Gosto de livros. Gosto da forma como me permitem sair da realidade, mergulhar noutras vidas, experimentar emoções que não são minhas e descobrir mundos que só existem no papel. Ler é, muitas vezes, o meu refúgio. Uma pausa no barulho diário. Uma espécie de abrigo.
Mas nem sempre consigo manter-me lá dentro. Há momentos em que “acordo” desse refúgio e volto a olhar para o que me rodeia. E, sinceramente, nem sempre gosto do que vejo. A realidade não tem a leveza da ficção. Traz problemas que não se resolvem no virar da página e capítulos que parecem repetir-se vezes demais.
Penso, sobretudo, nas notícias. Ultimamente, os incêndios parecem uma saga interminável. Todos os anos regressam, como se alguém lançasse sempre mais um volume de uma coleção que nunca quisemos ler. O enredo é o mesmo: destruição, medo, impotência. Desculpem a comparação, mas quase dá a sensação de que os “editores” desta realidade não sabem escrever outra coisa.
E aqui estou eu, dividida entre dois mundos: o das histórias que me confortam e o da vida que insiste em repetir capítulos negros que já lemos vezes demais.
Às vezes dava tudo para desligar por uns minutos, fechar os olhos e fingir que o mundo podia esperar. Seria tão mais fácil… se o mundo alguma vez tivesse a cortesia de obedecer. Talvez seja por isso que os livros me fazem tanta falta: não para fugir, mas para me armarem de paciência e resiliência suficientes para continuar a assistir sem poder fazer nada.
3 comentários:
Como entendo o sentimento. Aqui é igual. Se houvesse um botão de fazer um OFF no mundo e talvez mexer em certas peças do puzzle para tudo ficar melhor...
Vou dar-lhe uma notícia, já está a fazer algo. Quando o escreve aqui tem voz, levanta outras vozes e leva outras pessoas a pensar.
Quando espalhamos a palavra e nos indignamos, mostramos que algo está mal e isso começa a incomodar quem não está incomodado. É um trabalho duro e às vezes parece que somos mudos, mas devagarinho (pena que seja devagarinho) vamos abrindo espaço para o mundo mudar.
Obrigada pelas tuas palavras
Tens razão, cada voz conta… mas é duro sentir que, ano após ano, continuamos a assistir ao mesmo enredo de destruição. Frustra ver sempre o mesmo, como se nada mudasse. Talvez a nossa voz seja pequena, mas não devia ser preciso gritar todos os anos para que façam alguma coisa. Depois de Pedrógão Grande pensei: este é o último. Depois do pinhal de Leiria, voltei a acreditar: agora sim, é o último. Mas não é. Continua…
Obrigada! Ler sempre nos dá novas formas de ver e sentir o mundo.
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