terça-feira, 30 de julho de 2019

Os Monstros Também Amam, de Clara Sánchez |Opinião

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A minha opinião: Clara Sánchez foi professora de literatura, colaboradora do jornal El País e publicou o seu primeiro livro em 1989. Em 2000 recebeu o Prémio Nadal, o prémio mais antigo de Espanha, pelo romance “Lo que esconde tu nombre”, ou, na versão portuguesa, “Os Monstros Também Amam”.  


Este livro é um claro exemplo de que nada o que parece é - uma alusão à vida, à morte e aos nossos medos mais secretos, aqueles que se encontram aprisionados (ou não) nas nossas mentes. Esse facto leva-me a deduzir que o arame farpado, que surge na capa, não estará ali por mero acaso. Toda a realidade é apenas o que nós procuramos ver e por detrás dela escondem-se até os mais ignóbeis criminosos (os quais já deixaram de existir na face da terra, espero).  


"A solidão também é liberdade"


"Na minha balança, o ódio pesava muito, mas, graças a Deus, o amor também pesava; embora, lamentavelmente, e tenho de o confessar, o ódio tivesse roubado muito espaço ao amor".


"A inocência era um milagre mais frágil do que a neve"


No que diz respeito à história, os dois personagens principais, que vão, alternadamente, narrando os acontecimentos, são totalmente opostos. Temos Júlian, octogenário e doente, que viaja de Buenos Aires para El Tosalet, em Alicante, após receber uma carta do seu amigo, Salva, na qual relata que aí se encontra um casal de noruegueses nazis. Ambos estiveram no campo de concentração Mauthausen e dedicaram-se à caça de oficiais nazis, no pós guerra. Sandra, jovem e grávida, deixou o namorado, Santi, para ficar sozinha na casa da irmã a pensar na sua vida e, após se sentir mal na praia, ela é socorrida pelo tal casal de noruegueses de que Júlian anda à procura. A certa altura conhecem-se e esta dupla irá investigar esse casal, o Fred e a Karin, surgindo ainda mais figuras ligadas a esse passado e às atrocidades, eles que “vivem, e bem que vivem”. A certa altura também é explorada a possibilidade de existir um elixir da juventude, um segredo que os nazis sempre procuraram e que Alice esconde.


Em poucas palavras é o que se nos oferece revelar sobre o enredo. A destacar a relação de amizade entre Júlian e Sandra como uma amizade improvável entre quem teve a experiência de passar pelos campos de concentração e quer justiça e quem parece ingénua e algo superficial, especialmente quando pensa no dinheiro e na possibilidade de vir a herdar os bens do casal que a acolhe, sem descortinar as segundas intenções daqueles. Na realidade sabemos que muitos dos criminosos nazis se esconderam e viveram até à velhice sem que tenham sido punidos pelos seus atos atrozes contra seres humanos. E estou-me a lembrar, por exemplo, do Anjo da Morte, o nazista e médico Joseph Mengele, que fez experiências médicas hediondas e que, segundo consta, após a guerra, viveu na Argentina, no Paraguai e no Brasil.


Houve alturas que não consegui parar de ler e, talvez por procurar que ninguém saisse impune, a única coisa que me desapontou foi mesmo o final. É que tenho um sentido de justiça muito apurado, entendem, embora saiba de antemão que esse sentimento não se coaduna com a prática corrente.


Em suma, quem procura um thriller não se irá rever nesta história, não é disso que se trata, mas o leitor mais atento descobrirá que vale a pena ler (e pensar) sobre a forma como viveram os nazis no pós-guerra. Fala-se muito do holocausto. Pouco no que se passou a seguir. E esta história revela um pouco dessa realidade. Mas mais importante ainda é a história de uma amizade improvável forjada por ironia do destino; muito bem escrita e diferente do habitual. Eu adorei e recomendo.


 


Classificação: 4,5 /5*


 


 


livro oferecido pela matéria prima edições para opinião

quinta-feira, 25 de julho de 2019

O Yin-Yang literário

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Schopenhauer, filósofo alemão do século XIX, disse que é “importante, em relação ao nosso hábito de leitura, a arte de não ler. (...) Para ler o que é bom uma condição é não ler o que é ruim, pois a vida é curta e o tempo e energia são limitados". 


