domingo, 27 de julho de 2025

Água Salgada”, de Charles Simmons


unnamed.png



Este foi daqueles livros que se lê num ápice. Com uma escrita bonita e envolvente, Charles Simmons conta-nos a história de Michael, um rapaz de 16 anos que vai passar mais um verão com os pais numa pequena ilha, como sempre fez. Tudo parece familiar, até surgir Zina, uma jovem de 20 anos que vai abalar por completo a rotina e a paz daquela família. O que começa por parecer um verão leve e típico de juventude rapidamente se transforma numa história sobre amor, desejo, ciúmes e perda. A narrativa é viciante e a teia de relações que se forma entre os personagens é densa, ainda que subtilmente construída. Trata-se de um daqueles romances de formação que retratam a passagem da adolescência para a vida adulta com intensidade e melancolia.

Confesso que estava à espera do final e isso retirou-lhe um pouco do impacto. Se não tivesse adivinhado o desfecho cedo demais, talvez tivesse dado mais do que 4 estrelas. Ainda assim, é uma história poderosa, ideal para ler numa tarde de verão. A brevidade da narrativa torna-a perfeita para quem procura uma leitura intensa, mas acessível.

Recomendo sem hesitação.

Já leste “Água Salgada”? Que impressão te deixou o final?

sexta-feira, 25 de julho de 2025

A fotografia que atravessou o tempo: curiosidades sobre o Expresso de Paris

Train_wreck_at_Montparnasse_1895.png


Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Expresso_Paris-Granville


Depois de terminar a leitura de O Expresso de Paris, fiquei a pensar na imagem com que a autora nos presenteia no final — uma locomotiva a atravessar uma estação, a destruir uma parede e a ficar pendurada sobre a rua, como se o tempo tivesse parado ali, naquele segundo. A autora oferece-nos alguns pormenores históricos nas últimas páginas, é verdade, mas confesso: sou curiosa. E aquela fotografia, tão real, tão absurda, tão assustadora, não me saiu da cabeça. Fui investigar.


O acidente aconteceu a 22 de outubro de 1895, na estação de Montparnasse, em Paris. Um comboio vinha de Granville com um ligeiro atraso. O maquinista, ansioso por compensar os minutos perdidos, acelerou demasiado. Ao chegar à estação, não conseguiu travar. A composição passou pela plataforma, rompeu as barreiras de segurança, atravessou a parede e... caiu. Literalmente. A locomotiva número 721 ficou pendurada na fachada do edifício e caiu de uma altura de cerca de 10 metros até à rua, matando uma única pessoa: uma senhora que vendia jornais na via pública, no pior lugar possível, no pior momento possível. A fotografia do desastre tornou-se famosa — reproduzida em jornais, postais e até em obras de arte. Foi retirada com recurso a um guincho e à força de 14 homens. Um episódio tão surreal que parece ficção, mas foi real. E tornou-se símbolo de um tempo em que o progresso era veloz, mas nem sempre seguro.


É fascinante ver como um romance pode abrir caminho à curiosidade, ao espanto e à descoberta. E como uma imagem, mesmo antiga, mesmo a preto e branco, diz tanto sem palavras que nos prende e torna impossível ignorar. Cada história guarda um fragmento do mundo, uma verdade que só se revela a quem tem a paciência de ir além do visível. E é nessa busca que a leitura se torna uma viagem sem fim.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

O Expresso de Paris, de Emma Donoghue

IMG_20250723_180734_942.jpg


Inspirado no famoso acidente ferroviário de 1895 na Gare Montparnasse, O Expresso de Paris é um romance que exige entrega. O início pode ser desafiante: há muitas personagens, o enredo parece disperso e a sensação de desorientação acompanha os primeiros capítulos.Já conhecia Emma Donoghue pelos livros O Quarto de Jack e O Prodígio, que gostei bastante, por isso foi estranho encontrar aqui um ritmo mais lento e um estilo mais denso. Foi só quando deixei de tentar seguir uma narrativa linear e comecei a ler como quem vê um filme, cena a cena, que a história ganhou vida. 


A autora leva-nos a bordo de um comboio que viaja de Granville para Paris, onde se cruzam figuras inspiradas em personagens reais e outras puramente ficcionais. Entre elas destaca-se Mado Pelletier, uma jovem anarquista, determinada e inconformada, disposta a levar os seus ideais ao limite. É uma personagem vibrante e complexa que marca profundamente o livro. Ao seu lado, encontramos Henry Tanner, pintor americano negro, e Marcelle, estudante de medicina, filha de cubana e francesa, ambos confrontados com o racismo e os preconceitos do final do século XIX. Blonska, uma mulher prática e resiliente, representa a classe trabalhadora e o espírito de resistência silenciosa.


