domingo, 2 de outubro de 2016

Línguas-de-gato |Transparências inúteis # 5

Depois de mais uma semana estafante, sempre a dormir e sem nada para fazer, fico sempre em pulgas, passo a expressão, para movimentar uma patinha. É assim, com agrado, que miado à parte, consigo despertar da letargia de gato e aparecer com boa disposição e com as habituais línguas-de-gato da semana. É um pouco estranho o assunto que vou abordar hoje, mas foi o que despertou o sentido felino, aquele em que deteto coisas insólitas. Então, que tal falarde transparências? Podia falar de roupa, mas eu tenho pelo e apenas, no inverno, adoro uma boa mantinha. Portanto, a transparência não é na roupa. Será sobre uma casa do futuro, como na distopia, no livro Nós, de Zamiatine? Não é.Mas está mais perto. Trata-se da mais recente atração de Changsha, na China, a saber:uma casa de banho transparente. O meu interesse recaiu sobre isto, porque a casa de banho é pública, é em vidro e qualquer pessoa, que passe, consegue ver quem está a usar. Muito interessante. Estamos a caminho do futuro. Mas lembrem-se que, nas línguas-de-gato, há sempre outra história associada: igualmente sobre transparência e que, também, se poderá considerar que envolve um vidro (porque pode estalar ou partir). Dou uma pista: o PR vetou o diploma que previa que o Fisco tivesse acesso aos saldos bancários dos contribuintes com mais de 50 mil euros. O que não sabem, se eu disse tudo agora? O meu feitio felino diz que ainda não se aperceberam que a transparência fiscal não é só um “big brother”,não é, de todo, uma casa toda feita em vidro, como no livro de que vos falei. Não e não. É uma transparência fraquinha, como aquela da casa de banho, na China, porque poucos se atreverão a usar. É uma falsa questão, pois quem tem pilim, não deixa o dinheiro à mostra. Quanto à maioria nem tem que se preocupar ou, pelo menos, não tem que se esconder das transparências inúteis!

 

Até à próxima.


 

sábado, 1 de outubro de 2016

O piropo | A sério? # 3

Vários juristas vieram criticar a decisão do tribunal por deliberar que "comia-te toda" não é crime. Esta decisão,ou melhor, acórdão do tribunal da Relação de Coimbra é justificada por uma alteração à lei, que ocorreu em momento posterior.
Resumindo e baralhando, a expressão "Estás cada vez melhor! Comia-te toda! És toda boa! Pagavas o que me deves!" dirigida a uma mulher, na via pública, constitui "linguagem boçal e ordinária, susceptível de ferir a sensibilidade subjectiva da visada, não atinge, no seu todo, o patamar mínimo da dignidade ético-penal apto a fazer intervir o tipo de crime previsto no artigo 183.º do C.P."

Depois de ler isto tudo, como é óbvio, enquanto mulher não poderia ficar indiferente. Não há dúvida que certos valores se vão perdendo. Eu, para me animar, fui pesquisar mais um videozito e eis que surge: "És tão boa!" do Herman José. Nãooo tem nada de piropo, ou de dichote e já faz parte da nossa tradição (se calhar o tribunal deveria ter deliberado com fundamento na tradição, não é?).

                                        

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Uma boa gargalhada | A sério? # 2

Como já devem ter reparado, gosto de escrever e, com o tempo, espero que as palavras me encontrem com facilidade (sou fácil de localizar). Nas andanças da escrita (ou algaraviada), eu gosto de ouvir música (com ou sem palavras) assim como adoro uma boa gargalhada e ...bem, não me julguem, sou seria(mente) viciada... 


