quinta-feira, 31 de julho de 2025

Um casal perfeito, de Ruth Ware

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Um Casal Perfeito, de Ruth Ware, chegou numa altura em que só queria sair do barulho dos dias e mergulhar numa história que me fizesse esquecer o mundo. E conseguiu. 


A premissa, à partida, não é nova: um reality show, um grupo de concorrentes numa ilha isolada, um prémio para o último casal sobrevivente. Mas o que podia ser apenas mais um thriller com sabor a déjà vu, torna-se, nas mãos de Ruth Ware, num jogo psicológico envolvente, onde cada detalhe conta e nada é o que parece.


Lyla é uma personagem com quem é fácil criar empatia. Está num momento frágil da vida, profissional e emocionalmente, e essa vulnerabilidade torna-a real. O namorado, Nico, quer uma carreira no mundo do espetáculo — e é assim que acabam por entrar num programa que promete diversão, desafios e talvez um novo rumo. Mas, quando a ilha se revela mais hostil do que paradisíaca, e quando os desafios passam do físico ao psicológico, percebemos que há muito mais em jogo do que um prémio em dinheiro. Há decisões morais, jogos de poder e sobrevivência a sério.


O que mais me impressionou foi a forma como a autora nos conduz pela tensão crescente sem nunca cair na tentação do exagero. Tudo é plausível, até quando o medo se instala. A escrita é fluída, o ritmo é certeiro e o ambiente — entre sol, chuva e suspeita — cria uma sensação de claustrofobia que nos cola à história. 


Na minha opinião, Ruth Ware presta aqui uma subtil homenagem a Agatha Christie, especialmente na forma como manipula suspeitas e nos obriga a desconfiar de todos. Mas com uma linguagem moderna, com temas atuais, e com um olhar atento àquilo que consumimos como entretenimento.


E o final? O final é daqueles que nos faz repensar toda a leitura. O interesse não reside apenas na resolução do mistério, mas na motivação subjacente, que levanta questões morais e psicológicas muito interessantes. 


Foi uma leitura viciante, inesperada e inteligente. 


Recomendo vivamente.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

O que deveria ser "Não percebi"

Acordei às 6h30. Como sempre. Mesmo estando de férias. Bebi café ainda de olhos semicerrados, agarrei no telemóvel como se fosse uma extensão da mão, emails, notícias, notificações que diziam que o mundo continuava, como se isso fosse um consolo. Nada mudou. Ou talvez tenha mudado tudo, mas de forma tão subtil que já nem noto.


A rotina era um disfarce. Mas nesse dia, já não serviu. Abri o computador. Ia escrever algo leve, talvez uma crónica para limpar a cabeça. Mas os dedos recusaram.


Escrevi o título: “O que deveria ser.”  


Fiquei a olhar para ele durante uns minutos. Do outro lado do ecrã, o cursor a piscar...um pulso mecânico a lembrar que estou viva. Ou que deveria estar. E então escrevi, não com intenção, mas com urgência. Não pensei no que ia dizer, só sabia que não queria mais fingir que tudo estava mais ou menos.


Falei daquilo que se engole todos os dias para manter o corpo funcional: as concessões, as versões de mim que não escolhi, os gestos repetidos até perderem sentido. Falei da sensação de estar sempre a meio de um lugar nenhum. Falei do absurdo de sorrir às pessoas enquanto dentro há escombros. Falei do medo de nunca encontrar nada que não me desgaste. Falei do silêncio; não o pacífico, o outro, o que se acumula nas vísceras. Falei de mim sem escapatória.


O texto transformou-se num conto. Uma mulher com uma vida exemplar escrevia um manifesto secreto.


No final do conto, ela enviava esse texto como candidatura para um emprego público.


Chamaram-na a entrevista.


Aprovaram-na com distinção.


Ela sentou-se na cadeira nova, abriu o computador do emprego e nunca mais escreveu.


FIM.


***


Publiquei-o num blogue antigo, esquecido. Sem nome, sem partilhas.


Uma hora depois, um comentário: “Não percebi.”


Respondi: Era essa a ideia. Que não se perceba. Tal como ninguém percebe como é que alguém sobrevive a trabalhar anos num sítio onde a criatividade vai morrer.


Fechei o computador. Bebi outro café. Não senti alívio. Mas naquela manhã, pela primeira vez em muito tempo, tudo pareceu verdadeiro.


