terça-feira, 22 de julho de 2025

A Pressão Invisível nas Redes Sociais: O Lado Oculto do Bookstagram e da Tirania do Algoritmo

Nas redes sociais, especialmente no universo dos bookstagrammers, a leitura — esse ato íntimo, tranquilo, quase sagrado — transformou-se, muitas vezes, numa corrida sem meta definida. Há cada vez mais pressão para ler mais, mostrar mais, publicar mais. Vejo contas com pilhas de livros lidos em tempo recorde e outras que, não lendo assim tanto, fazem parecer que sim. Finjo que acredito. Cada um sabe de si. A vida é feita de escolhas, e ler porque se gosta também é uma escolha. Mas é uma escolha que parece estar a desaparecer, engolida pelas exigências de uma plataforma que recompensa o excesso.


O Instagram, esse patrão invisível e incansável, dita regras com mão de ferro: mais conteúdo, mais engagement, mais visibilidade. A tirania do algoritmo impõe uma presença constante, criatividade infindável, imagens sempre perfeitas. Não basta ler — é preciso mostrar que se lê. Não basta gostar — é preciso convencer os outros disso. E quando a exaustão bate à porta, há quem vá ao Threads desabafar, queixar-se da queda de alcance, da falta de seguidores, do cansaço que se instala. A culpa, dizem, é do algoritmo.


Mas será só isso? Será mesmo necessário viver esta maratona permanente? Será que ainda lemos por prazer, ou apenas para cumprir um calendário não escrito, ditado por métricas invisíveis e vontades alheias? A pressão é real — silenciosa, mas esmagadora. Talvez esteja na hora de parar. De recuperar o prazer lento e honesto da leitura. De escolher o silêncio ao ruído, a autenticidade à performance.


Porque, no fim, o mais importante não é quantos livros lemos, mas o que eles deixam em nós. E isso, por mais filtros que se apliquem, não cabe numa fotografia quadrada.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Com amor, mãe, de Iliana Xander

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Existem livros que nos agarram de tal forma que mal conseguimos largar. Com amor, mãe, de Iliana Xander, é um desses casos.

A história começa com Mackenzie, que perde a mãe num acidente que, à primeira vista, parece trágico, mas depressa percebemos que há muito mais por trás. Quando começam a chegar cartas assinadas “Com amor, Mãe”, o mistério intensifica-se. Mackenzie e o seu melhor amigo, EJ, lançam-se numa investigação pessoal que os leva a desvendar segredos familiares profundos e perigosos.

A narrativa é construída a partir de pequenos fragmentos — capítulos curtos, várias perspetivas — que mantêm o ritmo rápido e a tensão sempre viva. Apesar de sentir uma ligeira quebra perto do final, o desfecho surpreendeu-me e emocionou-me, fechando a história com coerência e um impacto real.

Este thriller psicológico provocou-me dúvida, nervosismo e uma empatia inesperada. 

Gostei muito e recomendo.

Se procuras um livro cheio de reviravoltas, emoções fortes e segredos, este é para ti.

Já leste Com amor, mãe? 

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Sandwich, de Catherine Newman

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Um romance sobre estar no meio, entre filhos adultos e pais envelhecidos, entre o corpo em mutação e as exigências que nunca cessam. E também entre o amor, a frustração e o silêncio.

Rocky, a protagonista, passa uma semana de férias em Cape Cod com a família, mas o descanso parece impossível. Há conversas atravessadas, memórias que pesam, raiva silenciosa e amor que resiste. A escrita de Newman recorre a flashbacks para revelar outras camadas da protagonista, nem sempre simpática, muitas vezes exausta, tantas vezes centrada em si.

A menopausa é tratada com uma honestidade crua, quase desconcertante, o corpo esgotado por tudo o que lhe foi exigido: menstruar, engravidar, abortar, parir, amamentar, cuidar. E ainda estar inteira.

Confesso que tinha expetativas altas — pelo tema, claro, mas também por ter adorado O Amor Mora Aqui.  Por isso, esperava algo igualmente envolvente, terno e transformador. Sandwich seguiu um caminho diferente: mais cru, mais íntimo, mais desconfortável. Não me tocou da mesma forma, mas deixou marcas.

Gostei particularmente da barafunda que existe em todas as famílias que tentam passar férias juntas. As relações são tensas, reais, mas sem cortes dramáticos. Há irritação, sim, mas também espaço para continuar a ser família.

A escrita é íntima, irónica e por vezes amarga, mas capta com sensibilidade esse lugar ambíguo que tantas mulheres ocupam: entre o que já deram e o que ainda lhes é pedido.

Sandwich não é um livro que vai agradar a toda a gente. Por vezes, é mesmo desconfortável, sobretudo quando percebemos o quanto Rocky desgasta quem a rodeia… e o leitor. Mas há ali algo verdadeiro: um espelho imperfeito, que devolve fragmentos reconhecíveis para quem está nesta fase da vida.

Catherine Newman escreve com rara precisão sobre o desgaste físico e emocional de ser mulher entre gerações (entre pais que enfraquecem, filhos que exigem, e um corpo que muda sem aviso)..

A capa conquistou-me de imediato, e o tema prometia muito — mas não me envolveu como esperava.

Já leste Sandwich? O que achaste? Estou com vontade de falar sobre este livro.

terça-feira, 15 de julho de 2025

A Misteriosa Padaria na Rue de Paris, de Evie Woods

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Há livros que nos surpreendem pela forma como misturam o real e o improvável. A Misteriosa Padaria na Rue de Paris, de Evie Woods, foi exatamente assim. Edie Lane, vinda da Irlanda, aceita um trabalho numa pequena padaria francesa onde se diz que os bolos têm um efeito especial — desbloqueiam memórias, despertam emoções, mudam vidas. E, sem dar por isso, Edie mergulha num enredo cheio de segredos, onde o passado se mistura com o presente em cada gesto, cada receita, cada silêncio.


Gostei da leveza da escrita, da proximidade das personagens e do toque mágico que atravessa a história sem exageros. A protagonista tem o nome Edith — tão próximo do meu, Edite — o que me fez sentir uma ligação ainda mais pessoal. Foi uma leitura rápida, mas que deixou marca.


Ideal para esta altura do ano, em que sabe bem entrar numa história doce, reconfortante e cheia de descoberta.
Já te deixaste levar por um livro assim?

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Entre livros, monstros e tarefas

Este fim-de-semana foi cheio — e, ainda assim, trouxe-me pequenas pausas onde couberam palavras e pensamentos.


No sábado, o clube de leitura voltou a juntar-se, desta vez com um tema que nos levou à infância: livros infantojuvenis, com crianças como protagonistas, perguntas grandes em corpos pequenos e mundos que ainda acreditam no impossível.


Houve espaço para partilhas bonitas, e para a apresentação do livro Os monstros que vivem na minha cabeça, da Celina Lopes. Tive a oportunidade de assistir à leitura do livro ao vivo, feita pela autora Celina Lopes e pela ilustradora Daniela Lomba, e foi um momento mágico. Ver a emoção com que ambas partilharam esta história tornou a experiência ainda mais especial. 


Claro que o fim de semana não ficou por aqui. No domingo, a parte doméstica não tirou folga: organizei o tempo entre limpezas e roupa, enquanto as refeições ficaram a cargo do marido. Mas, entre um gesto e outro, consegui ainda sentar-me com o meu livro e avançar umas páginas.


Às vezes, os melhores momentos não são os mais extraordinários. São os que nos mostram que, entre o ruído dos dias, ainda sabemos escutar uma história, partilhar um livro, sentir que pertencemos.