sexta-feira, 30 de maio de 2025

Filha da Louca, de Maria Francisca Gama

unnamed5.png


Esta é, sem dúvida, a opinião mais difícil que dou. Porque é também a mais pessoal. 

Este romance acompanha Matilde, uma jovem que tenta compreender a mãe — alguém que o mundo rotulou de “louca” — enquanto lida com a ausência do pai e, mais tarde, com a solidão que se instala após a perda dos dois. Ao descobrir um segredo escondido no passado da mãe, vê-se obrigada a confrontar aquilo em que sempre acreditou sobre a sua família.

Falo desta leitura não como crítica, mas como leitora marcada por uma história que, de certa forma, se cruzou um pouco com a minha. A minha infância foi profundamente moldada por uma relação difícil com a minha mãe. Por muito que goste dela, houve um momento em que chegou a revolta — esse ponto em que o amor não desaparece, mas se transforma em perguntas e silêncios. Por isso, talvez esperasse desta leitura um confronto mais direto, mais visceral.

Tinha expectativas altas, até porque gosto muito da escrita da autora mas senti que a Matilde, enquanto personagem, ficou num registo demasiado contido. Como leitora, esperei por uma evolução que nunca chegou — um grito, uma fuga, uma libertação — e talvez por isso tenha terminado o livro com uma sensação de distância, de algo por resolver.

Apesar disso, não deixo de valorizar a sensibilidade com que são tratadas questões como a saúde mental, a maternidade e o peso invisível das relações familiares. 

É um livro feito de silêncios e sombras — porque muito do que marca estas personagens não é dito em voz alta, vive-se nos gestos contidos, nos pensamentos reprimidos, no que se evita enfrentar.Mas, para mim, talvez por tocar em feridas antigas, ficou mesmo a faltar qualquer coisa.

 

Já leram Filha da Louca? O que acharam? 

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Do outro lado, de Mafalda Santos

20241007_134318.jpg


Depois de ler "Enquanto o Fim Não Vem", as expectativas eram muito altas, mas este romance da Mafalda Santos conseguiu surpreender-me, novamente!
A Mafalda Santos é sem dúvida uma das minhas autoras favoritas, escreve muitíssimo bem e possui uma habilidade extraordinária em criar narrativas intrigantes.
No livro, a combinação entre distopia e uma história de amor fez-me questionar os limites do amor e da realidade, num enredo que mistura de forma inteligente mistério, emoção e sobrevivência.
A história não é apenas sobre Gabriel e Sara; é também uma reflexão sobre até onde somos capazes de ir quando tudo à nossa volta se desmorona.
Neste contexto, a autora explora com mestria o desaparecimento de Sara e a busca desesperada de Gabriel por respostas, jogando com as fronteiras da realidade. A introdução do conceito de multiverso, embora toque em ficção científica, serve mais como pano de fundo para o drama humano. Não é o multiverso em si que domina, mas o impacto emocional que esta complexidade traz às personagens e à própria narrativa.Essa alternância entre mundos e os capítulos curtos criam um ritmo quase cinematográfico, que me manteve agarrada do início ao fim. A construção cuidadosa da tensão, capítulo a capítulo, contribuiu também para uma leitura rápida e compulsiva.
Já a conclusão deixou-me com a sensação de que há mais por descobrir, mais por dizer, e eu adoraria ler a continuação - talvez porque a minha experiência de leitura foi como se estivesse a assistir a uma série ou filme ; Ok, também há filmes em que no final ficamos assim, para nos fazer reflectir um pouco.
E foi isso que fiz.
Para terem uma ideia de uma das minhas reflexões deixo no ar a pergunta: a própria percepção da realidade é diferente para cada um de nós, certo?
Adorei e recomendo vivamente.

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Reinos Bastardos, de Luís Corte Real

20240821_135711.jpg


Reinos Bastardos conseguirá conquistar os amantes de fantasia e os que, geralmente, não se aventuram por esse género literário? A isto respondo já que sim.


Fantasia não é um género que figura frequentemente entre as minhas leituras. Houve uma época em que devorava livros deste género, mas os anos passaram e os gostos mudaram. Por isso, mundos mágicos e monstros são algo que não me aventuro hoje em dia. No entanto, o autor cedeu gentilmente o livro e como tenho a imaginação em altas esta leitura até veio em boa altura.


A personagem principal, Runa, é uma jovem humana órfã criada por Kar numa tribo de ogros nos Reinos Bastardos. Este ambiente inóspito e hostil, em que os humanos não passam de cativos, moldou a sua personalidade e tornou-a forte e rebelde. A relação entre Runa e Kar, marcada por um afeto quase paternal, e o laço crescente com Ediru, são aspectos emocionalmente envolventes.


As descrições do ambiente de Reinos Bastardos são pormenorizadas e, embora necessárias, contrariaram – e muito- a minha enorme vontade de ler o que iria suceder a seguir a Runa. Eu estava tão ansiosa para descobrir o destino de Runa e Ediru que as longas descrições pareciam um obstáculo entre mim e o próximo acontecimento. Quando tudo mudou, na história, fui contrariada – de novo!– desta vez, de forma ainda mais impactante.


