terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A Felicidade na Forma de um Gato, de Rui Kodemari


A Felicidade na Forma de um Gato conta a história de Ayano e Michio, um casal que se encontra depois de relações falhadas e constrói uma vida em comum marcada pela rotina, pelo afeto e pela presença silenciosa de um gato que acaba por se tornar o verdadeiro centro emocional da casa. A narrativa acompanha os anos que passam, as mudanças inevitáveis e a forma como este animal observa, sem julgar, tudo o que acontece à sua volta.

A escrita é suave, a leitura confortável e a mensagem clara: a felicidade mora nas pequenas coisas — e, muitas vezes, tem quatro patas.

Gostei da história, está bem contada e é agradável de ler, mas confesso que fiquei com a sensação de que Ayano e Michio podiam ter sido mais desenvolvidos enquanto personagens, talvez porque o livro assume, acima de tudo, o papel de uma verdadeira ode aos gatos, acabando o lado humano por ficar um pouco mais em segundo plano.

Uma leitura bonita, tranquila, reconfortante e comovente, perfeita para amantes de gatos.

Já leste este livro? 



domingo, 28 de dezembro de 2025

Huris, de Kamel Daoud

A narrativa centra-se em Alva, uma jovem argelina sobrevivente de um ataque islamista. A violência marcou-a para sempre: perdeu a voz e carrega uma cicatriz profunda na garganta. Incapaz de falar, Alva passa a contar a sua história em silêncio, dirigindo-se à filha que ainda traz no ventre. “Falo-te em silêncio, porque neste país até a dor aprendeu a calar-se” -é a essa criança que ela confessa os seus medos, dúvidas e memórias, questionando se faz sentido nascer num país onde ser mulher continua a ser tão difícil.

Ao longo do livro, Alva revisita a guerra, a impunidade, a violência quotidiana e o peso de uma sociedade profundamente patriarcal. A narração não se limita à sua voz interior: o autor dá espaço a múltiplas perspectivas — mulheres, crianças, sobreviventes, mortos e até animais — criando um coro de testemunhos que expõe uma realidade dura e muitas vezes silenciada. 

A escrita é poética, intensa e carregada de imagens fortes, tornando a leitura emocionalmente exigente.

A primeira parte destaca-se pela força e impacto com que nos mergulha na história e na dor da protagonista. À medida que o livro avança, o ritmo e a intensidade tornam-se mais irregulares, mas a carga simbólica e temática mantém-se presente, sempre ligada à memória, ao trauma e à impossibilidade de esquecer.

A polémica em torno da obra surge não só pela censura estatal, mas também pelas acusações de que a história poderá ter sido inspirada numa vítima real.

 Independentemente disso, Huri acaba por cumprir um papel importante: expõe um período da história argelina pouco conhecido e lança luz sobre a condição das mulheres num contexto marcado pela violência e pelo silêncio.

Uma leitura intensa, desconfortável e, sem dúvida, diferente.



quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Os meus amigos, de Fredrik Backman


Já tinha lido boas críticas sobre Os Meus Amigos, e como sou fã do Fredrik Backman decidi finalmente pegá-lo. Desde logo, muitas pessoas falaram da intensidade emocional e da beleza da escrita, e senti que tinha de o ler também, especialmente por ser um autor que já me tocou noutras obras e cuja prosa admiro profundamente. Além disso, o livro foi eleito pelos leitores do Goodreads como o melhor na categoria de ficção, o que aumentou ainda mais a minha curiosidade.

A história gira em torno de um grupo de adolescentes aparentemente perdidos (Joar, Ted, Ali e “o artista”), que encontram uns nos outros um refúgio e uma razão para enfrentar cada dia durante um verão inesquecível. Vinte e cinco anos depois, a Louisa "encontra" uma obra de arte que a leva a querer descobrir quem foram essas figuras e aquele que as criou, embarcando numa jornada de autodescoberta e reflexão sobre amizade, arte e o que realmente importa na vida.

As minhas impressões de leitura: este livro é um daqueles que te agarram pelo coração. A forma como Backman constrói as personagens faz com que te importes com cada uma delas, com as suas falhas, as suas dores e as suas pequenas vitórias. Há momentos de humor subtil, outros profundamente comoventes, e uma sensibilidade na descrição das relações humanas que me deixou muitas vezes emocionada. Como diz uma das passagens do livro, “Não é verdade que temos medo de estar sozinhos — o que realmente tememos é ser abandonados.”, e é precisamente esta vulnerabilidade que torna a história tão tocante. Também encontramos outra reflexão poderosa: “A arte é aquilo que deixamos de nós nos outros.”, lembrando-nos de como as nossas ações e relações podem deixar marcas duradouras.

Recomendo Os Meus Amigos sem hesitar, principalmente se gostas de histórias que exploram a essência da amizade e aquilo que nos forma como seres humanos.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Amor na Porta da Frente, de Andreia Ramos


Beatriz é médica em Lisboa e tem a vida organizada: está prestes a casar com um advogado conceituado. Mas tudo muda quando o vizinho barulhento, Gabriel, aspirante a músico, propõe que ela finja ser sua namorada durante o Natal, para agradar à família. O que começa como uma farsa transforma-se numa história divertida e ternurenta, mostrando que, por vezes, o amor está mesmo à porta da frente.

Li este livro porque a Márcia  disse: “vais gostar, confia”. Lá fui eu, meio desconfiada… e acabei a gostar muito! É leve, divertido e tem aquele drama na medida certa. A Beatriz e o Gabriel têm uma química que nos faz sorrir e continuar a virar páginas sem parar. Já conhecia a autora pelas redes sociais, mas esta foi a minha estreia com ela… e foi mesmo uma boa estreia, uma leitura perfeita para quem gosta de romances ternurentos e divertidos, ainda por cima com aquele clima natalício que adoro. 

💬 E vocês? Gostam de romances de Natal? 

sábado, 6 de dezembro de 2025

A Filha do Alemão, de Marius Gabriel


Durante a Segunda Guerra Mundial, uma mulher seduzida pela propaganda nazi junta-se ao programa Lebensborn. Décadas depois, a sua filha descobre, sem suspeitar, a sua verdadeira origem. A morte do avô dá início a uma viagem pela Europa (da Inglaterra à Noruega e Berlim) em busca de respostas e de uma irmã que nunca conheceu. Uma história de segredos enterrados, identidades roubadas e consequências que atravessam gerações.

A Filha do Alemão prende e envolve: mistura história e emoção de forma eficaz e faz-nos refletir sobre identidade e legado. Mas confesso: esperava aquele momento “uau” que me fizesse suspirar… e acabou por ser uma leitura mais tranquila nesse aspeto. Continua a ser interessante e vale a pena, só que sem aquele efeito surpresa que imaginei.

Acreditam que conhecer o passado nos transforma… ou apenas nos deixa cicatrizes difíceis de sarar?