sexta-feira, 31 de julho de 2020

Voar no quarto escuro, de Márcia Balsas

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«Sou eu a minha prisão, agora. Até acordar cercada por grades, algures.»
Eduarda apenas sonhara em refazer a sua vida após a morte do marido, que a deixou sozinha no mundo com uma filha adolescente. Não desconfiou que essa nova casa, com um novo companheiro, a conduziria a uma vida de violência, destinada ao esquecimento. Anos de submissão encaminham-na para uma noite de tempestade.
Este é o momento em que as paisagens tão dissonantes da vida de seis mulheres se entrelaçam de uma forma inegável, numa demanda pelo significado da vida. Mães, filhas, amigas, amantes, casas devastadas pela dúvida e pela loucura - todas obrigadas a enfrentar o medo de voar no quarto escuro.










OPINIÃO:

No dia 5 de outubro de 2019, no 2.º Encontro de Booktubers, realizado na Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira em Leiria, tive a oportunidade de ver e ouvir a Márcia Balsas quando assisti à apresentação do livro "Voar sobre o quarto escuro". Recordo-me de ela contar como surgiu a ideia para escrever uma história com personagens ficcionadas, as quais existiam apenas na sua cabeça, cujas vivências e dilemas poderiam ser reais.

Durante o mês de junho, com o projeto "On the Road" da  Ana Paula Catarino, da Cristina Luis e da Silvéria Miranda, o livro chegou cá a casa e tive a possibilidade de confirmar aquelas palavras da Márcia e, claro, de conhecer melhor a escrita dela. Gostei especialmente de algumas passagens:


"Chove. Caminha com cautela por causa do chão escorregadio. Tem medo de cair, mas não pode ficar mais magoada. A ironia é quase cómica, não fosse as dores provocadas pelo riso".


"Seca uma lágrima saudosa do falecido, «era de boas contas, não falhava», e fica a matutar nas injustiças da vida enquanto tira os copos da máquina, já secos, prontos para mais uma rodada".


"«Nunca» é outra palavra curiosa, usada tantas vezes de modo leviano, sem percepção do seu sentido limite. Talvez por não haver sentido no fim, porque quando se chega lá, ao fim, não se tem essa consciência. Depois do fim, nada".




Neste livro, existem oito personagens femininas e cada uma vivencia uma situação de: violência doméstica, desespero, solidão, sexualidade, depressão e até suicídio. São tudo temas atuais , pertinentes mas muito difíceis de abordar. Assim, pese embora tenha gostado da escrita e da forma como as personagens vão surgindo, achei que a leitura de tantos problemas ao mesmo tempo me transmitiu um peso, um fardo e uma falta de esperança. Para explicar melhor, talvez consiga fazê-lo utilizando uma linguagem metafórica, uma vez que durante a leitura senti como se ouvisse um fado com letra muito bonita e com uma música muito triste. Não obstante, as minhas impressões foram boas ao nível da escrita e gostei muito de ter ficado a conhecer o primeiro romance da Márcia.




quarta-feira, 8 de julho de 2020

A cidade das mulheres, de Elizabeth Gilbert

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SINOPSE: aqui.

OPINIÃO: Depois de ter lido o livro "A Marca de Todas as Coisas" fiquei com boa impressão da escrita desta autora e convencida de que ela sabe retratar bem personagens femininas. Com base nesta experiência de leitura assumo que as minhas expetativas relativamente "A cidade das mulheres" eram elevadas, no entanto Gilbert veio provar a minha opinião inicial.

A história inicia-se em abril de 2010, quando Vivian recebe uma carta de Ângela (que só se descobrirá quem é mais para o final), na qual esta pede a Vivian que conte o que foi para o pai dela. E Vivian, assumindo a qualidade de narradora, conta a sua vida a Ângela (ou ao leitor) recuando até o verão de 1940, altura em que tinha apenas 19 anos.