Uma frase vinda de um filósofo dá sempre que pensar, especialmente quando se refere à leitura, mas não vou tecer aqui grandes considerações acerca dela. Tudo o que escrevo são apenas palavras que fluem naturalmente e de acordo com a minha experiência, e lá por um filósofo ter pensado num assunto não quer dizer que o vá reproduzir ou que pense exatamente o mesmo. Apenas começo por salientar o aspeto do tempo. Quando fecho um livro, porque este é pior do que estava à espera, permanece realmente uma sensação de tempo perdido. Tempo que poderia ter sido gasto melhor ou a ler outro livro. Geralmente acontece quando não tenho disposição nenhuma para bagatelas e clichés.


Acho que as minhas escolhas são como a lua, têm fases, e, ultimamente, dou por mim a refletir mais sobre elas. O que me levou a comprar? O que deveria ter lido acerca daquele livro? Porque é que tive interesse nele? Porque é que o livro não é para mim? Mas, enquanto leitora, sou demasiado curiosa, quero ler tudo e conhecer vários autores. E depois há uma variedade livros com capas apelativas, com propaganda feita especialmente para me fazer pensar que preciso, quando na verdade não é bem assim.


O que move, verdadeiramente, as minhas escolhas, são as tais fases, algumas de humor, outras sazonais. Há livros que gosto de ler no verão, na praia. E há livros que gosto de ler no inverno, com uma mantinha e uma chávena de chá ou café. Já quanto aos livros que são penosos, em que cada página é uma tortura e em que queremos que chegue rapidamente ao fim, o que faço? Porque é que não desisto de ler livros "maus"?!  Pessoalmente, se o livro não me prende passo ao seguinte e volto a pegar nele mais tarde. Nunca desisto à primeira. Talvez à segunda. Talvez o livro se torne extraordinário quando já vai a meio. Talvez esteja perante um livro com uma mensagem sobre a qual vale a pena refletir. Talvez o autor tenha investido muito trabalho e mereça uma oportunidade. Talvez a minha curiosidade seja demasiado forte e precise de aprender a controlá-la. 


A dificuldade que encontro na escolha dos livros é quase como a dificuldade de não me ver a mim própria - nem no espelho vislumbro a resposta às minhas dúvidas. 


Em prol das melhores leituras, deveria de existir uma meditação guiada, só para podermos encontrar os melhores livros do mundo. No entanto, a realidade tem sido madastra e, enquanto estou em formação, na qualidade de leitora, a minha transformação continua distante do ideal Yin-Jang literário. 


 


Mais pensamentos literários para ler aqui:


Livros a mais não existe


Qual o teu género literário


Livros que intimidam


A minha dieta literária


Livros e dieta, mas que ideia


 


 


 


 

terça-feira, 23 de julho de 2019

Pais e Filhos, de Ivan Turguéniev | Opinião

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Opinião: Desde o Crime e Castigo, de Doestoievski, que fiquei com vontade de conhecer autores russos e de descobrir um pouco mais sobre cada um. Antes de avançar para um autor preferido, espero conseguir ter uma ideia sobre a forma como cada um escreve e como abordam alguns temas que prometem dar que pensar.


E foi isso mesmo o que aconteceu com Pais e Filhos, um romance sobre o conflito de gerações. De um lado, temos o Arkádi e o seu amigo Bazárov, jovem estudante de medicina, que nega tudo, acreditando apenas na ciência; do outro lado, os pais, conservadores e tradicionais, como, por exemplo, Nikolai Pietróvitch, pai de Arkádi, que vive da exploração agrícola e do trabalho dos camponeses (mujiques), usando métodos pouco eficazes e já ultrapassados.


Portanto, o conflito instala-se assim que Bazárov entra em cena, já que as suas opiniãos e personalidade chocam a família tradicional Pietróvitch, especialmente Pavel, irmão de Nikolai, que o detesta. Mas, nestes dois pontos antipoidais da história, o personagem Arkádi, sob a influência de Bazarov, possui, a meu ver, opiniões mais moderadas. 


Neste livro, existem ainda outros personagens, porém, destaco o que mais me impressionou:  Bazárov e  seu pensamento niilista, uma doutrina filosófica que atinge a literatura, a arte, a ética e a moral. Ele é o tipo personagem que choca: é frio, calculista, detesta a vida do campo e os camponeses, e não demonstra sentimentos por ninguém (exceto, talvez, por Anna), nem respeita os próprios pais.


Devo confessar que, a determinado ponto da história, o niilismo vincado de Bazárov recordou-me Camus e o seu existencialismo. Perante tais interpretações da realidade, nada faz sentido, nem a vida nem a morte, e tudo é permitido (Isto sou eu a divagar, portanto, vale o que vale).