 


 

terça-feira, 29 de julho de 2025

Que género literário é o teu? Um quiz moderno para descobrir

Há uns anos, uma amiga pediu-me recomendações de leitura — e essa pergunta ficou na minha cabeça durante uns dias: como escolher o livro certo para cada pessoa ou momento da vida? O que nos encanta num verão pode não fazer sentido noutra fase. Tudo depende do que estamos a viver, do que procuramos, daquilo que sentimos necessidade de explorar. Às vezes queremos mergulhar num romance arrebatador; noutras, preferimos um policial cheio de suspense ou uma leitura leve para saborear ao sol.


Inspirada por essa conversa, lembrei-me dos testes que fazíamos nas revistas da adolescência — aqueles quiz divertidos que “revelavam” a nossa personalidade ou a nossa compatibilidade com alguém. Eram brincadeiras inocentes, mas cheias de charme e boas memórias. Mais recentemente, encontrei um teste literário online, mais atual e alinhado com as tendências de leitura de 2025. Decidi adaptá-lo e criar uma versão descontraída para quem quiser descobrir qual o género literário que mais combina consigo.


Se gostas de livros e de te conhecer melhor, este teste é para ti. Pega num papel, aponta as tuas respostas e soma os pontos no final!


TESTE: Que género literário é o teu?


1. O teu programa preferido durante uma viagem é:


a) Visitar museus e conhecer um pouco da história local.
b) Realizar atividades radicais. Sempre em busca de adrenalina!
c) Observar os costumes dos moradores locais.
d) Descobrir as lendas e mistérios por detrás de cada lugar visitado.
e) Conhecer pessoas e fazer amizades.


2. Acabaste de ganhar uma viagem para qualquer destino. Para onde ias?


a) Ficaria na dúvida. Gostava de ir a vários sítios.
b) Qualquer destino na Europa. Quero conhecer mais da história europeia.
c) Vaticano – sonho estar num local importante para o Catolicismo.
d) Itália, terra de Dante, poetas e amores eternos.
e) Uma cidade brasileira – adorava conhecer a cultura e os costumes locais.


3. Se pudesses viajar no tempo, para quando irias?


a) Ficava no presente. Gosto da modernidade.
b) Avançava para o futuro – adoro novidades tecnológicas!
c) Século XII, para participar numa Cruzada e desvendar novos mundos.
d) Ao início da humanidade, para descobrir como tudo começou.
e) Século XV – queria dançar nos bailes da nobreza nos castelos.


4. O que não pode faltar numa viagem?


a) "O Principezinho" – uma leitura que consola sempre.
b) Um romance de verão – nada como um amor breve.
c) Histórias engraçadas para contar depois.
d) Visitas a locais históricos e culturais.
e) Aventura e muita adrenalina!


5. Que traço é essencial no companheiro de viagem?


a) Espírito de aventura.
b) Bom humor.
c) Curiosidade.
d) Companheirismo.
e) Mente aberta e sem preconceitos.


6. Qual destes títulos te chama mais à atenção?


a) O Livro dos Prazeres.
b) Os Homens Não São Máquinas.
c) De Cabeça para Baixo.
d) Jerusalém.
e) Histórias de Detetive.




Soma os teus pontos!


Tabela de pontos:



  1. a = 3 | b = 2 | c = 0 | d = 4 | e = 1

  2. a = 2 | b = 3 | c = 4 | d = 1 | e = 0

  3. a = 0 | b = 2 | c = 3 | d = 4 | e = 1

  4. a = 4 | b = 1 | c = 0 | d = 3 | e = 2

  5. a = 2 | b = 0 | c = 3 | d = 1 | e = 4

  6. a = 1 | b = 3 | c = 0 | d = 4 | e = 2




RESULTADOS:


🟡0 a 4 pontos – Contos e Crónicas
Gostas de ficção, mas com os pés bem assentes na realidade. Observador(a), atento(a) aos detalhes, és como um cronista da vida — gostas de partilhar o teu olhar sobre o mundo, com um toque de crítica e ironia.


🟠 5 a 9 pontos – Romances e Poesias
És uma alma sensível e apaixonada. A emoção está sempre presente nas tuas leituras. Valorizas histórias humanas, relações profundas e palavras que toquem o coração.


🔵 10 a 14 pontos – Suspense e Policiais
Tens sede de aventura! A tua curiosidade leva-te por enredos cheios de mistério, enigmas e reviravoltas. Adoras um bom quebra-cabeças e raramente resistes a descobrir “quem foi o culpado”.


🟤 15 a 19 pontos – Históricos e Biográficos
Viajar no tempo? Contigo, é possível! Fascinam-te os grandes feitos do passado e as histórias reais de quem moldou o mundo. Através dos livros históricos ou biografias, revives eras longínquas com emoção.


🟣 20 a 24 pontos – Religiosos ou Esotéricos
Tens um espírito curioso e contemplativo. As grandes questões da vida não te assustam — pelo contrário, motivam-te. Procuras sentido, conhecimento e conexão através de leituras mais introspectivas.




