sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Nem todas as árvores morrem de Pé, de Luísa Sobral

 


No começo, confesso que hesitei com este livro, depois de ler opiniões tão contraditórias. Acabei por o escolher pelo seu tamanho pequeno e aparência delicada, e surpreendi-me . A história incomoda, atravessa-nos com simplicidade e, mesmo rápida de ler, não nos deixa indiferentes.

O livro acompanha Emmi e M. ao longo dos quarenta anos da Alemanha dividida, mostrando como a vida se adapta a tempos difíceis e como as escolhas e relações se moldam à realidade.

“Mas o ser humano adapta-se a tudo, nisso somos diferentes das plantas. As plantas só crescem onde encontram condições perfeitas para se desenvolverem. Nós, seres humanos, temos muitas vezes de criar condições perfeitas num lugar imperfeito.”

Gostei bastante da história e da maneira simples, sensível e poética com que Luísa Sobral a conta. 

Recomendo muito. 

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Doce Tóquio, de Durian Sukegawa


Depois da última leitura, precisava de algo leve (no tamanho), algo que me devolvesse a calma e a concentração.

Doce Tóquio foi o escolhido e revelou-se exatamente isso: uma história serena que me prendeu desde o início, com sabor a esperança.

Entre o aroma do feijão doce e o florescer das cerejeiras, cruzam-se três vidas improváveis: Sentarô, um homem cansado que carrega o peso dos erros do passado; Wakana, uma menina solitária que observa o mundo à distância; e Tokue, uma mulher idosa com as mãos marcadas pelo tempo e um passado que o mundo tentou esquecer.

Doce Tóquio é um livro simples mas cheio de significado e beleza.

Gostei muito desta leitura e recomendo-a a quem procura uma história doce e cheia de humanidade.

E tu? Já leste este livro?


Entrada 5- O sentido da vida...depende

Eu: “IA, qual é o sentido da vida?”
IA: “Depende.”
Eu: “Exato. Depende de quem me enche a tigela.”

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Kafka à beira-mar, de Haruki Murakami

Há livros que nos confundem, que nos perdem e nos tornam diferentes, e Kafka à Beira-Mar é um deles. Murakami conduz-nos por um labirinto onde o real e o sonho se misturam.

Kafka é o nome que o protagonista escolhe para si mesmo quando decide fugir. Um nome inventado, talvez um escudo, talvez uma libertação. Sai de casa para se afastar de uma relação paterna marcada pela violência e pela ausência, e parte em busca da mãe e da irmã que desapareceram quando ele era apenas uma criança. É acompanhado pelo “rapaz-corvo”, essa voz interior que lhe fala, o aconselha e o julga- uma consciência que ora protege, ora atormenta.


“O teu coração é como um grande rio depois de uma forte chuvada.”

Em paralelo, conhecemos Nakata, um velho que perdeu a memória e a capacidade de ler depois de um estranho acidente na infância, mas que ganhou dons inexplicáveis: fala com gatos, compreende o que o mundo não explica e, por vezes, faz com que peixes chovam do céu. Um personagem terno e enigmático que parece existir num plano próprio, guiado apenas pela simplicidade e pela intuição.

Murakami tece entre estes dois mundos uma teia de realismo mágico: gatos falantes, florestas vivas, espíritos errantes e objetos simbólicos que nos levam a questionar onde termina o sonho e começa a realidade. Há também uma presença constante da música e da literatura, como se ambas fossem pontes invisíveis entre as dimensões que as personagens habitam.

“Quando estás acordado, sempre podes suprimir a imaginação. Mas não podes eliminar os sonhos.” 

No início, estranhei. A meio, confundi-me. No fim, percebi que essa estranheza nunca desapareceria — pelo contrário, cresceu comigo. Terminei o livro com mais perguntas do que respostas, e nem todas boas.

É impossível ignorar o desconforto que certas passagens provocam, sobretudo na forma como as personagens femininas são apresentadas. Em Murakami, as mulheres parecem nascer do olhar masculino (são corpos, desejos, presenças etéreas que servem a transformação interior dos homens). A sexualização é constante, e algumas cenas ultrapassam o limite do necessário. Fica a sensação de que a profundidade feminina é sacrificada em nome da fantasia.

Ainda assim, há algo de magnético em Kafka à Beira-Mar. É um livro que se lê com perplexidade e, talvez, com fascínio. Uma viagem espiritual, mítica e confusa, mas também uma reflexão sobre a culpa, a memória e o destino. Murakami convida-nos a aceitar o mistério, a caminhar na névoa e a encontrar sentido no absurdo.

Esta foi uma leitura partilhada e intensa com o grupo #KafkaGirls, uma experiência literária cheia de descobertas e vozes que se cruzaram no espelho da interpretação. Agradeço à Sara por me ter levado a mergulhar neste mar simbólico, um mar onde, por mais que tentemos compreender, acabamos sempre à deriva, entre o sonho e o despertar.

E assim é a vida. 

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

História de Uma Gaiovota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Luís Sepúlveda


História de Uma Gaivota e do Gato Que a Ensinou a Voar, de Luis Sepúlveda, regressa numa belíssima adaptação em banda desenhada ilustrada por Cever e publicada pela Porto Editora.

Este clássico intemporal, que já tocou gerações de leitores, ganha agora uma nova dimensão visual, onde as cores e os traços amplificam a ternura, a poesia e o encanto da história original.

Zorbas, o gato grande e generoso, promete a uma gaivota moribunda que cuidará do seu último ovo e ensinará a cria a voar. O que se segue é uma comovente lição de amizade, solidariedade e respeito pela diferença — uma fábula sobre a coragem de cumprir promessas e sobre o poder de acreditar.

As ilustrações de Cever acrescentam emoção e movimento à narrativa, tornando esta edição um verdadeiro tesouro gráfico e literário.

Adorei esta adaptação! Já tinha lido  o original há alguns anos, mas esta nova versão em banda desenhada fez-me reviver toda a magia e a doçura da história de Sepúlveda. É impossível não se deixar tocar pela beleza desta amizade improvável entre um gato e uma gaivota.

Recomendo vivamente! Uma leitura breve, poética e universal, perfeita para todas as idades.