sexta-feira, 12 de julho de 2024

Quando o Vaticano Caiu, de Pedro Catalão Moura

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Ultimamente, tenho lido várias histórias ambientadas na Segunda Guerra Mundial, mas esta, em particular, destacou-se por ser diferente do habitual. De facto não é um thriller nem um romance histórico, mas, sim, uma história alternativa, entre ficção e factos verídicos, e o seu enquadamento num género literário, como thriller, na minha opinião, poderá originar falsas expetativas, por isso aconselho a que não o façam e que mantenham a mente em aberto quando iniciarem a leitura.


Tudo começa com a chegada de uma carta misteriosa ao Papa, alertando-o sobre o plano de Hitler de invadir o Vaticano. Este alerta põe em movimento uma série de eventos que obrigam Pio XII a tomar decisões difíceis para proteger a Igreja. A proposta de Roosevelt para receber a cúria no seu país, em contraste com as alternativas oferecidas por Franco e Salazar, coloca o Papa diante de um dilema moral e político significativo. Optar pelos Estados Unidos implicaria escolher um lado no conflito mundial, enquanto a repressão do regime de Franco torna a Espanha uma opção indesejável. Assim, Portugal, com o santuário de Fátima, surge como o destino mais viável, carregado de simbolismo religioso.


Papa Pio XII, que surge nesta história como o "Papa sem Medo", é o personagem principal que tem de fazer uma escolha difícil em prol do seu compromisso com a Igreja e seus fiéis. A par deste personagem surgem outros, os cardeais com hierarquias definidas, cuja dinâmica de intrigas e conluios políticos quase me fizeram esquecer a violência e a ameaça externa dos nazistas.


Achei mesmo muito interessante conhecer este Papa e as manobras internas na Igreja, uma vez que, talvez por terem uma grande dose de criatividade do autor, ao ficionar as suas personalidade, adicionam uma camada complexa e humana à história.


Aliás, existem vários personagens cardeais que têm ambições nada caridosas, mas a forma como estão descritos e forma como se comportam transmitem irritação, algum divertimento e até, pasme-se, pena do Papa.   






A obra, inspirada em eventos verídicos, combina, assim, factos históricos com uma ficção habilmente executada, conseguindo criar uma leitura cativante e gerar interesse em saber mais sobre factos que são, provavelmente, desconhecidos pelos leitores. 


 "Quando o Vaticano Caiu" é sem dúvida alguma uma brilhante e bem-construída história alternativa que promete prender a atenção e que oferece a todos os leitores uma nova perspetiva sobre os desafios enfrentados pela Igreja durante a guerra.













 



quinta-feira, 11 de julho de 2024

O Papel de Parede Amarelo, de Charlotte Perkins Gilman

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"O Papel de Parede Amarelo" é um conto clássico da literatura escrita por Charlotte Perkins Gilman, publicado em 1892. A história é conhecida por sua exploração profunda e perturbadora da saúde mental feminina e das restrições sociais enfrentadas pelas mulheres na época vitoriana.


A narrativa é centrada em uma mulher que está passando por um tratamento para uma condição de saúde mental, prescrita por seu marido médico. Ela é proibida de realizar qualquer atividade intelectual ou física, e é confinada a um quarto com papel de parede amarelo. Conforme os dias passam, ela começa a ver figuras estranhas e formas no papel de parede, levando a uma deterioração crescente de sua própria sanidade.


Gilman utiliza o papel de parede como uma metáfora poderosa para a opressão que as mulheres enfrentam na sociedade, assim como uma exploração das consequências do tratamento paternalista e desumano das doenças mentais na época.


A escrita de Gilman é perspicaz e intensamente introspectiva, mergulhando na psique da protagonista de uma maneira que é ao mesmo tempo fascinante e angustiante. A história oferece uma crítica social aguda e uma análise penetrante das pressões sociais sobre as mulheres, além de uma exploração profunda das fronteiras entre a sanidade e a loucura.


Em resumo, "O Papel de Parede Amarelo" é uma obra-prima da literatura gótica e um conto fundamental sobre a experiência feminina e a saúde mental, que continua relevante e poderoso até os dias atuais.










 




O animal selvagem, de Joël Dicker













 











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Durante as férias, li "O Animal Selvagem" e desde a primeira página a narrativa envolvente de Joël Dicker prendeu minha atenção, tornando-o o livro perfeito, para se ler aos poucos, numa altura em que precisava de descanso.


A história inicia-se com um plano engenhoso de assalto a uma joalharia em Genebra, mas vai-se desenrolando numa teia intricada de segredos e obsessões.


Sophie Braun, que vive nas margens do Lago Léman, vê a sua vida aparentemente perfeita desmoronar-se. O seu marido guarda segredos sombrios, o seu vizinho policial desenvolve uma obsessão inquietante por ela, e um presente misterioso coloca sua segurança em risco.


