quarta-feira, 28 de junho de 2017

Vamos comprar um poeta, de Afonso Cruz

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Opinião: Penso que este livro poderá ser qualificado (e não quantificado) como um conto cujos elementos distópicos servem de crítica a uma sociedade que dá mais importância às questões económicas ou financeiras.


As próprias pessoas são números (nós somos números) e tudo pode ser quantificado incluindo o próprio amor.


 


A narrativa é feita na primeira pessoa e pelos olhos de uma menina, que vive com o pai, a mãe e o irmão, vamos conhecendo certos aspetos dessa sociedade sui generis em que são utilizadas expressões económicas como "contenção orçamental", "desvio colossal" , entre outras. A expressão que mais me intrigou foi "Por Mamon", e após pesquisa verifiquei que é um termo da Bíblia que é usado para descrever a riqueza material e a cobiça. Portanto, numa sociedade consumista e materialista, ao invés de se apelar a Deus, é óbvio que se tem de invocar "Mamon", divindade relacionada com o dinheiro.


 


A história é bem pequena e tudo começa quando a criança sugere que se compre um poeta (Um poeta e não artista, pois este suja mais!). O poeta ou vate é marreca e é o mais barato que existe na loja. A família leva-o para casa e, para não gastar mais dinheiro, instala-o debaixo das escadas (tal como o Harry Potter). É claro que o poeta não é esquisito e não estranha o acolhimento. Ao princípio ninguém o entende mas quando começam a perceber surgirão algumas mudanças na família.


Gostei muito desta história. Acho que há aqui uma espécie de dualismo entre o materialismo (representada por aquela família) e a parte espiritual (representada pelo poeta, pelo artista ou, em suma, pela cultura). Assim, podemos, de forma divertida, entrar em modo de pensamento crítico e associar à nossa sociedade atual a ideia de que devemos dar importância à cultura. 



A cultura não se gasta.Quanto mais se usa, mais se tem.



 



Um poeta é como quem sai do banho e passa a mão pelo espelho embaciado para descobrir o seu próprio rosto.



 


Sinopse: Numa sociedade imaginada, o materialismo controla todos os aspetos das vidas dos seus habitantes. Todas as pessoas têm números em vez de nomes, todos os alimentos são medidos com total exatidão e até os afetos são contabilizados ao grama. E, nesta sociedade, as famílias têm artistas em vez de animais de estimação.
A protagonista desta história escolheu ter um poeta e um poeta não sai caro nem suja muito – como acontece com os pintores ou os escultores – mas pode transformar muita coisa. A vida desta menina nunca mais será igual...
Uma história sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura nas nossas vidas, celebrando a beleza das ideias e das ações desinteressadas.


 


 


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Vamos comprar um poeta, de Afonso Cruz


Editado em 2016 pela Caminho


ISBN- 078- 972-21-2799-8

terça-feira, 27 de junho de 2017

Línguas-de-gato | O amor está no ar #34

Olá. Estou de volta. Tenho feito muito desporto. Sofá, sala, cozinha e vice-versa. É um desafio e tanto, especialmente com tanto calor. Abanar a cauda não dá resultado. Já comprovei isso. Então, procuro sítios bem fresquinhos para me deitar todo esparramadinho. Que bem que sabe! (Que pena não poder despir o meu fato de pelo).


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Já a Pipoca, essa anda na sua vida apaixonada e irrita-me até aos pelos finais do bigode com tanta pergunta sobre o Amado gato da vizinha. Se pudesse, dava-lhe um banho de água fria. Não, não estou ser um mau gato, uma vez que era  só para refrescar (só que não). Mas se o pensei melhor o fiz. Miau.Humpf. Primeiro tinha de fazer a experiência. Abri a torneira e, com alguma dificuldade, as patinhas pequenas e felpudinhas deram um toque de gato genial e o banho que tomei deixou-me cheio de ideias frescas (pudera!).


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A Pipoca surpreendeu-me e saltou logo para a banheira. Disse-me que andava a observar as humanas com biquinis reduzidos. E disse ainda que as humanas na água da piscina são muito bonitas. Coitada, deduzir que molhar-se ia deixá-la com ar de boazona para o seu Amado. Pru Pru Pru (sim, sou eu a dar risadas).


A Dona chegou a tempo de a salvar e ficou admirada com o seu estado de magreza. 


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 Depois conto mais, pois estou a ser perseguido por uma gata enraivecida. 


