segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O que dizem os teus livros (5)











A  Sara doblogue Desabafos Agridoces  é uma rapariga doce e simpática, mas ...(há sempre um mas!) a sua citação preferida,"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine", revela um lado menos"soft" e rebelde. Talvez por essa razão, embora de uma maneira simpática -e em nada cítrica-, ela aceitou participar no desafio, e acabou por revelar.... Querem saber? Então leiam:


Desde que idade tens uma paixão por livros? 

S: Desde que me lembro. Quando era bebé costumava ficar sentada a folhear revistas e os livrosde culinária da minha mãe durante tempos infinitos, sem nunca me cansar. Sempre quis livros mais do que qualquer outro brinquedo.  Foi algo que sempre causou alguma estranheza visto ninguém em casa ter particular interesse em leituras. A sensação que causou o momento em que despejei em cima da mesa as compras que trouxe da minha primeira Feira do livro...Basicamente não me lembro de nenhuma altura da vida em que os livros não estivessem presentes.

 

Qual o tipo de livro que costumas ler?

S: Leio de tudo um pouco – excepto coisas lamechas, séries, a maior parte dos bestsellers, autoajuda...

 

O que gostas mais durante  a leitura? 

S: Talvez quando noto que aquilo que estou a ler faz sentido para os dias de hoje, especialmente se estiver a ler um livro de idade provecta – se bem que preferia que isto não acontecesse quando leio distópias. É curioso ver como as pessoas quase não mudaram com o passar dos séculos. Também depende do tipo de livro e do autor.Sempre há aquelas características que gostamos de encontrar nos livros de autores queridos e que nos deixam felizes.

 

Quais os fatores que influenciam a escolha de um livro? 

S: Livros mais baratos tendem a ter prioridade porque o orçamento é apertado e os livros novos são caros demais (bancas com livros a menos de 5 euros...Nunca morram), autores que conheço e gosto ou que tenho na minha lista para conhecer também têm prioridade. Leio quase sempre a sinopse. 

 

Descreve sentimentos que só um leitor entende. 

S: “Preciso de uma estante nova”;

“Vou comprar estes três livros e não pensar que ainda a semana passada comprei outros três”;

“Tenho a certeza que o filme não vai ser tão como o livro”;

“Não, hoje não vai dar para sairmos...já tenho um encontrado marcado. Sim, é com um tipo…O nome dele é Darcy. Estou a tentar que a nossa relação passe do terceiro capítulo”;
 “Como assim muito tempo? Só estive duas horas nesta livraria e nem deu para ver nada com calma!”.

 

As histórias, porvezes, têm uma enorme carga emocional. Já alguma vez choraste ou riste? Se sim,quais foram os livros em que isso aconteceu? 

S: Coisas da Jane Austen ou do Eça fazem-me rir...Em relação a chorar: as três vezes que li a Rapariga que Roubava livros, uma parte ou outra do Memorial do Convento…

 

O que dizem os teus livros? 

S: Provavelmente que devia limpar-lhes o pó mais vezes…

 

 

***

Depois da entrevista,fiquei curiosa para saber a resposta ao desafio. Sara, gostaria que pensasses um pouco sobre a frase de Harper Lee"A única coisa que não respeita a regra da maioria é a consciência de cada um”. Concordas?
S:Sim, em teoria. É que para que a nossa consciência seja a única coisa a não respeitar essa regra primeiro temos de aprender a pensar por nós mesmos. Boa parte das pessoas não fazem isso: acreditam em tudoo que lêem nas redes ou no que políticos racistas lhes dizem (choremos juntos Atticus), ou seja, a sua consciência já está moldada para seguir outros. Alguns talvez nem se dão conta disso, afinal o que os tipos no poder querem é que sejamos todos uns carneiros. Talvez seja porque é o caminho mais fácil:não respeitar a regra da maioria tem sempre consequências. Se fores ao cinema com 4 amigos e foste a única que detestou o filme o teu cérebro vai arranjar maneira de adaptares a tua opinião às dos outros, talvez pensando que filme até não era assim tão mau…Andamos desesperados por aprovação. As consequências podem ir das mais simples como não seres a pessoa mais popular do escritório até ao aprisionamento e à morte. Se lemos num livro que 90% de uma populaçãoapoiava um político que hoje sabemos que foi muito mau, claro que íamos quererestar nos restantes 10%. Ter uma consciência individual é muito importante, mas não é um direito sempre garantido. Se esses 10% estiverem em fila contra uma parede e tu sabes que vai chegar a tua vez, o que vais fazer?

 




Muito obrigada, do fundo do .







 



domingo, 4 de dezembro de 2016

Línguas-de-gato | A Teoria de Tudo e de Nada # 13

Vocês já ouviram a expressão de que “Gatos quietos possuem mentes barulhentas”? Ah, não? Pois, são os humanos e não os gatos, dizem, mas eu acho que também se aplica. Eu, por mim falo, na minha língua miada e ronronada, sou um gato que passo o dia quietinho e estou sempre a pensar sobre isto, aquilo, a comida, o barulho, a luz, se devoatacar o peixe que está em cima da mesa, se devo investigar melhor a árvore de Natal, ou até se devo meter conversa com as pessoas da televisão; enfim, estou sempre, sempre com ideias, algumas boas, outras nem queiram saber. Mas informo (para quem queira ler isto) que qualquer miadela não transmite a minha sabedoria, o que é pena, pois seria importante estabelecer uma comunicação mais eficaz com os humanos.

