sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Isola, de Allegra Goodman

Que leitura tão inesperada e intensa.

Fui completamente às cegas porque este livro fazia parte do conceito "Blind Date with a Book" da HmbookGang. Não sabia praticamente nada sobre a história e deixei-me simplesmente levar. E que surpresa extraordinária foi.

Desde as primeiras páginas percebi que estava perante algo especial. A escrita é fluída, envolvente e com um tom quase clássico que nos faz sentir e ler de forma compulsiva. Em vários momentos senti o ambiente de Jane Eyre, noutros a sensibilidade emocional que me fez lembrar os romances de Lesley Pearse, passando à vertente de sobrevivência de Robinson Crusoe. Esta combinação torna o livro intenso e emocionante, e não tenho dúvidas de que daria uma ótima série de TV.

Marguerite de la Rocque, órfã e entregue à tutela do seu primo Jean‑François de la Rocque de Roberval, vê a sua vida tomar um rumo inesperado quando a confiança é traída e acaba isolada numa ilha remota, acompanhada apenas pelo seu amor, Auguste, e pela sua ama, Damienne. A partir daí, tudo se transforma. Não quero revelar demasiado porque parte do impacto está na forma como os acontecimentos se desenrolam diante de nós.

A construção da personagem é profundamente comovente. A evolução de Marguerite é dolorosa, inspiradora e intensa. Sofremos com ela, revoltam-nos as injustiças e admiramos a sua força.

Há uma frase que ficou comigo e que resume muito da sua vivência:

“Como sempre, deixou-me na ilusão de que era livre”.

É possível perceber a desigualdade da época retratada no romance, em que a narrativa mostra que, naquela época, mesmo mulheres com segurança financeira podiam tornar-se vulneráveis se os homens à sua volta agissem de forma injusta ou imprevisível. Saber que a história tem base real acrescenta uma camada extra de impacto emocional.

Se tivesse de apontar um ponto menos forte, seria o final. Depois de uma jornada emocional tão poderosa, senti que o desfecho poderia ter sido um pouco mais desenvolvido ou mais arrebatador.

Ainda assim, foi uma leitura intensa, marcante e absolutamente envolvente.

Recomendo muito.

O Pacto de Água, de Abraham Verghese

 

 Esta história é sobre uma família que vive sob uma sombra inexplicável: em cada geração, alguém morre afogado. 

Tudo começa com Mariamma, uma menina de 12 anos que entra num casamento arranjado e cresce para se tornar o pilar da família. Acompanhamos, ainda, o marido, Jojo, Philipose, Ninan e Mariamma. 

Os seus caminhos cruzam-se com médicos estrangeiros, leprosos isolados e mudanças sociais profundas numa Índia em transformação: do colonialismo à independência, com a medicina, tradições familiares e relações humanas sempre em jogo.

 “Todas as famílias têm segredos, mas nem todos os segredos são para enganar. O que define uma família não é o sangue, mas os segredos que partilham.” 

Curiosamente, ao longo da saga, são as mulheres que carregam a história, sustentam relações e enfrentam perdas com coragem silenciosa. 

Não é uma leitura fácil. Este calhamaço [de 736 págs] exigiu-me atenção e entrega, com passagens detalhadas e pequenas digressões.

Mas...foi a resiliência das mulheres, a constante sombra da água e o retrato comovente dos leprosos que me prenderam à história do início ao fim.

É uma leitura que me emocionou algumas vezes e que recomendo sem hesitar

 Já leste? Que segredos desta família te prenderam mais? A água? 

 


O Segredo da Casa May Day, de Victoria Scott

Há casas que guardam memórias…

E há casas que guardam segredos. 

 Este livro leva-nos a uma casa isolada no Tamisa, com duas histórias que se entrelaçam: 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, e 2013, no presente.

No passado, seguimos Ellen, uma jovem enfermeira a cuidar de soldados marcados pela guerra. A casa é tensa, cheia de silêncios e pequenas inquietações… e rapidamente percebemos que nada é o que parece.

No presente, Meredith e o marido mudam-se para a casa, à procura de um recomeço. Mas a casa tem segredos, e os ecos do passado começam a aparecer de forma inesperada.

A leitura é envolvente e ligeiramente sombria, com o mistério a crescer devagarinho; mais focado as emoções e nas personagens do que em grandes reviravoltas.

É um romance que mistura história e mistério, perfeito para quem gosta deste género e sente aquela vibe que também encontramos nos livros de Kate Morton.

Ficaram com vontade de ler? Só posso dizer: gostei!

 E o final… ai, o final! Gostava imenso de ter alguém com quem partilhar.

