quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Leituras do mês de janeiro, uma história sem final feliz

 

Hoje vou escrever para vocês usando os títulos dos 9 livros que li. 

Janeiro começou com tudo: O Crime Mais Maravilhoso do Ano aconteceu… e não, não foi nada digno de CSI, apenas o suficiente para mexer com a vizinhança. Entre olhares furtivos, surgiu também Uma Questão de Atração, porque, claro, nada como um mistério para acender faíscas.

Enquanto isso, alguém ainda se lembrava de Os Crimes do Verão de 1985 (e sim, Miguel D’Alte tinha razão: até as melhores famílias guardam segredos). Mas nada como um bom lenço para recuperar a compostura em O Caminho Até Casa.

No meio deste caos de emoções, conheci O Neto do Homem Mais Sábio, que me deixou conselhos do género “escuta mais, fala menos”. Pelo caminho, cruzei-me com Lobos (ok, talvez fossem apenas cães muito grandes) e imaginei o que aconteceria se Os Gatos Falassem… se os víssemos. São seres independentes e surpreendentes, por isso fiquei-me apenas pela imaginação.

No fim, quando tudo parecia demasiado complicado, surgiu A Donzela. Não a que espera ser salva, mas a que mata. E foi aí que confirmei o que já sabia: mistérios e segredos são mesmo os melhores ingredientes para as minhas leituras.

Só ficou a faltar Todas as Famílias Felizes, que era o que eu desejava para terminar bem o mês de janeiro. 


Fim.


Agora, a realidade. 

A realidade ultrapassou qualquer ficção e não consigo deixar de pensar nisso (talvez até seja egoísmo estar aqui a escrever com títulos de livros), mas dou-vos uma explicação plausível: a mente humana é frágil. Por isso, optei por seguir em frente e mudar de mês. 

Já que estou em fevereiro, Deus queira que o final feliz apareça. Será provavelmente através das leituras, mas vou acreditar, piamente, que tudo vai mudar à minha volta. Não estou alheia ao que se passa, apenas ativei o meu modo de sobrevivência. 

E vocês? 


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Se os gatos falassem, de Piergorgio Pulixi


 Se o vosso gato pudesse falar, provavelmente diria: “Não preciso de ti, mas este navio e este mistério são divertidos!” 

Em Se os Gatos Falassem, de Piergiorgio Pulixi (@clubedoautor), transporta-nos para um cruzeiro à volta da Sardenha onde o nosso querido livreiro Marzio Montecristo se vê envolvido num mistério, digamos, clássico. Quando um assassinato acontece a bordo, ninguém pode sair do navio e todos se tornam suspeitos. Com a ajuda do inspetor Caruso e dos seus gatos, Miss Marple e Poirot, Marzio tenta desvendar o crime usando a sua paixão por romances policiais. 

Comparando com A Livraria dos Gatos Negros, que se passava numa livraria e apresentava Marzio como detetive amador, este segundo livro coloca-o num cenário mais fechado e claustrofóbico, mas dá mais destaque aos gatos, Marple e Poirot. Também achei menos denso e mais fácil de ler! É mesmo leve, inteligente, perfeito para fãs de policiais, e as referências a livros tornam a leitura ainda mais agradável. 

Gostei bastante! É uma leitura divertida, envolvente e com momentos de pura ironia, ou de irritação, mas que qualquer fã de mistério e gatos vai adorar.

Já leram? Têm curiosidade em ler? 



segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A mania da escrita (repost)

A propósito da imperfeição das pessoas e da inteligência artificial, da obsessão pela perfeição e da escrita em segundos, revisitei um texto antigo aqui no blog que continua surpreendentemente actual. 
A criatividade é isto. 
O perfeito é, sem qualquer dúvida, profundamente desumano.

A não esquecer.

«Quem se revê numa escrita que se proclama próxima da perfeição dirá que deslocar uma vírgula ou substituir uma palavra por um sinónimo é, por si só, escrever melhor. Contudo, em contexto profissional, nada me parece mais nocivo do que esperar que tudo resulte à primeira tentativa ou arrogar-se autoridade absoluta nessa matéria.