E, o que mais me surpreendeu, foi o desenvolvimento dos personagens. Embora tenha gostado de uns e odiado outros, confesso que não estava nada preparada para duas das personagens mudarem de uma forma que realmente me desarmou. Então? Como assim? Porquê?


Apesar destas perguntas sem resposta, gostei muito desta história emocionante de fantasia de fácil e rápida leitura. Para isso contribui decisivamente a escrita do autor e a forma como mantém o leitor envolvido e em suspense até ao fim. No entanto, deixou-me como que um travo agridoce tanto quanto à mudança nos personagens e quanto ao facto de ter de aguentar a minha curiosidade até sair Reinos Humanos para saber o que aconteceu à Runa e a outros personagens.


Sendo esta história uma história que prende logo no início a atenção do leitor e que se lê rapidamente, esta reação já seria de esperar! Agora a minha questão é: quando é o lançamento do próximo volume?


E vocês, já tiveram a oportunidade de ler Reinos Bastardos? Qual foi a vossa impressão?


 


 

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Marzahn, Mon Amour, de Katja Oskamp

20240714_125046.jpg



"Os anos da meia idade, em que já não és nova e ainda não és velha, são nebulosos. Já não avistas a margem de que partiste, e ainda não distingues com suficiente nitidez a margem para a qual te diriges".


Este é o início do livro escrito por Katja Oskamp. A narradora é a própria escritora (personagem), que, após uma crise pessoal e profissional, decide mudar radicalmente de vida e torna-se pedicura.


 Oskamp compartilha histórias dos seus clientes e estes relatos, aparentemente mundanos, revelam profundidade e complexidade humana.


 Numa escrita despida e poética ao mesmo tempo, a autora dá atenção a detalhes sobre o quotidiano dos personagens. Em cada capítulo, cada cliente tem uma história, o que traz diversidade às experiências relatadas e uma visão intimista da vida das pessoas.


 No entanto, enquanto leitora, senti que há histórias ou personagens que não são explorados a fundo porque deixamos de seguir determinado personagem assim que começa outro capítulo e outro personagem (sorry, mas não aprecio a estrutura baseada em pequenas histórias que se assemelham a contos).


Em suma, "Marzahn, Mon Amour" é um livro original e reflexivo sobre a vida de pessoas comuns que poderá ser interessante para quem gosta de histórias intimistas e frustrante para quem gosta de mais desenvolvimento e ação.


 



 

 

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Quando o Vaticano Caiu, de Pedro Catalão Moura

20240711_165804.jpg






Ultimamente, tenho lido várias histórias ambientadas na Segunda Guerra Mundial, mas esta, em particular, destacou-se por ser diferente do habitual. De facto não é um thriller nem um romance histórico, mas, sim, uma história alternativa, entre ficção e factos verídicos, e o seu enquadamento num género literário, como thriller, na minha opinião, poderá originar falsas expetativas, por isso aconselho a que não o façam e que mantenham a mente em aberto quando iniciarem a leitura.


Tudo começa com a chegada de uma carta misteriosa ao Papa, alertando-o sobre o plano de Hitler de invadir o Vaticano. Este alerta põe em movimento uma série de eventos que obrigam Pio XII a tomar decisões difíceis para proteger a Igreja. A proposta de Roosevelt para receber a cúria no seu país, em contraste com as alternativas oferecidas por Franco e Salazar, coloca o Papa diante de um dilema moral e político significativo. Optar pelos Estados Unidos implicaria escolher um lado no conflito mundial, enquanto a repressão do regime de Franco torna a Espanha uma opção indesejável. Assim, Portugal, com o santuário de Fátima, surge como o destino mais viável, carregado de simbolismo religioso.


Papa Pio XII, que surge nesta história como o "Papa sem Medo", é o personagem principal que tem de fazer uma escolha difícil em prol do seu compromisso com a Igreja e seus fiéis. A par deste personagem surgem outros, os cardeais com hierarquias definidas, cuja dinâmica de intrigas e conluios políticos quase me fizeram esquecer a violência e a ameaça externa dos nazistas.


Achei mesmo muito interessante conhecer este Papa e as manobras internas na Igreja, uma vez que, talvez por terem uma grande dose de criatividade do autor, ao ficionar as suas personalidade, adicionam uma camada complexa e humana à história.


Aliás, existem vários personagens cardeais que têm ambições nada caridosas, mas a forma como estão descritos e forma como se comportam transmitem irritação, algum divertimento e até, pasme-se, pena do Papa.   






A obra, inspirada em eventos verídicos, combina, assim, factos históricos com uma ficção habilmente executada, conseguindo criar uma leitura cativante e gerar interesse em saber mais sobre factos que são, provavelmente, desconhecidos pelos leitores. 


 "Quando o Vaticano Caiu" é sem dúvida alguma uma brilhante e bem-construída história alternativa que promete prender a atenção e que oferece a todos os leitores uma nova perspetiva sobre os desafios enfrentados pela Igreja durante a guerra.