E então? Identificaste-te com o teu resultado? Que género literário te saiu? Partilha nos comentários.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Quando um clube de leitura deixa de ser só sobre livros

Começou como uma experiência de biblioterapia, essa forma tão simples e profunda de encontrar sentido nos livros e, com eles, em nós próprios. Líamos para estarmos presentes num convívio saudável, para compreendermos os nossos gostos e os dos outros e, sobretudo, para partilhar as melhores leituras de cada um. Era um espaço íntimo, quase terapêutico, uma catarse de ideias onde a palavra tinha peso e a escuta era tão importante como a fala. As leituras eram diferentes, os estilos variavam, mas isso não importava. A beleza estava na diversidade, na liberdade com que cada um trazia o seu mundo e o oferecia aos outros. Era leve, era vivo.E assim, num círculo de leitores livres, criava-se algo bonito: uma escuta sem pressa e uma partilha verdadeira.


Mas os grupos crescem. E, com o crescimento, chegam também as dificuldades. Mais pessoas significam mais livros, mais opiniões, mais vozes a quererem ser ouvidas. O tempo, que antes parecia sobrar, começou a faltar. As intervenções tiveram de ser controladas, os temas passaram a ser sugeridos, as regras começaram a surgir — discretas, mas necessárias. E com elas vieram os primeiros sinais de desconforto.


Nem todos gostaram. Alguns sentiram-se travados, outros atropelados. Uns queriam mais profundidade, outros mais leveza. Os que seguiam as regras começaram a sentir que eram os únicos a ceder. Os que não as respeitavam pareciam não perceber o impacto que causavam. A harmonia deu lugar ao desequilíbrio. E, com o tempo, a partilha passou a ser também frustração.


Mais pessoas significaram mais livros, mais gostos, mais formas de estar. Aos poucos, a leitura deixou de ser encontro e passou a exibição. Já não se fala tanto do que o livro nos fez sentir, mas da opinião que temos sobre ele. 


Tentámos ajustar. Dividir o tempo, dividir o grupo, encontrar soluções. Mas gerir um grupo é, muitas vezes, gerir vontades que nem sempre se cruzam. E quando se começa a criticar sem propor alternativas, quando se fala alto mas se recusa escutar, já não se está a contribuir. Está-se a complicar.Está-se a repetir e a fazer parte do problema.


Aquele lugar onde se partilhavam emoções transformou-se, aos poucos, num espaço onde se acumulam opiniões. E o que era terapêutico tornou-se cansativo.


Partilhar livros é partilhar pedaços de nós. É um gesto de entrega. E a entrega só floresce quando há respeito, quando há tempo para o outro existir também. Talvez um clube de leitura não precise de ser perfeito. Mas precisa de ser humano. Precisa de saber acolher. E isso começa em cada um de nós. No silêncio atento, na palavra comedida, no desejo sincero de estar ali, não só para ser ouvido, mas para ouvir também.


O que se sonhou como biblioterapia não precisa de morrer. Só precisa de reencontrar o seu centro. E esse centro está sempre em nós. Talvez o segredo não esteja em agradar a todos, mas em não esquecer o propósito que nos juntou. 


O que pensas sobre o desafio de partilhar leituras num grande grupo? Achas que é possível manter o espírito da biblioterapia num grupo maior?


 


 

domingo, 27 de julho de 2025

Água Salgada”, de Charles Simmons


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Este foi daqueles livros que se lê num ápice. Com uma escrita bonita e envolvente, Charles Simmons conta-nos a história de Michael, um rapaz de 16 anos que vai passar mais um verão com os pais numa pequena ilha, como sempre fez. Tudo parece familiar, até surgir Zina, uma jovem de 20 anos que vai abalar por completo a rotina e a paz daquela família. O que começa por parecer um verão leve e típico de juventude rapidamente se transforma numa história sobre amor, desejo, ciúmes e perda. A narrativa é viciante e a teia de relações que se forma entre os personagens é densa, ainda que subtilmente construída. Trata-se de um daqueles romances de formação que retratam a passagem da adolescência para a vida adulta com intensidade e melancolia.

Confesso que estava à espera do final e isso retirou-lhe um pouco do impacto. Se não tivesse adivinhado o desfecho cedo demais, talvez tivesse dado mais do que 4 estrelas. Ainda assim, é uma história poderosa, ideal para ler numa tarde de verão. A brevidade da narrativa torna-a perfeita para quem procura uma leitura intensa, mas acessível.

Recomendo sem hesitação.

Já leste “Água Salgada”? Que impressão te deixou o final?