Portanto,estou aqui a pensar, neste exato momento, porque raio a minha dona se lembrou de me tosquiar o pêlo em novembro?! Está frio e a chover e eu ando pela casa (por sinal quentinha) com o aspeto de um leão enjaulado! Não, não estou a ser exagerado. Sou um gato persa e o humano da bata deixou apenas o pêlo na cabeça e no rabo. Humpf, ainda, por cima sedaram-me para não o arranhar! Não estou para isto, e estou quietinho, porque penso, porque estou triste, eporque, porque, tenho frio…Tenham dó do miau, e se me entendem saberiam que estou a miar por isto! Ok, não vou miar mais! Vou experimentar enviar pensamentos..............................................................................................................................................................Nada???

Humpf, percebo bem o que sente Stephen Hawking, pois, tal como ele, estou preso ao meu corpo.Ah, é isso! Lembrei-me agora que a frase inicial é dele. E se eu pedisse o sintetizador de voz para experimentar? Well, not so fast?! Pois, ele está internado em Roma para a realização de exames e não é o momento próprio para lhe pedir o quer que seja. Portanto, o Hawking foi lá avisar que os asteróides pesados, existentes no espaço, são uma perigosa ameaça e, depois, obrigaram-no a fazer exames médicos! Éuma conclusão lógica, porém, não é uma hipótese verdadeira, porque sou eu que estou aqui a pensar, lembram-se?

Outra coisa que me despertou a atenção. Em 1949, George Orwell alertava (mais um alerta) para os perigos de um mundo onde os cidadãos estão sob vigilância constante, e, na semana passada, no Reino Unido, foi aprovada uma lei que põe em risco a privacidade dos cidadãos (só não é necessário fazê-lo de forma secreta).

Resumindo e baralhando, estes dois alertas passam mais ou menos despercebidos (exceto para este gato, claro) e fiquei com a impressão que os humanos só conhecem a Teoria de Nada. Estarei eu a exagerar, a alertar ou a miar?




 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Dois poemas de «Guião de Caronte»

 

 



Bato à porta de nada ensurdecido e bronco,
forrado a lama seca ou sarro destes anos
que mais que tudo me vestiram de tonto,´
dos que limpam os carros com a baba que lhes cai
sobre a cinza do fato; bato à porta do nada
sem dizer ui nem ai mas apenas grunhindo
de olho embaciado sem o cristal da lágrima,
bato à porta com braços, pernas, bocas e dentes,
mas sem saber no fundo, mas sem saber de caras
se deveras lhe bato quando lhe bato assim,
no nada dessa porta, ou ela bate em mim.


Pedro Tamen, em Foro das Letras, Janeiro de 1998

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O Amor nos Tempos de Cólera # 29


 

Autor: Gabriel García Márquez

Ano:1988

N.º de Páginas: 371

Editora: Dom Quixote

 

Sinopse: História de uma paixão infeliz, o presente romance descreve a epopeia sentimental de um amante repudiado que durante toda a sua longa existência, desde o furioso incêndio juvenil ao crepuscular fogo da velhice, manteve uma inquebrantável fidelidade à sua antiga noiva. Ao longo deste rio imaginário correm também as águas de muitos outros idílios,tranquilos ou enlouquecidos, selvagens ou apaziguados, senis ou adolescentes,prisioneiros da grilheta conjugal ou libertos pela comporta do instinto.

Decorrendo numa cidade portuária do Caribe entre finais do século passado e os primeiros decénios do nosso século. O Amor nos Tempos de Cólera utiliza todos os ingredientes clássicos do género folhetinesco, apresentando uma espécie de inventário passional, onde se consignam tantos as mais cruas imposições da carne como os meandros subtis do sentimento, e propondo por fim aos seus leitores uma obra de construção perfeita, em que do princípio ao fimse respira a atmosfera de magia que serve de alimento a todas as histórias de amor.

 

Opinião: Iniciei a releitura deste livro com muitas expectativas, uma vez que a primeira vez que o li foi em 1989 (e sim tenho a certeza, porque a data está escrita pela pessoa que mo ofereceu:).Depois de tanto tempo, é óbvio que não me recordava de nada (embora suspeito que deveria). Ainda recorri à sinopse, mas constatei que não contem um resumo e não sei se as edições atuais o fazem. De uma forma simplista, a história é sobre Fermina Daza, Florentino Ariza e Juvenal Urbino. Começamos por conhecer o casal, Fermina e Juvenal, já idosos, e, depois, iremos descobrir a paixão que Florentino nutre por Fermina, durante cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias.

