segunda-feira, 28 de julho de 2025

Quando um clube de leitura deixa de ser só sobre livros

Começou como uma experiência de biblioterapia, essa forma tão simples e profunda de encontrar sentido nos livros e, com eles, em nós próprios. Líamos para estarmos presentes num convívio saudável, para compreendermos os nossos gostos e os dos outros e, sobretudo, para partilhar as melhores leituras de cada um. Era um espaço íntimo, quase terapêutico, uma catarse de ideias onde a palavra tinha peso e a escuta era tão importante como a fala. As leituras eram diferentes, os estilos variavam, mas isso não importava. A beleza estava na diversidade, na liberdade com que cada um trazia o seu mundo e o oferecia aos outros. Era leve, era vivo.E assim, num círculo de leitores livres, criava-se algo bonito: uma escuta sem pressa e uma partilha verdadeira.


Mas os grupos crescem. E, com o crescimento, chegam também as dificuldades. Mais pessoas significam mais livros, mais opiniões, mais vozes a quererem ser ouvidas. O tempo, que antes parecia sobrar, começou a faltar. As intervenções tiveram de ser controladas, os temas passaram a ser sugeridos, as regras começaram a surgir — discretas, mas necessárias. E com elas vieram os primeiros sinais de desconforto.


Nem todos gostaram. Alguns sentiram-se travados, outros atropelados. Uns queriam mais profundidade, outros mais leveza. Os que seguiam as regras começaram a sentir que eram os únicos a ceder. Os que não as respeitavam pareciam não perceber o impacto que causavam. A harmonia deu lugar ao desequilíbrio. E, com o tempo, a partilha passou a ser também frustração.


Mais pessoas significaram mais livros, mais gostos, mais formas de estar. Aos poucos, a leitura deixou de ser encontro e passou a exibição. Já não se fala tanto do que o livro nos fez sentir, mas da opinião que temos sobre ele. 


Tentámos ajustar. Dividir o tempo, dividir o grupo, encontrar soluções. Mas gerir um grupo é, muitas vezes, gerir vontades que nem sempre se cruzam. E quando se começa a criticar sem propor alternativas, quando se fala alto mas se recusa escutar, já não se está a contribuir. Está-se a complicar.Está-se a repetir e a fazer parte do problema.


Aquele lugar onde se partilhavam emoções transformou-se, aos poucos, num espaço onde se acumulam opiniões. E o que era terapêutico tornou-se cansativo.


Partilhar livros é partilhar pedaços de nós. É um gesto de entrega. E a entrega só floresce quando há respeito, quando há tempo para o outro existir também. Talvez um clube de leitura não precise de ser perfeito. Mas precisa de ser humano. Precisa de saber acolher. E isso começa em cada um de nós. No silêncio atento, na palavra comedida, no desejo sincero de estar ali, não só para ser ouvido, mas para ouvir também.


O que se sonhou como biblioterapia não precisa de morrer. Só precisa de reencontrar o seu centro. E esse centro está sempre em nós. Talvez o segredo não esteja em agradar a todos, mas em não esquecer o propósito que nos juntou. 


O que pensas sobre o desafio de partilhar leituras num grande grupo? Achas que é possível manter o espírito da biblioterapia num grupo maior?


 


 

domingo, 27 de julho de 2025

Água Salgada”, de Charles Simmons


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Este foi daqueles livros que se lê num ápice. Com uma escrita bonita e envolvente, Charles Simmons conta-nos a história de Michael, um rapaz de 16 anos que vai passar mais um verão com os pais numa pequena ilha, como sempre fez. Tudo parece familiar, até surgir Zina, uma jovem de 20 anos que vai abalar por completo a rotina e a paz daquela família. O que começa por parecer um verão leve e típico de juventude rapidamente se transforma numa história sobre amor, desejo, ciúmes e perda. A narrativa é viciante e a teia de relações que se forma entre os personagens é densa, ainda que subtilmente construída. Trata-se de um daqueles romances de formação que retratam a passagem da adolescência para a vida adulta com intensidade e melancolia.

Confesso que estava à espera do final e isso retirou-lhe um pouco do impacto. Se não tivesse adivinhado o desfecho cedo demais, talvez tivesse dado mais do que 4 estrelas. Ainda assim, é uma história poderosa, ideal para ler numa tarde de verão. A brevidade da narrativa torna-a perfeita para quem procura uma leitura intensa, mas acessível.

Recomendo sem hesitação.

Já leste “Água Salgada”? Que impressão te deixou o final?

sexta-feira, 25 de julho de 2025

A fotografia que atravessou o tempo: curiosidades sobre o Expresso de Paris

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Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Expresso_Paris-Granville


Depois de terminar a leitura de O Expresso de Paris, fiquei a pensar na imagem com que a autora nos presenteia no final — uma locomotiva a atravessar uma estação, a destruir uma parede e a ficar pendurada sobre a rua, como se o tempo tivesse parado ali, naquele segundo. A autora oferece-nos alguns pormenores históricos nas últimas páginas, é verdade, mas confesso: sou curiosa. E aquela fotografia, tão real, tão absurda, tão assustadora, não me saiu da cabeça. Fui investigar.