O livro é uma tapeçaria de histórias individuais que refletem tensões sociais e políticas da época: desigualdade, identidade de género, orientação sexual, luta de classes e colonialismo. A frase “o conhecimento não é a única forma de poder” funciona como mote para refletir sobre as diferentes formas de influência e resistência que se cruzam a bordo daquele comboio.


As referências literárias, como A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Jules Verne, ou A Máquina do Tempo, de H. G. Wells, acentuam o valor simbólico da deslocação, do progresso e da aceleração histórica. O acidente ferroviário que inspira o romance não surge como ponto alto da ação, mas antes como metáfora de um mundo em avanço desmedido, que colide inevitavelmente com os seus próprios limites. A imagem da locomotiva a atravessar a estação e a tombar na rua encarna essa tensão entre velocidade, modernidade e consequência.


Recomendo O Expresso de Paris a quem aprecia romances históricos ricos em personagens e temas sociais, e que gosta de uma leitura lenta, reflexiva e repleta de simbolismo.  


Já leste este livro? Conta-me se também sentiste essa dificuldade inicial e qual das personagens mais te marcou.

Dos 1001 livros... e dos sonhos que mudam de forma

Sei que há quem leia este blogue em várias cidades do nosso pequeno país, Portugal, e também no Brasil, no Reino Unido, em Hong Kong, em Singapura e até nos Estados Unidos. Mas se estiverem por aqui, e já tiverem visitado a página dos 1001 livros para ler antes de morrer (lista 1001 livros), tenho duas coisas para partilhar convosco.


A primeira: quando comecei este espaço, essa lista era um projeto pessoal. Um daqueles desafios que nos motivam, que nos dão rumo e entusiasmo. Confesso que li apenas alguns títulos, não tantos como gostaria. O tempo, os gostos que vão mudando, outras leituras que se atravessam no caminho... tudo isso foi desviando-me do plano inicial.


A segunda: o meu gato — sim, o mesmo que adormece em cima dos livros como se fossem almofadas escolhidas a dedo — decidiu que aquele livro era um ótimo arranhador. Resultado? Capas rasgadas, páginas vincadas, um estrago irreversível. As unhas felinas são, afinal, inimigas naturais do papel.


Hoje, a reflexão impôs-se: os sonhos são frágeis. Às vezes, basta um gesto — ou uma pata! — para que se transformem noutra coisa. O que era entusiasmo virou frustração. E ficou um sabor agridoce, uma lembrança de que nada é eterno, nem sequer os nossos objetivos mais queridos.


Como escrevi no post anterior (este aqui), sinto, cada vez mais, a pressão em torno da leitura. As listas, os desafios, as novidades que não param de chegar. E eu pergunto-me: quantos bons livros vão ficar para trás, esquecidos, simplesmente porque não há tempo, ou porque a vida levou a atenção noutra direção?


Não sei se algum dia lerei os 1001 livros. Talvez nunca leia os 1001 livros. Mas talvez isso não importe, desde que continue a sonhar, e a lembrar-me de que, no fundo, sou eu quem decide o que fazer com os meus sonhos (e... com o meu gato!).

terça-feira, 22 de julho de 2025

A Pressão Invisível nas Redes Sociais: O Lado Oculto do Bookstagram e da Tirania do Algoritmo

Nas redes sociais, especialmente no universo dos bookstagrammers, a leitura — esse ato íntimo, tranquilo, quase sagrado — transformou-se, muitas vezes, numa corrida sem meta definida. Há cada vez mais pressão para ler mais, mostrar mais, publicar mais. Vejo contas com pilhas de livros lidos em tempo recorde e outras que, não lendo assim tanto, fazem parecer que sim. Finjo que acredito. Cada um sabe de si. A vida é feita de escolhas, e ler porque se gosta também é uma escolha. Mas é uma escolha que parece estar a desaparecer, engolida pelas exigências de uma plataforma que recompensa o excesso.


O Instagram, esse patrão invisível e incansável, dita regras com mão de ferro: mais conteúdo, mais engagement, mais visibilidade. A tirania do algoritmo impõe uma presença constante, criatividade infindável, imagens sempre perfeitas. Não basta ler — é preciso mostrar que se lê. Não basta gostar — é preciso convencer os outros disso. E quando a exaustão bate à porta, há quem vá ao Threads desabafar, queixar-se da queda de alcance, da falta de seguidores, do cansaço que se instala. A culpa, dizem, é do algoritmo.


Mas será só isso? Será mesmo necessário viver esta maratona permanente? Será que ainda lemos por prazer, ou apenas para cumprir um calendário não escrito, ditado por métricas invisíveis e vontades alheias? A pressão é real — silenciosa, mas esmagadora. Talvez esteja na hora de parar. De recuperar o prazer lento e honesto da leitura. De escolher o silêncio ao ruído, a autenticidade à performance.


Porque, no fim, o mais importante não é quantos livros lemos, mas o que eles deixam em nós. E isso, por mais filtros que se apliquem, não cabe numa fotografia quadrada.