Na escola primária aprendemos que uma vírgula fora do lugar pode matar o sentido e a verdade das palavras, quando estas são arrancadas do seu contexto. Aprendemos também, desde cedo, que a escrita obedece a regras, como estas que aqui se aplicam. Ainda assim, não é raro que o aprumo dos dedos de quem sabe, num teclado que não é o nosso, adquira, aos nossos olhos, uma forma e um conteúdo novos, supostamente superiores e elegantes. E, nesse equívoco, convencemo-nos de que há falhas que só acontecem aos outros. Mas quando não existe um manual de instruções de quem tem a mania, nem uma bula que indique a hora exacta da toma, acabamos por engolir vírgulas com a vontade reprimida de lhes gritar impropérios vários, ainda que néscios.

Creio que o elevado grau de intransigência de quem tem a mania não decorre de uma alegada superioridade intelectual, exercida através de tácticas dirigidas aos seus supostos serviçais. Pelo contrário, revela antes a incapacidade de assumir uma liderança estimulante e consciente.

E então, uma vírgula, um sinónimo, fazem ou não a diferença? Podem fazer, mas não devem. Poder não é dever. Tal como, para se ser soberano na matéria, não basta parecer sê-lo, é essencial saber sê-lo. Perante semelhante espezinhamento, a assertividade dos argumentos teria apenas o efeito de enfadar e acintar quem cultiva tal mania, termo que, curiosamente, se define como apego excessivo ou obsessivo a uma ideia ou intenção. Entender isso como escrever melhor do que o outro não é mais do que uma obsessão, palavra que, não menos curiosamente, significa perseguição diabólica.

Por tudo isto, prefiro manter uma espécie de si-lên-ci-o perante tanta imperfeição, amparando-me no exemplo de quem verdadeiramente percebe de escrita, aquele que escreve porque sente e sente aquilo que escreve».

Lobos, de Tânia Ganho

 

Lobos, de Tânia Ganho, foi o meu primeiro contacto com a escrita da autora enquanto romancista. Não foi uma leitura que me envolvesse por completo desde o início. A narrativa é contida, avança com alguma reserva, e precisei de tempo para entrar verdadeiramente na história. Ainda assim, à medida que fui avançando, senti-me cada vez mais presa às personagens e ao universo que a autora constrói.

A narrativa acompanha várias figuras marcadas por experiências duras e limites difíceis de gerir. Fedra é antropóloga forense e lida diariamente com os horrores da dark web, uma exposição constante ao lado mais sombrio do ser humano. Leonor é uma adolescente a tentar recuperar de uma experiência profundamente traumática. Helena, a mãe, vive dividida entre a protecção da filha e os seus próprios conflitos internos. Stefan, ex-repórter de guerra, encontrou nos lobos e na natureza um refúgio inesperado, quase terapêutico, um espaço de silêncio e de cura depois de tudo o que viveu.

Os temas abordados são pesados e actuais. Abuso sexual de menores, saúde mental, envelhecimento e relações familiares surgem entrelaçados num contexto pandémico que acentua fragilidades já existentes. Nada é tratado de forma sensacionalista. Pelo contrário, há contenção, rigor e uma escrita consciente do peso emocional das situações descritas.

A dureza das histórias leva inevitavelmente à reflexão sobre a complexidade da natureza humana. A frase “Uma praga, as pessoas” surgiu, na minha mente, ao longo da leitura e resume bem o desconforto que o livro provoca. Há violência, dor e incompreensão, mas também tentativas de sobrevivência e de reconstrução.

A presença da natureza e dos lobos assume aqui um papel simbólico importante. Mais do que um cenário, funcionam como um espaço de afastamento do ruído humano, quase como uma forma de terapia, onde é possível respirar, observar e, de alguma forma, aprender a lidar com o trauma.

Lobos é um livro cujo impacto maior surge depois de terminada a leitura. Não se fecha de forma confortável nem oferece respostas fáceis. Obriga-nos a pensar, a revisitar temas incómodos e a reflectir sobre o que lemos. E é precisamente aí que reside a sua força.

Gostei muito e recomendo.

E vocês, já o leram? Como sentiram a escrita e as personagens?