Francamente...

quinta-feira, 22 de junho de 2017

A Livraria dos Finais Felizes, de Katarina Bivald

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Sara, a protagonista, é uma bibliófila, adora ler e trabalhou numa livraria na Suécia. Assim, quando a livraria fechou as portas, resolve visitar a Amy em Broken Wheel, uma pequena cidade norte-americana do Iowa. Amy e Sara tornaram-se amigas, à distância, através das cartas que foram trocando. Ambas adoram ler e trocar as suas experiências literárias. Porém, quando Sara chega a Broken Whell, Amy tinha acabado de sucumbir a uma doença grave e não a chega a conhecer. Mas Sara não desiste e resolve abrir uma livraria com os livros de Amy, despertando, aos poucos, nos moradores, o gosto pela leitura.


 


Este livro foi-me recomendado pela Magda e estava à minha espera (e eu à espera dele) e, quando lhe peguei, não consegui parar. Aliás, a frase "Há sempre uma pessoa para livro"confirma-se em cheio. Se, por um lado, as referências literárias multiplicam-se ao longo do livro de uma forma natural (e gigantesca, conforme lista de autores que a Roberta Frontini apontou e indica aqui), por outro lado, o leitor sente-se como se estivesse em Broken Whell, como se conhecesse os moradores e os livros de Amy.


 


A Livraria dos Finais Felizes é um daqueles livros em que temos uma protagonista jovem, normal, simples, e sempre "com o nariz enfiado nos livros", mas cuja simplicidade irá "revolucionar" a vida dos outros. E quando ela julga estar a ajudar os moradores e a retribuir a sua hospitalidade, percebemos que está, no fundo, a ajudar-se a si própria (ainda que ela não se aperceba disso). O mais interessante é que irá ter de passar por situações reais, o que a levará a compreender que aquelas pessoas, aqueles moradores de uma cidade pequena desinteressante, são muito importantes. Os livros "são melhores do que a realidade (...). Mais grandiosos, mais divertidos, mais bonitos, mais trágicos, mais românticos",  porém, em Broken Whell, Sara sentir-se-á em casa. E quem não estaria ao sentir-se rodeada de amigos "reais" e de uma livraria repleta dos fiéis livros?!


 


Numa última análise, considero que "A Livraria dos Finais Felizes" é uma ode aos que "respiram livros"  e que não passam sem eles, mas na qual a escritora utiliza, com habilidade, uma mensagem estratégia que leva a que os livrólicos concluam o seguinte: é preciso ler e é imprescindível viver... 


 



Os livros tinham constituído uma defesa, sim, mas não era só isso. Tinham protegido Sara do mundo à sua volta, mas também o tinham transformado num difuso pano de fundo para as verdadeiras aventuras existentes na sua vida.


 


Livros de capa mole e de capa dura tinham um cheiro diferente, mas também existiam disparidades entre as edições de bolso inglesas e suecas (...) Curiosamente, os manuais para o público adulto cheiravam ao mesmo que os livros escolares: o aroma familiar das salas de aula, ar viciado e desassossego.



 


Sinopse:Há sempre uma pessoa para cada livro e um livro para cada pessoa."A Livraria dos finais felizes é uma história comovente sobre o poder Se a vida fosse um romance, o da Sara certamente não seria um livro de aventuras. Em vinte e oito anos nunca saiu da Suécia e nenhum encontro do destino desarrumou a sua existência. Tímida e insegura, só se sente à vontade na companhia de um bom livro e os seus melhores amigos são as personagens criadas pela imaginação dos escritores, que a fazem viver sonhos, viagens e paixões. Mas tudo muda no dia em que recebe uma carta de uma pequena cidade perdida no meio do Iowa e com um nome estranho: Broken Wheel. A remetente é uma tal Amy, uma americana de 65 anos que lhe envia um livro. E assim começa entre as duas uma correspondência afetuosa e sincera. Depois de uma intensa troca de cartas e livros, Sara consegue juntar o dinheiro para atravessar o oceano e encontrar a sua queria amiga. No entanto, Amy não está à sua espera, o seu final, infelizmente, veio mais cedo do que o esperado. E enquanto os excêntricos habitantes, de quem Amy tanto lhe tinha falado, tomam conta da assustadora turista (a primeira na história de Broken Wheel), Sara decide retribuir a bondade iniciando-os no prazer da leitura. Porque rapidamente percebe que Broken Wheel precisa de um pouco de aventura, uma dose de auto-ajuda e, talvez, um pouco de romance. Em suma, esta é uma cidade que precisa de uma livraria. E Sara, que sempre preferiu os livros às pessoas, naquela aldeia de poucas gentes, mas de grande coração, encontrará amizade, amor e emoções para viver: e finalmente será a verdadeira protagonista da sua vida.


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A Livraria dos Finais Felizes, de Katarina Bivald


Editado em abril de 2016 pela Suma de Letras



ISBN: 978-989-665-070-4