 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A Donzela, de Kate Foster

 

Gostei muito deste livro. A escrita é envolvente, fluida e lê-se extremamente bem, o que torna a leitura rápida, apesar da dureza dos temas abordados.


A história passa-se em Edimburgo, em 1679, e acompanha Violet, uma jovem criada acusada de ter assassinado o seu patrão, James Forrester. E é aqui que a coisa começa a apertar, porque Violet é mulher, pobre e sem qualquer tipo de poder, ou seja, tudo a jogar contra ela. Ao longo do livro vamos percebendo como chegou até ali, o que viveu e como o sistema simplesmente não estava feito para a proteger.

A história expõe com clareza a desigualdade social, o abuso de poder e a forma como a justiça tratava uma mulher pobre, sem proteção e sem voz. 

Um dos aspetos que mais me marcou foi o facto de o livro se basear em factos verídicos. Saber que Violet existiu e que este julgamento aconteceu na realidade dá outra profundidade à leitura e faz-nos refletir sobre quantas histórias semelhantes ficaram perdidas ou silenciadas ao longo da História.

É um romance histórico intenso, bem construído e impossível de ler com indiferença.

Já leram A Donzela? O que acharam desta história inspirada em acontecimentos reais? 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Leituras do mês de janeiro, uma história sem final feliz

 

Hoje vou escrever para vocês usando os títulos dos 9 livros que li. 

Janeiro começou com tudo: O Crime Mais Maravilhoso do Ano aconteceu… e não, não foi nada digno de CSI, apenas o suficiente para mexer com a vizinhança. Entre olhares furtivos, surgiu também Uma Questão de Atração, porque, claro, nada como um mistério para acender faíscas.

Enquanto isso, alguém ainda se lembrava de Os Crimes do Verão de 1985 (e sim, Miguel D’Alte tinha razão: até as melhores famílias guardam segredos). Mas nada como um bom lenço para recuperar a compostura em O Caminho Até Casa.

No meio deste caos de emoções, conheci O Neto do Homem Mais Sábio, que me deixou conselhos do género “escuta mais, fala menos”. Pelo caminho, cruzei-me com Lobos (ok, talvez fossem apenas cães muito grandes) e imaginei o que aconteceria se Os Gatos Falassem… se os víssemos. São seres independentes e surpreendentes, por isso fiquei-me apenas pela imaginação.

No fim, quando tudo parecia demasiado complicado, surgiu A Donzela. Não a que espera ser salva, mas a que mata. E foi aí que confirmei o que já sabia: mistérios e segredos são mesmo os melhores ingredientes para as minhas leituras.

Só ficou a faltar Todas as Famílias Felizes, que era o que eu desejava para terminar bem o mês de janeiro. 


Fim.


Agora, a realidade. 

A realidade ultrapassou qualquer ficção e não consigo deixar de pensar nisso (talvez até seja egoísmo estar aqui a escrever com títulos de livros), mas dou-vos uma explicação plausível: a mente humana é frágil. Por isso, optei por seguir em frente e mudar de mês. 

Já que estou em fevereiro, Deus queira que o final feliz apareça. Será provavelmente através das leituras, mas vou acreditar, piamente, que tudo vai mudar à minha volta. Não estou alheia ao que se passa, apenas ativei o meu modo de sobrevivência. 

E vocês? 


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Se os gatos falassem, de Piergorgio Pulixi


 Se o vosso gato pudesse falar, provavelmente diria: “Não preciso de ti, mas este navio e este mistério são divertidos!” 

Em Se os Gatos Falassem, de Piergiorgio Pulixi (@clubedoautor), transporta-nos para um cruzeiro à volta da Sardenha onde o nosso querido livreiro Marzio Montecristo se vê envolvido num mistério, digamos, clássico. Quando um assassinato acontece a bordo, ninguém pode sair do navio e todos se tornam suspeitos. Com a ajuda do inspetor Caruso e dos seus gatos, Miss Marple e Poirot, Marzio tenta desvendar o crime usando a sua paixão por romances policiais. 

Comparando com A Livraria dos Gatos Negros, que se passava numa livraria e apresentava Marzio como detetive amador, este segundo livro coloca-o num cenário mais fechado e claustrofóbico, mas dá mais destaque aos gatos, Marple e Poirot. Também achei menos denso e mais fácil de ler! É mesmo leve, inteligente, perfeito para fãs de policiais, e as referências a livros tornam a leitura ainda mais agradável. 

Gostei bastante! É uma leitura divertida, envolvente e com momentos de pura ironia, ou de irritação, mas que qualquer fã de mistério e gatos vai adorar.

Já leram? Têm curiosidade em ler?