Nas redes sociais, especialmente no universo dos bookstagrammers, a leitura — esse ato íntimo, tranquilo, quase sagrado — transformou-se, muitas vezes, numa corrida sem meta definida. Há cada vez mais pressão para ler mais, mostrar mais, publicar mais. Vejo contas com pilhas de livros lidos em tempo recorde e outras que, não lendo assim tanto, fazem parecer que sim. Finjo que acredito. Cada um sabe de si. A vida é feita de escolhas, e ler porque se gosta também é uma escolha. Mas é uma escolha que parece estar a desaparecer, engolida pelas exigências de uma plataforma que recompensa o excesso.
O Instagram, esse patrão invisível e incansável, dita regras com mão de ferro: mais conteúdo, mais engagement, mais visibilidade. A tirania do algoritmo impõe uma presença constante, criatividade infindável, imagens sempre perfeitas. Não basta ler — é preciso mostrar que se lê. Não basta gostar — é preciso convencer os outros disso. E quando a exaustão bate à porta, há quem vá ao Threads desabafar, queixar-se da queda de alcance, da falta de seguidores, do cansaço que se instala. A culpa, dizem, é do algoritmo.
Mas será só isso? Será mesmo necessário viver esta maratona permanente? Será que ainda lemos por prazer, ou apenas para cumprir um calendário não escrito, ditado por métricas invisíveis e vontades alheias? A pressão é real — silenciosa, mas esmagadora. Talvez esteja na hora de parar. De recuperar o prazer lento e honesto da leitura. De escolher o silêncio ao ruído, a autenticidade à performance.
Porque, no fim, o mais importante não é quantos livros lemos, mas o que eles deixam em nós. E isso, por mais filtros que se apliquem, não cabe numa fotografia quadrada.
18 comentários:
No instagram tudo é performance. É doentio! Muitos de nós a ser comandados por um "algoritmo" que, se analisarmos bem, não nós dá nada de verdadeiramente valioso em troca. Oferecemos o nosso tempo, rouba a nossa saúde mental em troca de quê? Excelente post <img src="https://imgs.sapo.pt/images/blogs/mood/EMOTICON_2020_OK.png" width="32" height="32" style="width: 32px; height: 32px;">
Concordo plenamente, o Instagram (e as redes sociais no geral) criaram uma cultura de exaustão disfarçada de inspiração. Estamos sempre a tentar corresponder a expectativas invisíveis, e muitas vezes esquecemo-nos do que realmente importa. É mesmo isso: damos tempo, atenção e até um pedaço da nossa paz... e por vezes recebemos muito pouco em troca. Contra mim falo, mas é o que sinto, e, embora seja uma pessoa criativa e goste de experimentar coisas diferentes, as leituras ficam em segundo plano. É mesmo muito cansativo.
Que bom saber que gostaste do post. Obrigada
Gosto do Instagram, não"abuso" do meu tempo para mostrar o que não corresponde à minha verdade.
E a minha verdade são as fotografias de lugares, de coisas banais que gosto de rever , muito tempo depois de publicar .
Quanto à leitura, faço -o no sossego da minha casa, ou no carro, ou numa sala de espera...
Ah, talvez sejas um resistente moderno!
A verdade é que viver fora dessas redes é cada vez mais raro, quase um ato de rebeldia. E sim, ficas a salvo dos caprichos dos algoritmos e da tirania do scroll infinito. Mas olha que às vezes também se encontram coisas boas por lá (entre muito ruído, claro).
Obrigada pela partilha
Também gosto do Instagram e, durante muito tempo, senti-o como um espaço leve, quase como um álbum visual onde partilhávamos fotos e memórias sem grandes expectativas. Agora, com os reels, as tendências e a corrida pelas visualizações, sinto que se perdeu um pouco dessa simplicidade. Tal como tu, continuo a encontrar prazer nos registos de lugares e momentos banais — são esses que gosto de rever com o tempo. Mas o que me inquieta (e motivou este post) é esta necessidade constante de dar asas à criatividade. Faço os vídeos e as publicações como sei, com os recursos que tenho, e sei o tempo que isso leva. Ainda assim, continuo. Porque gosto. Porque comunicar é também criar. E isso faz parte de mim. Talvez precise de ignorar um pouco a lógica da plataforma e adoptar um ritmo diferente...mas, honestamente, sinto saudades do instagram como era no início.
