sexta-feira, 27 de junho de 2025

Mesmo sem lógica, devemos ser nós próprios

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O corpo avança,
mesmo cansado.
Há pedras nos ombros,
pesadas,
invisíveis,
que nos puxam para o chão
quando sonhamos mais alto.


Mas ainda assim,
há um instante 
leve, quase silêncio 
em que a luz entra.
Pelo olhar,
pela pele,
por dentro.


É aí que tudo repousa:
os dias ganham cor,
o tempo abranda,
e há amor.


Mesmo sem ver,
a luz regressa.
Insiste.
Aquece.
Desafia a lógica da dor.


E é nas raízes,
firmes na terra daquilo que somos,
que se prepara o florescer.


Porque é preciso resistir
antes de florir.

quinta-feira, 26 de junho de 2025

No Tempo das Cerejas, de Célia Correia Loureiro

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Ao início, confesso que me custou entrar na história. A narrativa cruza três tempos temporais, e demorou um pouco até conseguir encontrar o fio certo entre as memórias, os relatos e o presente. Mas quando me deixei embalar pelas vozes das personagens — Irene, Serafim, Helena — tudo passou a fluir com uma melodia própria, como um fado bem cantado: com pausas, com dor, com verdade.


No Tempo das Cerejas, é mais do que um romance de ficção com elementos históricos. É um mergulho na Lisboa do antes e depois da Segunda Guerra Mundial, nos segredos que as mulheres guardaram durante gerações, e nas amarras sociais que tantas vezes as silenciaram.


Senti-me nas ruas de Alfama, numa taberna lotada, a ouvir confidências que atravessam décadas. A escrita é bela e imersiva, e a recriação da época — dos anos 20 aos 50 — é feita com rigor e paixão.


Irene é uma força da natureza. Uma mulher que ousou ser o que quis, numa altura em que isso era quase um pecado. E Serafim, o nosso repórter sensível e discreto, dá-nos o olhar de quem escuta sem julgar.


É uma história de amizade feminina, amores proibidos, vinganças e escolhas difíceis. Também é uma reflexão sobre o papel da mulher numa sociedade que a queria muda e submissa.


E, com a calma própria das histórias bem contadas, o final surpreendeu-me de forma inesperada.


Gostei muito.


Já conhecias este livro? 


 

terça-feira, 24 de junho de 2025

 Uma Catastrófica Visita ao Zoo, de Joël Dicker 

 



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Tinha de o ler. É Dicker, claro. E surpreendeu-me. 

 

Uma visita ao zoo, um desastre, anos de silêncio… e uma criança que, já adulta, decide contar tudo. 

Gostei muito da leveza e do humor da narrativa, assim como da forma como o autor trata temas importantes como democracia, inclusão e diversidade. 

Sei que o autor escreveu esta história com a intenção de ser lida por adultos a crianças ou jovens, e a mensagem funciona bem nesse registo. 

 

Agora, a minha reflexão. 

 

No formato em que o livro está, creio que a ideia do Joël é, na verdade, mais para os adultos lerem (ou confirmarem se leem) estas histórias e mensagens — um convite à reflexão e à empatia que talvez nem todos exercitam tão frequentemente. 

E essa perspetiva vai mesmo ao encontro da ideia de José Saramago, que defendia que os adultos deveriam ler livros infantis por si mesmos, para reaprender valores simples e essenciais. Como ele escreveu: 

 

“E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar ? ". 

 

Em resumo, sinto que fui um pouco enganada aqui. Porquê? Porque este livro não corresponde ao estilo habitual do Joël, que costuma ser mais direto. Ao longo da leitura, deparei-me com um tom de ironia divertida e subtil que me levou a questionar quem será, afinal, o público-alvo desta obra. A mensagem parece estar escrita de forma a captar a atenção dos mais novos, mas ao mesmo tempo provoca uma reflexão profunda nos adultos, quase como um convite para estes olharem para si próprios através dos olhos das crianças. 

É um livro que nos desafia a pensar, a sorrir com cumplicidade e a dar voz às pequenas vozes — aquelas que tantas vezes são ignoradas, mas que, na realidade, têm muito a dizer e, por vezes, até têm mais razão do que os adultos.

 Já conheciam este lado do Joël Dicker?

domingo, 22 de junho de 2025

Renascer, de Andreia Ferreira

 


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Renascer mergulha no universo emocional de Luz, uma mulher que se perdeu de si mesma enquanto tentava manter tudo à sua volta a funcionar. Entre o emprego, as tarefas domésticas, a distância emocional do marido e os comportamentos cada vez mais estranhos do filho, Luz sente-se sozinha dentro da própria casa. A descoberta de uma nova gravidez traz à superfície medos profundos e a sensação crescente de que algo está errado — com a sua vida, com a sua mente, talvez até com a sua realidade.

Os personagens são vívidos e inquietantes, em especial Luz, cuja voz narrativa é honesta, crua e, por vezes, perturbadora. 

A autora explora com sensibilidade temas como a saúde mental, o burnout materno e a invisibilidade feminina dentro do casamento. Chico, o marido ausente mas “perfeito” aos olhos dos outros, e Diogo, o filho com um comportamento cada vez mais sombrio, intensificam o clima de tensão psicológica. A leitura é envolvente e desconcertante, com momentos em que sentimos a angústia de Luz como se fosse nossa.

Sem revelar demasiado, o final de Renascer traz uma viragem inesperada que desafia o leitor a repensar tudo o que foi lido até ali. 

Um livro que me surpreendeu pela profundidade e pela coragem com que trata temas pouco falados, e que convida à reflexão sobre o que é, afinal, "renascer".

 

E tu, já leste Renascer? Sentiste empatia por Luz ou o livro levou-te a olhar de outra forma para o quotidiano feminino?

sábado, 21 de junho de 2025

O Amor Mora Aqui, de Jojo Moyes

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Em O Amor Mora Aqui, Jojo Moyes apresenta-nos Lila, uma mulher que vive no meio do caos emocional e logístico da “geração sanduíche”: entre cuidar das filhas, de um pai adotivo idoso e lidar com um ex-marido, ela ainda tenta manter a sua carreira criativa de escritora à tona. A história desenrola-se com humor, ternura e algumas reviravoltas inesperadas, que mostram como o passado pode bater-nos à porta quando menos esperamos – literalmente, com o reaparecimento do pai biológico de Lila após 35 anos de ausência.

Os personagens são o ponto alto do livro – todos têm profundidade, falhas e humanidade. Gostei particularmente da forma como Jojo Moyes constrói relações realistas, tensas, mas cheias de afeto. Soube, através da apresentação do livro com a autora, que muitos deles foram inspirados em pessoas reais, o que se nota na autenticidade com que enfrentam dilemas modernos. Como diz uma das personagens:

“Talvez seja isso que significa amar alguém: estar disposto a tentar, mesmo quando é mais fácil fugir.”

Uma frase que resume bem o tom do livro – sobre empatia, reconciliação e o esforço de manter quem amamos por perto.

O final é esperançoso, caloroso e reconfortante – daqueles que nos fazem sorrir e acreditar que, apesar de tudo, é possível recomeçar. 

Uma leitura que, acredito, tocará muitos leitores por reconhecerem um pouco de si nestas vidas tão reais.

 

E tu, já leste O Amor Mora Aqui? Que personagem ou momento mais te ficou na memória?