Pais e Filhos é de rápida leitura e com um final que surpreende (a mim supreendeu, sem dúvida), o que veio confirmar a ideia de que os autores russos possuem uma habilidade invejável ao nível da escrita, bem como na forma como contam as suas histórias,continuando, assim, a desafiar, ainda hoje, os leitores. 


Classificação: 4/5*

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Clube de leitura em modo de listas literárias

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Quantos livros podemos ler durante a vida inteira? Muito poucos. Se fizermos uma média de um livro por semana, durante 70 anos, dá uma média de 3.640 livros numa vida. Se calhar quase ninguém consegue ler tanto. E se da próxima vez ficarem chocados ao saber que alguém não leu um determinado livro, lembrem-se disto: a maioria dos livros no mundo nunca será lido, incluindo alguns dos melhores livros de sempre. É por isso que é importante ler sempre o que gostamos. 


 


No clube de leitura Livros & Ca, que se reuniu, no dia 13 de julho, na Biblioteca Municipal de Leiria, esta breve introdução serviu de mote ao tema das listas literárias. Assim, além das nossas leituras (na fotografia), o tema das listas literárias deu azo a uma reflexão importante e que é do agrado a qualquer bibliófilo.


 


Se seguirmos as indicações, por exemplo, da lista 1001 livros para ler antes de morrer e, tendo em conta o número de livros que podemos vir a ler durante a toda uma vida, os 1001 livros parecem-nos um número mais razoável e até exequível. 


 


Ora, as listas servem como mera indicação de livros eleitos por alguém e que merecem (ou não) ser lidos. Contudo, não podemos desanimar se não conseguirmos ler tudo, porque, como vimos, isso é completamente impossível. Acresce que cada vez mais se publicam mais e mais livros. Só em Portugal, se não estou em erro, são publicadas cerca de 15.000 novas edições por ano. Conseguem imaginar?! São muuuuiiiitos!!!


 


A propósito de ler muito, vocês perguntam: mas qual é a relação com a temática das listas literárias???


Tendo em conta que a lista dos 1001 livros para ler antes de morrer é extensíssima, proponho-vos que procurem a resposta através de uma outra lista. A BBC já fez a experiência há uns anos atrás, mas não deixa de ser interessante verificar quantos livros já leram, o que, segundo a BBC, difilmente, somará mais de 6 livros.


 


Para descobrirem a resposta, à vossa pergunta, basta sublinharem e contabilizarem os livros que já leram. No nosso clube de leitura chegamos à conclusão de que lemos muito mais do que 6 livros, o que é a  prova de que a BBC está redondamente enganada [ou então os ingleses andam a ler muito pouco:)].


 


E vocês, quantos livros já leram desta lista? 


1 — Orgulho e Preconceito (1813), Jane Austen


2 — O Senhor dos Anéis (1954), J. R. R. Tolkien


3 — Jane Eyre (1847), Charlotte Brontë


4 — Harry Potter e a Pedra Filosofal (1997), J. K. Rowling


5 — Mataram a Cotovia (1960), Harper Lee


6 — Bíblia Sagrada


7 — O Monte dos Ventos Uivantes (1847), Emily Brontë


8 — 1984 (1949), George Orwell


9 — Trilogia Mundos Paralelos, Philip Pullman (1995-2000)