O acidente aconteceu a 22 de outubro de 1895, na estação de Montparnasse, em Paris. Um comboio vinha de Granville com um ligeiro atraso. O maquinista, ansioso por compensar os minutos perdidos, acelerou demasiado. Ao chegar à estação, não conseguiu travar. A composição passou pela plataforma, rompeu as barreiras de segurança, atravessou a parede e... caiu. Literalmente. A locomotiva número 721 ficou pendurada na fachada do edifício e caiu de uma altura de cerca de 10 metros até à rua, matando uma única pessoa: uma senhora que vendia jornais na via pública, no pior lugar possível, no pior momento possível. A fotografia do desastre tornou-se famosa — reproduzida em jornais, postais e até em obras de arte. Foi retirada com recurso a um guincho e à força de 14 homens. Um episódio tão surreal que parece ficção, mas foi real. E tornou-se símbolo de um tempo em que o progresso era veloz, mas nem sempre seguro.


É fascinante ver como um romance pode abrir caminho à curiosidade, ao espanto e à descoberta. E como uma imagem, mesmo antiga, mesmo a preto e branco, diz tanto sem palavras que nos prende e torna impossível ignorar. Cada história guarda um fragmento do mundo, uma verdade que só se revela a quem tem a paciência de ir além do visível. E é nessa busca que a leitura se torna uma viagem sem fim.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

O Expresso de Paris, de Emma Donoghue

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Inspirado no famoso acidente ferroviário de 1895 na Gare Montparnasse, O Expresso de Paris é um romance que exige entrega. O início pode ser desafiante: há muitas personagens, o enredo parece disperso e a sensação de desorientação acompanha os primeiros capítulos.Já conhecia Emma Donoghue pelos livros O Quarto de Jack e O Prodígio, que gostei bastante, por isso foi estranho encontrar aqui um ritmo mais lento e um estilo mais denso. Foi só quando deixei de tentar seguir uma narrativa linear e comecei a ler como quem vê um filme, cena a cena, que a história ganhou vida. 


A autora leva-nos a bordo de um comboio que viaja de Granville para Paris, onde se cruzam figuras inspiradas em personagens reais e outras puramente ficcionais. Entre elas destaca-se Mado Pelletier, uma jovem anarquista, determinada e inconformada, disposta a levar os seus ideais ao limite. É uma personagem vibrante e complexa que marca profundamente o livro. Ao seu lado, encontramos Henry Tanner, pintor americano negro, e Marcelle, estudante de medicina, filha de cubana e francesa, ambos confrontados com o racismo e os preconceitos do final do século XIX. Blonska, uma mulher prática e resiliente, representa a classe trabalhadora e o espírito de resistência silenciosa.


O livro é uma tapeçaria de histórias individuais que refletem tensões sociais e políticas da época: desigualdade, identidade de género, orientação sexual, luta de classes e colonialismo. A frase “o conhecimento não é a única forma de poder” funciona como mote para refletir sobre as diferentes formas de influência e resistência que se cruzam a bordo daquele comboio.


As referências literárias, como A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Jules Verne, ou A Máquina do Tempo, de H. G. Wells, acentuam o valor simbólico da deslocação, do progresso e da aceleração histórica. O acidente ferroviário que inspira o romance não surge como ponto alto da ação, mas antes como metáfora de um mundo em avanço desmedido, que colide inevitavelmente com os seus próprios limites. A imagem da locomotiva a atravessar a estação e a tombar na rua encarna essa tensão entre velocidade, modernidade e consequência.


Recomendo O Expresso de Paris a quem aprecia romances históricos ricos em personagens e temas sociais, e que gosta de uma leitura lenta, reflexiva e repleta de simbolismo.  


Já leste este livro? Conta-me se também sentiste essa dificuldade inicial e qual das personagens mais te marcou.

Dos 1001 livros... e dos sonhos que mudam de forma

Sei que há quem leia este blogue em várias cidades do nosso pequeno país, Portugal, e também no Brasil, no Reino Unido, em Hong Kong, em Singapura e até nos Estados Unidos. Mas se estiverem por aqui, e já tiverem visitado a página dos 1001 livros para ler antes de morrer (lista 1001 livros), tenho duas coisas para partilhar convosco.


A primeira: quando comecei este espaço, essa lista era um projeto pessoal. Um daqueles desafios que nos motivam, que nos dão rumo e entusiasmo. Confesso que li apenas alguns títulos, não tantos como gostaria. O tempo, os gostos que vão mudando, outras leituras que se atravessam no caminho... tudo isso foi desviando-me do plano inicial.


A segunda: o meu gato — sim, o mesmo que adormece em cima dos livros como se fossem almofadas escolhidas a dedo — decidiu que aquele livro era um ótimo arranhador. Resultado? Capas rasgadas, páginas vincadas, um estrago irreversível. As unhas felinas são, afinal, inimigas naturais do papel.


Hoje, a reflexão impôs-se: os sonhos são frágeis. Às vezes, basta um gesto — ou uma pata! — para que se transformem noutra coisa. O que era entusiasmo virou frustração. E ficou um sabor agridoce, uma lembrança de que nada é eterno, nem sequer os nossos objetivos mais queridos.


Como escrevi no post anterior (este aqui), sinto, cada vez mais, a pressão em torno da leitura. As listas, os desafios, as novidades que não param de chegar. E eu pergunto-me: quantos bons livros vão ficar para trás, esquecidos, simplesmente porque não há tempo, ou porque a vida levou a atenção noutra direção?


Não sei se algum dia lerei os 1001 livros. Talvez nunca leia os 1001 livros. Mas talvez isso não importe, desde que continue a sonhar, e a lembrar-me de que, no fundo, sou eu quem decide o que fazer com os meus sonhos (e... com o meu gato!).