Vivian, a estudar na Faculdade de Vassar, é mandada de volta para casa dos pais, uma vez que ela não obteve aproveitamento nos exames. Apesar do prestígio da faculdade, Vivian não manifestou qualquer interesse em frequentar as aulas, preferindo costurar vestidos a estudar. Os pais, por vergonha ou por não saberem lidar com a filha, resolvem "despacha-la" no comboio para ir morar em Manhattam com a tia Peg (dona do teatro Lily Playhouse). De jovem inexperiente, rica e sem rumo, a vida de Vivian muda radicalmente quando trava conhecimento com várias personagens que a fascinam. É assim que na companhia de Celia Ray, corista no teatro da tia, embarca na aventura ("La vida Louca") madrugada fora, aproveitando ao máximo a vida e o divertimento noturno, em modo desbragado. Porém, essa alegria e vivacidade é ameaçada por problemas relacionados com ampla liberdade da jovem, embora esta continue a desempenhar, competentemente, a tarefa de figurinista do teatro da tia Peg, gerido com mão de ferro por Olive, caraterizada como implicativa mas de grande coração conforme se verificará ao longo da história.

O título "A cidade das mulheres" é o nome da peça de teatro que o tio de Vivian, Billy, escreve para a grande atriz Edna Parker Watson. O título alude a isso e a mais, porque conhecemos e acompanhamos várias personagens femininas interessantes que residem todas no Lily Playhouse.

A meio do livro, o ritmo da história diminuiu um pouco, porém, quando julguei que não ia acontecer nada de novo, Gilbert conseguiu dar um novo folgo e apanhar-me desprevenida e bem desperta para o que se segue. 

"A cidade das mulheres" é uma história absorvente sobre liberdade, paixão, romance, descoberta, erros e crescimento pessoal, em que o fascínio reside na narrativa simples e direta alicerçada na construção de personagens quase reais. Gostei muito e aconselho vivamente.

 

 

Classificação: 4, 5/5*

 

quarta-feira, 17 de junho de 2020

O dia em que perdemos o amor, de Javier Castillo

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SINOPSE: aqui.

 


OPINIÃO: Este livro é o segundo livro do autor. Eu nunca tinha lido nada dele anterirmente mas, tratando-se de um policial/thriller, parti para a sua leitura com um certo espírito detetivesco. Embora sabendo que este livro é a continuação do primeiro, “O dia em que perdemos a cabeça”, e que possui alguns elos de ligação com este, creio que o livro pode ser lido em separado sem que isso afete o interesse em acompanhar uma investigação criminal como esta (confesso que gosto particularmente de policiais).


Em 14 de dezembro de 2014, uma jovem mulher aparece, numa rua de Nova Iorque, uma jovem nua e suja. A polícia leva a jovem  para o escritório do FBI e esta traz consigo umas notas amareladas com nomes. O inspetor Bowring e o seu assistente irão investigar o caso e logo surge uma ligação a uma mulher que surge decapitada num campo.


Esta mulher é estranha e chama logo à atenção quando profere frases enigmáticas como: "Odeio vestidos de flores,, inspetor Bowring especialmente em Dezembro, por causa do frio do Inverno" e"As coincidências não são mais do que o destino disfarçado de inocência".


Apesar de me sentir um pouco perdida no início, dado os saltos temporais, mudança entre personagens e de histórias, continuei agarrada ao livro à espera de descobrir em que fase a história se iria interligar - o que acabou por vir a acontecer. O que gostei mais e realmente me prendeu atenção foi o mistério nebuloso e um certo misticismo por detrás da personagem Carla.


Apesar de a história ter sido, para mim, previsível, no final o autor conseguiu surpreender-me. Outro aspeto positivo é a sua escrita leve, o que contribui para uma leitura rápida em que não damos conta do tempo passar.


Gostei muito e espero ler mais deste autor.


 


CLASSIFICAÇÃO: 4/5*


oferta da editora para opinião 


quarta-feira, 11 de março de 2020

A reclusa, de Debra Jo Immergut

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Sinopse: aqui.


