presença constante, criatividade infindável, imagens sempre perfeitas. Não basta ler — é preciso mostrar que se lê. Não basta gostar — é preciso convencer os outros disso. E quando a exaustão bate à porta, há quem vá ao Threads desabafar, queixar-se da queda de alcance, da falta de seguidores, do cansaço que se instala. A culpa, dizem, é do algoritmo.


Mas será só isso? Será mesmo necessário viver esta maratona permanente? Será que ainda lemos por prazer, ou apenas para cumprir um calendário não escrito, ditado por métricas invisíveis e vontades alheias? A pressão é real — silenciosa, mas esmagadora. Talvez esteja na hora de parar. De recuperar o prazer lento e honesto da leitura. De escolher o silêncio ao ruído, a autenticidade à performance.


Porque, no fim, o mais importante não é quantos livros lemos, mas o que eles deixam em nós. E isso, por mais filtros que se apliquem, não cabe numa fotografia quadrada.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Com amor, mãe, de Iliana Xander

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Existem livros que nos agarram de tal forma que mal conseguimos largar. Com amor, mãe, de Iliana Xander, é um desses casos.

A história começa com Mackenzie, que perde a mãe num acidente que, à primeira vista, parece trágico, mas depressa percebemos que há muito mais por trás. Quando começam a chegar cartas assinadas “Com amor, Mãe”, o mistério intensifica-se. Mackenzie e o seu melhor amigo, EJ, lançam-se numa investigação pessoal que os leva a desvendar segredos familiares profundos e perigosos.

A narrativa é construída a partir de pequenos fragmentos — capítulos curtos, várias perspetivas — que mantêm o ritmo rápido e a tensão sempre viva. Apesar de sentir uma ligeira quebra perto do final, o desfecho surpreendeu-me e emocionou-me, fechando a história com coerência e um impacto real.

Este thriller psicológico provocou-me dúvida, nervosismo e uma empatia inesperada. 

Gostei muito e recomendo.

Se procuras um livro cheio de reviravoltas, emoções fortes e segredos, este é para ti.

Já leste Com amor, mãe? 

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Sandwich, de Catherine Newman

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Um romance sobre estar no meio, entre filhos adultos e pais envelhecidos, entre o corpo em mutação e as exigências que nunca cessam. E também entre o amor, a frustração e o silêncio.

Rocky, a protagonista, passa uma semana de férias em Cape Cod com a família, mas o descanso parece impossível. Há conversas atravessadas, memórias que pesam, raiva silenciosa e amor que resiste. A escrita de Newman recorre a flashbacks para revelar outras camadas da protagonista, nem sempre simpática, muitas vezes exausta, tantas vezes centrada em si.

A menopausa é tratada com uma honestidade crua, quase desconcertante, o corpo esgotado por tudo o que lhe foi exigido: menstruar, engravidar, abortar, parir, amamentar, cuidar. E ainda estar inteira.

Confesso que tinha expetativas altas — pelo tema, claro, mas também por ter adorado O Amor Mora Aqui.  Por isso, esperava algo igualmente envolvente, terno e transformador. Sandwich seguiu um caminho diferente: mais cru, mais íntimo, mais desconfortável. Não me tocou da mesma forma, mas deixou marcas.

Gostei particularmente da barafunda que existe em todas as famílias que tentam passar férias juntas. As relações são tensas, reais, mas sem cortes dramáticos. Há irritação, sim, mas também espaço para continuar a ser família.

A escrita é íntima, irónica e por vezes amarga, mas capta com sensibilidade esse lugar ambíguo que tantas mulheres ocupam: entre o que já deram e o que ainda lhes é pedido.

Sandwich não é um livro que vai agradar a toda a gente. Por vezes, é mesmo desconfortável, sobretudo quando percebemos o quanto Rocky desgasta quem a rodeia… e o leitor. Mas há ali algo verdadeiro: um espelho imperfeito, que devolve fragmentos reconhecíveis para quem está nesta fase da vida.

Catherine Newman escreve com rara precisão sobre o desgaste físico e emocional de ser mulher entre gerações (entre pais que enfraquecem, filhos que exigem, e um corpo que muda sem aviso)..

A capa conquistou-me de imediato, e o tema prometia muito — mas não me envolveu como esperava.

Já leste Sandwich? O que achaste? Estou com vontade de falar sobre este livro.