Eu também finjo que acredito, mas não fico convencido. Não quero crer que alguém lê um livro em sessenta minutos (mais coisa menos coisa), seja capaz de fazer um resumo verosímil da história que acabou de ler. Talvez eu seja antiquado, porque gosto de ler, de compreender o que fica por dizer nas entrelinhas e de apreciar a escrita do autor.
Parece-me (talvez esteja enganado), que cada vez mais se lê para parecer que se lê. Podem ler 1200 livros num ano, mas se nada ficar do que leram, então, mais valia não ter lido absolutamente nada.
Concordo: ler é mais do que passar os olhos pelas palavras — é compreender, sentir e guardar algo da experiência.
Bela reflexão, realmente hoje em dia parece que só se lê para parecer que se leu e não para desfrutar do poder da literatura ... bons livros que nos fazem viajar, que nos emocionam, nos impactam, nos geram raiva ou campaixão...uma montanha russa de sentimentos.
Duvido que usufruam disso, vivem na fantasia das redes sociais, de mostrar vidas idílicas e, quase sempre, falsas.
Boa semana.
Tão verdade... ler devia ser sempre uma experiência transformadora, não uma exibição. Que nunca percamos essa essência.
Obrigada pela partilha.
Em relação à leitura, aqui nos blogues é igual.
Às vezes, exceptuando certas pessoas que conheço e que são leitores(as) de verdade, vejo publicações que me parecem ler as sinopses, provavelmente procuram na internet alguma opinião, e fazem a sua interpretação do livro.
Eu não faço.
Já li mais, actualmente leio menos, mas gosto de ler.
Bom fim-de-semana
Compreendo perfeitamente o que dizes e, infelizmente, também noto isso. Há quem se limite à sinopse ou a uma opinião alheia, o que acaba por empobrecer o diálogo em torno dos livros. Mas felizmente ainda há muitos leitores genuínos, que partilham verdadeiras experiências de leitura. O importante é mesmo ler com gosto, seja muito ou pouco.
Obrigada pelo teu comentário!
Bom fim-de-semana e boas leituras!
Mark Zuckerberg. Dono do instagram. Zucker é a palavra alemã para açucar. Berg é montanha. Donde, caros instagramers, willing slaves se preferirem, sejam bem vindos à vossa dieta digital
Boas leituras
O "problema" (e acho que é um problema) não é exclusivo de livros. Sigo mais contas de viagens e é a mesma coisa. Uma pressão imensa de publicar tudo (preços, dicas, tempos, etc) para onde as pessoas vão. Chegam ao ponto de criar uma imagem para linkarem o perfil a dizer "A @..... vai viajar para o país X. Sigam-na para a acompanhar tudo". Acho que as pessoas nem aproveitam só para postar. Quanto aos booktokers, a minha irmã já tinha comentado o mesmo que escreve.
Tens toda a razão! Acho que essa pressão de “ter de mostrar tudo” está mesmo presente em muitos nichos, seja livros, viagens ou outros. Fica aquela sensação de que estamos sempre a criar conteúdo para os outros e nem sempre a aproveitar o momento a sério. E muitas vezes a autenticidade fica em segundo plano…
Obrigada por partilhares, é um tema que merece mesmo reflexão.
Boa semana!
Adorei a analogia!
Realmente, uma “dieta digital” que poucos querem seguir, mas que devia ser mais levada a sério.
Um lembrete para todos nós: encontrar equilíbrio nesta “dieta” cheia de tentações digitais é essencial.
Boas leituras para ti também!
Cada vez mais tento fugir da "pressão" de ler as novidades e de ler o que parece que toda a gente está a ler e tentar focar-me em ler aqueles livros que quero mesmo ler e que acho que vou gostar muito. Escrevo sobre eles se me apetecer. Se sentir que não tenho nada a dizer sobre o livro não escrevo.
Sou leitora de moods por isso gosto de novidades e também gosto de ler o que me apetecer. Vou intercalando consoante acho que é o momento certo para ler mas sempre respeitando os que chamam por mim. E não são todos, felizmente.
Quanto a escrever, tento escrever sempre que posso. É um hábito. Tenho registo de todos os livros que li desde 2016, ou seja, desde que criei este blogue. Aqui no blogue foi sempre tranquilo, já no insta a pressão é de facto diferente.
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