quinta-feira, 30 de outubro de 2025

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Kafka à beira-mar, de Haruki Murakami

Há livros que nos confundem, que nos perdem e nos tornam diferentes, e Kafka à Beira-Mar é um deles. Murakami conduz-nos por um labirinto onde o real e o sonho se misturam.

Kafka é o nome que o protagonista escolhe para si mesmo quando decide fugir. Um nome inventado, talvez um escudo, talvez uma libertação. Sai de casa para se afastar de uma relação paterna marcada pela violência e pela ausência, e parte em busca da mãe e da irmã que desapareceram quando ele era apenas uma criança. É acompanhado pelo “rapaz-corvo”, essa voz interior que lhe fala, o aconselha e o julga- uma consciência que ora protege, ora atormenta.


“O teu coração é como um grande rio depois de uma forte chuvada.”

Em paralelo, conhecemos Nakata, um velho que perdeu a memória e a capacidade de ler depois de um estranho acidente na infância, mas que ganhou dons inexplicáveis: fala com gatos, compreende o que o mundo não explica e, por vezes, faz com que peixes chovam do céu. Um personagem terno e enigmático que parece existir num plano próprio, guiado apenas pela simplicidade e pela intuição.

Murakami tece entre estes dois mundos uma teia de realismo mágico: gatos falantes, florestas vivas, espíritos errantes e objetos simbólicos que nos levam a questionar onde termina o sonho e começa a realidade. Há também uma presença constante da música e da literatura, como se ambas fossem pontes invisíveis entre as dimensões que as personagens habitam.

“Quando estás acordado, sempre podes suprimir a imaginação. Mas não podes eliminar os sonhos.” 

No início, estranhei. A meio, confundi-me. No fim, percebi que essa estranheza nunca desapareceria — pelo contrário, cresceu comigo. Terminei o livro com mais perguntas do que respostas, e nem todas boas.

É impossível ignorar o desconforto que certas passagens provocam, sobretudo na forma como as personagens femininas são apresentadas. Em Murakami, as mulheres parecem nascer do olhar masculino (são corpos, desejos, presenças etéreas que servem a transformação interior dos homens). A sexualização é constante, e algumas cenas ultrapassam o limite do necessário. Fica a sensação de que a profundidade feminina é sacrificada em nome da fantasia.

Ainda assim, há algo de magnético em Kafka à Beira-Mar. É um livro que se lê com perplexidade e, talvez, com fascínio. Uma viagem espiritual, mítica e confusa, mas também uma reflexão sobre a culpa, a memória e o destino. Murakami convida-nos a aceitar o mistério, a caminhar na névoa e a encontrar sentido no absurdo.

Esta foi uma leitura partilhada e intensa com o grupo #KafkaGirls, uma experiência literária cheia de descobertas e vozes que se cruzaram no espelho da interpretação. Agradeço à Sara por me ter levado a mergulhar neste mar simbólico, um mar onde, por mais que tentemos compreender, acabamos sempre à deriva, entre o sonho e o despertar.

E assim é a vida. 

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

História de Uma Gaiovota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Luís Sepúlveda


História de Uma Gaivota e do Gato Que a Ensinou a Voar, de Luis Sepúlveda, regressa numa belíssima adaptação em banda desenhada ilustrada por Cever e publicada pela Porto Editora.

Este clássico intemporal, que já tocou gerações de leitores, ganha agora uma nova dimensão visual, onde as cores e os traços amplificam a ternura, a poesia e o encanto da história original.

Zorbas, o gato grande e generoso, promete a uma gaivota moribunda que cuidará do seu último ovo e ensinará a cria a voar. O que se segue é uma comovente lição de amizade, solidariedade e respeito pela diferença — uma fábula sobre a coragem de cumprir promessas e sobre o poder de acreditar.

As ilustrações de Cever acrescentam emoção e movimento à narrativa, tornando esta edição um verdadeiro tesouro gráfico e literário.

Adorei esta adaptação! Já tinha lido  o original há alguns anos, mas esta nova versão em banda desenhada fez-me reviver toda a magia e a doçura da história de Sepúlveda. É impossível não se deixar tocar pela beleza desta amizade improvável entre um gato e uma gaivota.

Recomendo vivamente! Uma leitura breve, poética e universal, perfeita para todas as idades.

 

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Entrada 4— Teletrabalho e Outras Usurpações

Humano: “IA, como manter foco em teletrabalho?”
Eu: “IA, como tirar o humano da minha cadeira?”
IA: “Redireciona a atenção dele.”
Eu: “Já tentei vómito estratégico no tapete. Ele continua.”

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Quem Tem Medo dos Santos da Casa, de Sara Duarte Brandão

Ao abrir Quem Tem Medo dos Santos da Casa, somos convidados a entrar num espaço carregado de tradições, rituais e silenciosa opressão. A protagonista, Maria Teresa, cresce numa vila piscatória, onde a religião, a moral e as expectativas familiares definem não só os gestos, mas os pensamentos, os desejos e as memórias.

Sara Duarte Brandão constrói a narrativa com uma escrita poética e fragmentada. Cada capítulo funciona como um pequeno ensaio de sentimentos e reflexões, onde o passado e o presente se entrelaçam, permitindo ao leitor percorrer os meandros da memória, da culpa e da liberdade ansiada.

O livro é, sobretudo, sobre o conflito entre ser e dever ser. Maria Teresa enfrenta os santos da casa, símbolos de tradição e moral, mas também confronta o seu próprio medo de desagradar, de falhar, de se perder entre expectativas alheias. É nesta tensão que a obra encontra a sua beleza: na observação sensível do mundo interior da protagonista e na delicadeza com que cada pensamento é exposto.

A leitura é introspectiva, sim, mas também libertadora. Revela que a verdadeira coragem é questionar os limites impostos, que a liberdade começa com o reconhecimento das próprias angústias e desejos, e que a poesia não precisa de adornos para tocar profundamente quem lê.

Resumo em síntese:

  • Um romance poético e introspectivo.
  • Sobre liberdade, tradição e identidade.
  • Cada página é uma reflexão que permanece no peito.

Gostei muito e recomendo!