É uma leitura agradável de se fazer, embora não haja uma sequência lógica e temporal dos factos, e, muitas das vezes, a trama, em torno dos personagens decorre em simultâneo ou em separado, para cada um. Ainda assim, o leitor consegue acompanhar a história, o que demonstra um absoluto domínio da forma narrativa.

Conseguimos imaginar, muito bem, o primeiro amor de Florentino, bem como as cartas, os bilhetinhos à Fermina, e as esperas que ele lhe faz, sentado no banco do Parque. Todo este amor platónico dura até à velhice, porque ele jurou ficar com ela, nem que tivesse de esperar que o marido morresse.

As partes menos positivas são: as longas narrativas; as inúmeras paixões carnais de Florentino; e o infeliz amor de América Vicuña.

 

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O que dizem os teus livros (4)





 



 



Hoje, vamos conhecer a bloguer, menos in do pedaço,  Maria das Palavras, que sonha viver das palavras, destruir mitos e escrever para os outros ou, na maioria das vezes, só para si. Ora, para quem não conhece, uma vezes surge a Maria-pragmática, outras a Maria-Sarcasmo ou a Maria-Alegria e, noutras, a Maria-Divertida. E vocês perguntam: são tantas Marias numa só? São, porque ela busca o divertimento nas palavras, ela brinca com elas, e faz "trocadilhos", e desconstrói ideias. Enfim, eu não tenho palavras.



Desde que idade tens uma paixão por livros? 

M:Desde que me lembro de mim. Não sei que idade tinha, mas aprendi a ler antes de ir para a escola. Não porque os meus pais me tenham tentado ensinar, mas liam muito para mim e um dia eu pedi-lhes para ser eu a ler. Acharam que tina decorado o livro para estar a dizer tudo certo. Depois testaram outros e chegaram à conclusão que eu sabia mesmo ler. Creio que foi a combinação dos meus pais lerem muito para mim com a magia da Rua Sésamo que fez isso acontecer.

 

Qual o tipo de livro que costumas ler?

M: Sou muito de fases, mas diria que o mais recorrente é o tipo de livro que mistura história real/factos com um pouco de ficção. Deve ter um nome e eu nem o sei.

 

O que gostas mais durante  a leitura? 

M: A concentração total. O resto do mundo que se escapa para entrarmos num novo. Ou seja, o facto de não permitir que façamos mil coisas ao mesmo tempo, como nos exige a vida em tantos outros momentos.

 

Quais os fatores que influenciam a escolha de um livro? 

M: Críticas de pessoas que já sei que têm gostos semelhantes aos meus, operam verdadeiros milagres nas minhas estantes. Quando estou na livraria, mesmo que seja a capa ou o título a chamar a atenção, é a sinopse que me faz decidir. Se me garantir um bom enredo ou tiver as palavras mágicas “baseado em factos reais” sou bem capaz de o trazer. É por isso que não posso entrar muitas vezes em livrarias...



Descreve sentimentos que só um leitor entende. 

M: As pessoas comparam muito ler a ver um filme ou uma série. O filme ou a série são mais rápidos, fazem mais trabalho por nós porque não precisamos imaginar: já está tudo lá. Parece uma vantagem. Muita gente se afasta dos livros por achar que é de facto uma vantagem: ver um filme relaxa mais. Mas não é verdade. Enquanto vemos algo na TV estamos a responder a mensagens, ou a comunicar com a pessoa que está ao lado, recebemos a imagem, o som, e desdobramo-nos a fazer outras coisas. Quando entramos num bom livro o resto do mundo cai na ravina. Somos nós e as letras na nossa mente. E não há nada que nos empreste mais paz do que isso.

 

As histórias, por vezes, têm uma enorme carga emocional. Já alguma vez choraste ou riste? Se sim, quais foram os livros em que isso aconteceu? 

M: Não sou a pessoa mais expansiva do mundo...já me terei emocionado mil vezes, interiormente com as páginas de um livro – sobretudo as finais. Mas se algum me fez chorar ou gargalhar de forma visível certamente tentei disfarçá-lo e não vou confessá-lo. Permitam-me a timidez.

 

O que dizem os teus livros? 

M: Dizem que não tenho medo de viajar. As minhas estantes estão repletas de destinos diferentes (não falo de guias turísticos, mas de tipos de estórias). E creio que uma coisa tem muito a ver com a outra.



***

Mais uma entrevista que me deu prazer em publicar, especialmente pelo sorriso que me conseguiu arrancar quando li a resposta à pergunta pessoal que apresentei à Maria: Concordas com a frase de Marguerite Duras: "Os homens gostam das mulheres que escrevem. Mesmo que não o admitam. Uma escritora é um país estrangeiro"?

M: Raro será o homem que o admita, mas creio que é uma frase verdadeira. Uma mulher que escreve é, ao mesmo tempo, alguém que se mostra e que adensa o mistério. E os homens - os verdadeiros - saberão apreciar esta característica em vez de a temer. A vantagem mais óbvia é outra e e tem a ver com o desdobramento da expressão popular "quanto mais chora, menos m*ja". Da mulher pode dizer-se que: quanto mais escreve, menos grita. 







Muito obrigada, do fundo do .