10 — Grandes Esperanças (1861), Charles Dickens


11 — Mulherzinhas (1869), Louisa May Alcott


12 — Tess dos D’Urbervilles (1892), Thomas Hardy


13 — Catch-22 (1961), Joseph Heller


14 — A Peste (1947), Albert Camus


15 — Rebecca (1938), Daphne du Maurier


16 — O Hobbit (1937), J. R. R. Tolkien


17 — O Canto do Pássaro (1993), Sebastian Faulks


18 — À espera no Centeio (1951), J. D. Salinger


19 — A Mulher do Viajante no Tempo (2003), Audrey Niffenegger


20 — Middlemarch: Um Estudo da Vida na Província (1871), George Eliot


21 — E Tudo o Vento Levou (1936), Margaret Mitchell


22 — O Grande Gatsby (1925), F. Scott Fitzgerald


23 — A Casa Soturna (1853), Charles Dickens


24 — Guerra e Paz (1867), Lev Tolstói


25 — À Boleia Pela Galáxia (1979), Douglas Adams


26 — Reviver o Passado em Brideshead (1945), Evelyn Waugh


27 — Crime e Castigo (1866), Fiódor Dostoiévski


28 — As Vinhas da Ira (1939), John Steinbeck


29 — Alice no País das Maravilhas (1865), Lewis Carroll


30 — O Vento nos Salgueiros (1908), Kenneth Grahame


31 — Anna Karénina (1877), Lev Tolstói


32 — David Copperfield (1850), Charles Dickens


33 — A Oeste Nada de Novo (1929), Erich Maria Remarque


34 — Emma (1815), Jane Austen


35 — Persuasão (1817), Jane Austen


36 — O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (1950), C. S Lewis


37 — O Menino de Cabul (2003), Khaled Hosseini


38 — O Bandolim do Capitão Corelli (1994), Louis de Bernières


39 — Memórias de uma Gueixa (1997), Arthur Golden


40 — Ursinho Pooh (1921), Alan Alexander Milne


41 — A quinta dos animais (1945), George Orwell


42 — O Código Da Vinci (2006), Dan Brown


43 — Cem Anos de Solidão (1967), Gabriel García Márquez


44 — Folhas de Erva (1855), Walt Whitman


45 — A Mulher de Branco (1860), Wilkie Collins


46 — Anne de Green Gables (1908), Lucy Maud Montgomery


47 — Longe da Multidão (1874), Thomas Hardy


48 — A história de Uma Serva (1985), Margaret Atwood


49 — O Deus das Moscas (1954), William Golding


50 — Expiação (2001), Ian McEwan


51 — A Vida de Pi (2001), Yann Martel


52 — Duna (1965), Frank Herbert


53 — Cold Comfort Farm (1932), Stella Gibbons


54 — Sensibilidade e Bom senso (1811), Jane Austen


55 — Um Bom Partido (1993), Vikram Seth


56 — A Sombra do Vento (2001), Carlos Ruiz Zafón


57 — Um Conto de Duas Cidades (1859), Charles Dickens


58 — Admirável Mundo Novo (1932), Aldous Huxley


59 — O Estranho Caso do Cão Morto (2003), Mark Haddon


60 — O Amor nos Tempos do Cólera (1985), Gabriel García Márquez


61 — Ratos e Homens (1937), John Steinbeck


62 — Lolita (1955), Vladimir Nabokov


63 — A História Secreta (1992), Donna Tartt


64 — Rumo ao Farol (1927) Virginia Woolf


65 — O Conde de Monte Cristo (1845), Alexandre Dumas


66 — Pela Estrada Fora (1957), Jack Kerouac


67 — Jude the Obscure (1895), Thomas Hardy


68 — O Diário de Bridget Jones (1996), Helen Fielding


69 — Os Filhos da Meia-Noite (1981), Salman Rushdie


70 — Moby Dick (1851), Herman Melville


71 — Oliver Twist (1838), Charles Dickens


72 — Drácula (1897), Bram Stoker


73 — O Jardim Secreto (1911), Frances Hodgson Burnett


74 — Crónicas de Uma Pequena Ilha (1995), Bill Bryson


75 — Ulisses (1922), James Joyce


76 — A Campânula de Vidro (1963), Sylvia Plath


77 — Pergunte ao Pó (1939), John Fante


78 — Germinal (1885), Émile Zola


79 — A Feira das Vaidades (1847), William Makepeace Thackeray


80 — Possessão (1992), Antonia Susan Byatt


81 — Um Conto de Natal (1843), Charles Dickens


82 — Atlas das Nuvens (2004), David Mitchell


83 — A Cor Púrpura (1982), Alice Walker


84 — Os Vestígios do Dia (1989), Kazuo Ishiguro


85 — Madame Bovary (1856), Gustave Flaubert


86 — Memórias de Adriano (1951), Marguerite Yourcenar


87 — A Teia de Charlotte (1952), Elwyn Brooks White


88 — As Cinco Pessoas que Encontramos no Céu (2003), Mitch Albom


89 — As Aventuras de Sherlock Holmes (1892), Arthur Conan Doyle


90 — A Casa na Árvore (1939-1951), Enid Blyton


91 — Coração das Trevas (1899) Joseph Conrad


92 — O Pequeno Príncipe (1943), Antoine de Saint-Exupéry


93 — Fábrica das Vespas (1984), Iain M. Banks


94 — Era uma vez em Watership Down (1972), Richard Adams


95 — Uma Conspiração de Estúpidos (1980), John Kennedy Toole


96 — A Náusea (1938), Jean-Paul Sartre


97 — Os Três Mosqueteiros (1844), Alexandre Dumas


98 — Hamlet (1609), William Shakespeare


99 — A Fantástica Fábrica de Chocolate (1964), Roald Dahl


100 — Os Miseráveis (1962), Victor Hugo 


 


 

segunda-feira, 15 de julho de 2019

1793, de Niklas Natt Och Dag | Opinião


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Opinião: Este livro suscitou-me de imediato a atenção, porque a capa se destaca em termos de design gráfico (como podem ver na fotografia) e porque tenho lido alguns autores suecos que me brindaram com histórias de pôr os nervos em franja - o que adoro, devo confessar.