Frank Lundquist é psiquiatra na prisão de Milford Basin, Nova York, e desenvolve uma obsessão pela Reclusa Miranda Greene, uma vez que é apaixonado por ela desde os tempos do liceu. Como esta parece não o reconhecer, ele decide continuar a acompanhá-la como paciente, indo contra os princípios que regem a sua profissão. Depois temos Miranda Greene, a cumprir uma pena de 52 anos de prisão, que planeia morrer e recorre a Frank alegando uma depressão. Estes dois personagens vivem "assombrados" por um mistério no passado e têm problemas psicológicos que não conseguem ultrapassar.


Eu achei que a premissa da história é interessante, no entanto, os capítulos alternados do ponto de vista de Frank e Miranda, tornam o desenvolvimento da história muito lento. Também me pareceu igualmente lenta, com recuos e avanços, a descoberta de acontecimentos do passado em relação aos dois personagens. Além disso, a história entre Frank e Miranda deixou-me um pouco confusa e à espera de uma reviravolta qualquer. 


Para ser honesta não sei se foi do livro ou se este livro não é para mim, mas, como gosto de personagens intrincados, esperei sentir empatia por algum dos personagens, o que acabou por não acontecer. 


No entanto, como não podia deixar de ser, esta história fez-me pensar. E a este propósito lembrei-me da frase de Mahatma Gandhi, a qual refere que “Uma prisão não são grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência”. Assim, refletindo um pouco sobre o sentido desta frase e sobre a história d´A Reclusa, considero que a própria mente dos personagens acabou por constituir a sua própria prisão, embora o livro nos traga outra prisão com a descrição do ambiente prisional numa prisão de mulheres e os problemas que surgem entre Miranda e as outras reclusas.


Classificação: 3,5/5*


Oferta da editora

sexta-feira, 6 de março de 2020

Mania de quem sabe escrever

Quem se identifica com a escrita dita a roçar a perfeição dirá que mudar uma vírgula e alterar uma palavra por um sinónimo é uma maneira de escrever melhor. No entanto, em contexto de trabalho, diria que nada é mais pernicioso do que esperar que tudo saia bem à primeira ou arrogar-se o supra-sumo nessa matéria.

Na escola primária, aprendemos que mudar uma vírgula de sítio poderá matar a verdade e a voz das próprias palavras quando retira o sentido e são expurgadas do devido contexto. E desde cedo aprendemos que escrever tem regras  (como as daqui), no entanto, talvez o aprume dos dedos colocados corretamente, por quem sabe, no teclado [que não o nosso], adquira toda uma nova forma e conteúdo, superior e elegante e, erróneamente, pensamos que há coisas que só acontecem aos outros. Mas quando não existe uma carta de instruções de quem tem a mania, ou uma qualquer bula que nos oriente a hora da toma [vai buscar], engolimos as vírgulas com vontade de lhes gritar vários sinónimos de impropérios néscios.

Creio que o alto patamar de intransigência, por parte de quem tem a mania, não provem da superioridade inteletual que se dirime com táticas dirigidas aos seus supostos serviçais, antes os coloca entre quem não soube assumir uma liderança estimulante. 

E, então, uma vírgula, um sinónimo, podem ou não fazer alguma diferença? Poder, podem, mas não devem. Poder não é dever assim como para se ser soberano na matéria não basta parecer mas, sobretudo, há que saber sê-lo. Diante um tal espezinhamento, a assertividade dos argumentos apenas iriam ter o condão de enfadar e acintar quem tem uma tal mania - palavra que, curiosamente, se transverte por "apego excessivo ou obsessivo a uma ideia ou intenção". E entender isto como escrever melhor do que outro não é mais do que uma obsessão - palavra que, curiosamente, siginifica "perseguição diabólica".  Por essas e por outras, prefiro manter uma espécie de si-lên-cio perante tanta imperfeição, usando como argumento alguém que percebe da escrita quando sente e que sente o que escreve.


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