A permanência de uma memória

Uma avó, em sinapse memorável, pressentiu a chegada doadeus à memória, em arrebatada permanência, mas com uma brevidade equiparada auma folha de caderno que insiste em não se desprender. O que fazer quando aspalavras não chegam?!
- Era uma …
- Era uma vez, é muito piroso, avó! A história vaiparecer que é para bebés e eu já sou muito crescido! – disse o Gonçalo.
- Está bem - respondeu a avó -, vou continuar sedeixares. Há um mundo misterioso que existe na cabeça das pessoas. Esse mundopode ser uma memória ou um lugar enorme, cheio de experiências extraordinárias.O que preferes?
- Eu prefiro uma história sobre carros – disse ele - ecom carrosséis, pipocas coloridas, e algodão doce com sabor a chocolate.
- A avó vai contar a história, mas primeiro quero quesaibas que a memória pode ser simples ou complicada. Se for simples, tens umcérebro feliz. Se for complicada, tens de lutar e, se conseguires, tens deprocurar as respostas. Sabes, a tua cabecinha tem vida própria, mas preciso queentendas o início.
- A sério, avó? A história é sobre a minha cabeça! Eusei que, no outro dia, não a quis lavar..
Em luminescência incerta, a avó achou que deveriaexplicar. Talvez, se ….
- A tua cabeça? Não. Vou fazer uma pergunta e depoiscomeço a história. O teu carro tem um motor?
- Claro, o motor faz o carro andar!
- Com a memória é igual, pois, tal como um carro velho,pode esquecer-se de trabalhar.
- E o óleo, avó?
- O óleo ajuda.
- E não existe um óleo desses para amemória, avó?
- Existe. Chama-se paciência e amor.
- Avó, tu já és velhinha, contas ahistória?
-Paciência amor, vou contar…Era uma…

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O Projeto Rosie, de Graeme Simsion # 25

 


 


Sinopse: Don Tillman, professor de Genética e pouco sociável, decide que chegou o momento de arranjar uma companheira, e elabora um questionário que irá ajudá-lo a encontrar a mulher perfeita. Quando Rosie Jarman aparece no seu gabinete, Don assume que ela pretende concorrer ao "Projeto Esposa" e penaliza-a por fumar, beber,não comer carne e ser pouco pontual. Mas Rosie não ambiciona tornar-se a Sra.Tillman. O seu objectivo é recorrer ao profissionalismo de Don, para que ele a ajude a encontrar o seu pai verdadeiro.

Às vezes, não somos nós que encontramos o amor; é o amor quenos encontra…

 

Opinião: Olhei para este livro e,ao ler a sinopse, achei que era uma história simples e que podia ler em pouco tempo. Pensei:“Vou levar. Não me importa se é bom ou não, porque é só para distrair um pouco!”. Querem uma óptima leitura para descomprimir? É esta. Durante o fim-de-semana, na minha mente, visualizei não o Don, mas o SheldonCooper, da série “A Teoria do Bing Bang” (ainda bem que a Rosie não é nada como a Amy,ehehe).

A história começa de uma maneira muito interessante, porque o protagonista vai dar uma palestra sobre a síndrome de Asperger, e, ao longo do livro, o leitor vai, aos poucos, apercebendo-se da relação dessa síndrome com as atitudes do personagem. 
A narrativa é feita na primeira pessoa, é muito subtil e permite-nos conhecer bem o “mecanismo” de convivência social de Don, cuja inteligência é a de um génio. Ele tem uma memória e capacidade de aprender fora do comum, sabe cozinhar bem e é “giro”, mas não consegue sentir emoções ou descrever as expressões do rosto das pessoas.

Outra situação que achei interessante: Don e o seu amigo, Gene, são ambos professores numa universidade na Austrália, na área da Genética, porém, não podiam ser mais diferentes, em especial no que toca às mulheres. Assim, quando Rosie entra na vida de Don e lhe pede para descobrir quem é o seu pai biológico, ele, comogeneticista, decide ajudá-la a recolher, à socapa, o ADN de vários “suspeitos”,surgindo então  as situações divertidas.

Gostei bastante deste livro por ser um romance de estreia escrito por um homem (é pouco comum isso acontecer), pelos bons momentos que proporcionou e pela leitura fácil e agradável, ideal para descontrair e devorar num ápice.

 

Citação: “Umquestionário! Que solução tão óbvia. Um instrumento com um fim específico,cientificamente válido, que incorporasse a melhor prática corrente de filtrar as consumidoras de tempo, as desorganizadas, as discriminadoras de gelados, asqueixosas de assédio visual, as contempladoras de cristais, as leitoras de horóscopos, as obcecadas pela moda, as fanáticas religiosas, as vegetarianas, as fãs do desporto, as criacionistas, as fumadoras, as cientificamente iliteratas,as homeopatas, deixando, idealmente, a parceira perfeita ou, em termos realistas, uma pequena lista de candidatas”.