Nicklas Natt Och Dag, neste livro de estreia, recebeu um prémio da Academia Sueca de Escritores de Crime e recebeu vários elogios por esse feito. Num deles, o de Erik Axl Sund, é referido que se trata de «Um thriller histórico sem paralelo e de grande qualidade literária. É cru, elegante, comovente e extremamente cativante até à última página». Existem outros, mas acho que este comentário resume muito bem todas as qualidades do livro 1793.


Quando iniciei a leitura, estranhei logo o facto de a polícia parecer actual, com relatórios e comissários, o que me deixou um pouco de pé atrás no que ao rigor histórico diz respeito. Não obstante essa “ligeireza” histórica, acabei por gostar da narrativa  sem quaisquer subterfúgios.


Mas vamos à história. Em Estocolmo, no Outono de 1793, um cadáver flutua no lago Fatburen. Dois pequenos vagabundos dão o alerta. E o guarda Mickel Cardell, sem o braço esquerdo, despe o casaco com dificuldade e nada em direção ao que julga ser uma carcaça de um animal. Mas então vê o corpo desfigurado, com a duas órbitas oculares vazias e, na boca, não vê um único dente. Entra depois em cena Cecil Winge, advogado, que trabalha com a polícia, que irá trabalhar no caso com o guarda Cardell e os dois irão procurar o assassino, começando por tentar descobrir qual a identidade do homem desfigurado e desmembrado. Para Winge é urgente encontrar esse assassino cruel, uma vez que está doente e sabe que não viverá muito mais tempo.



«Winge combate a morte com a mesma bússola que o guiou toda a vida – a razão. Esta diz-lhe que todos temos de morrer e que todos estamos a morrer. Ajuda. Mas, quando os suores nocturnos chegam e a mente vagueia livremente, é a sua morte em particular que o atormenta, não a ideia de morte em geral. Contempla todos os pormenores. A infecção irá espalhar-se pelas articulações e pelo esqueleto, como o que acontece a muitos dos que sofrem desta doença? Irá morrer no sono ou em agonia e paroxismo? Que tormentos sofrerá? Quando mais nada ajuda, tenta convencer-se de que a maior parte de si morreu da última vez que viu a mulher. Mas é um fraco consolo quando a parte de si que ainda vive é aquela que consegue sentir dor».


 



Winge, que é justo, racional e inteligente, bebe para esquecer. Achei impressionante a forma como os personagens masculinos tentam resolver os problemas recorrendo à bebida, mas, no século XVIII, era um hábito muito comum.  Penso que seria uma forma de sobreviverem à realidade, à miséria e às injustiças e agruras da vida. Curiosamente, Kristofer Blix é um cobarde que, surpresa, também bebe, e nós vamos ficar a conhecer a sua história através de cartas que ele escreve à sua irmã, já falecida. Uma narrativa diferente da anterior, mas que resultou muito bem, uma vez que aí é relatada toda a vida deste personagem.


Depois de ter ultrapassado a reacção de estranheza inicial, comecei a questionar, ainda, o facto de este livro não ter a presença de uma personagem feminina forte e corajosa. De facto, até à terceira parte (o livro tem quatro partes), apenas é feita uma breve menção à mulher do Winge e à prostituta Johanna, sendo que, quando surge a Anna Stina, quase a meio de livro, esta personagem feminina introduz um novo folgo ao enredo. Ela é surpreendente e muito diferente dos outros personagens, o que torna tudo mais interessante.


No livro, 1973, existem muito personagens, os quais vão surgindo e desaparecendo de seguida. Mickel Cardell, Cecil Winge, Kristofer Blix e Anna Stina, são os que se destacam e, embora, no decurso da história, tenha gostado mais de uns do que outros, todos tiveram um final que foi do meu agrado.


O escritor conseguiu dar uma nova voz à ficção histórica. A narrativa é dura, crua e sem qualquer tipo de enfeites linguísticos. As personagens são interessantes e bem desenvolvidas. E a história é intensa, invulgar e muito bem escrita. Gostei muito. Vale a pena ler.


Classificação: 5/5*