O que mais me cativou foi a forma como Dicker delineou os personagens e o desenvolvimento detalhado das suas personalidades e histórias. Além disso, os saltos temporais, uma característica de seu estilo, estão mais fluídos e intuitivos, o que enriqueceu a experiência de leitura.


Embora o desfecho tenha ficado um pouco aquém das expectativas, a escrita cativante de Dicker e o equilíbrio perfeito entre suspense e entretenimento fizeram deste livro uma excelente escolha.


"O Animal Selvagem" proporciona uma leitura emocionante e envolvente e por isso recomendo vivamente esta obra a todos os leitores que procuram um thriller irresistível, viciante e repleto de reviravoltas que ao mesmo tempo oferece diversão e muito suspense.









 


 




segunda-feira, 24 de junho de 2024

O quinto pescador, José Rodrigues

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"O Quinto Pescador" é o sexto livro do autor e tem recebido muita atenção nas redes sociais. Como não vejo vídeos nem leio críticas ou opiniões antes de ler, embarquei nesta leitura sem bagagem nenhuma que pudesse influenciar o meu pensamento ou as emoções. Porque quando leio que choraram muito com determinada história, geralmente, não tenho a mesma reação.  E porque dão spoilers e isso aborrece-me.Portanto, nada sabia, nada conhecia, nem sequer o autor, e o que escrevo são as impressões pessoais que surgiram durante a sua leitura.


Quanto ao cenário escolhido pelo autor, uma aldeia costeira, tranquila e acolhedora, é o cenário perfeito para esta jornada de cura e para novas amizades e reconexões emocionais. Afinal, há sempre uma Esperança, mesmo nos sítios mais improváveis.


Francisco é o personagem principal que procura o isolamento nessa aldeia mas, Pedro e Rafa, surgem como faróis no seu caminho, num momento em que a luta interna de Francisco é intensa, dolorosa e de difícil aceitação.  



Parece que tudo sabe a pouco e a nada e a tanto me faz.



Já nas conversas silenciosas de Francisco com a estátua na falésia, altura em que a alma do protagonista se desnuda, há uma espécie de introspeção. São conversas sem resposta, é certo, mas nesse momento Francisco toma consciência dos seus pensamentos mais escuros e também dos mais felizes. 


A destacar, ainda, ao longo desta história, as várias fotos a preto e branco de Sara Augusto, com o mar, as árvores e as flores, que, a meu ver, são mais que imagens, são haikus visuais que capturam a solidão e a melancolia do protagonista. 


Apesar de não ser, atualmente, o meu género de livro, as personagens têm uma simplicidade e uma autenticidade que espelham uma vivência de vida tal como a conhecemos, umas vezes dura e difícil, outras com perspectivas de melhores dias.


Esta é uma leitura com uma mensagem importante para os leitores que precisam de voltar a olhar para a vida com um sorriso. Afinal, há mesmo Esperança nos sítios mais improváveis!


 

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Gatos na Noite, Fábio Ventura

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Após a leitura de "Corações de Papel", iniciei "Gatos na Noite" com uma grande curiosidade, ansiosa por desvendar o destino dos seus personagens. Embuída por um espírito de investigação, fui completamente surpreendida pela profundidade e complexidade que esta obra apresenta. Na verdade, desde as primeiras páginas, senti-me um tanto desorientada diante do vasto número de personagens introduzidos. A trama centra-se nos quatro irmãos – Jeremias, Tomé, Gabriel e Cibele– que têm personalidades distintas e complexas, contribuindo para um mosaico de histórias individuais e coletivas, em paralelo com personagens como Mateus, Júlia, Basílio e tantos outros que vão surgindo ao longo da história. 

O livro possui uma atmosfera que remete fortemente ao estilo de Stephen King, com um cenário impregnado de suspense e mistério, o que me deixou com um nó no estômago e um sentimento de inquietação constante. Essa influência é evidente na forma como o autor constrói o ambiente da Casa da Lua, um local repleto de segredos sombrios e eventos perturbadores.


Olhei de volta para todas aquelas sombras. Estavam a sorrir, um sorriso branco que conseguia ver mesmo àquela distância. E de repente já não era eu ali. Era apenas uma sombra, tal como elas.

 


Ao longo da narrativa, personagens de "Corações de Papel", como Gaspar, Lucas e a Cece, reaparecem, enriquecendo a trama e conectando histórias passadas e presentes, adicionando profundidade com essa ligação.

Nesta história são explorados temas complexos relacionados com a psicologia humana, inspirados nas teorias de Carl Jung sobre o consciente e o inconsciente. E apesar de se estranhar o inicio e as sombras, o autor conseguiu, e bem, amarrar todas as pontas soltas no final, proporcionando uma conclusão surpreendente. Para isso contribui decisivamente a escrita do autor e a forma como mantém o leitor envolvido e intrigado até a última página.

 

Num thriller que ousa lidar com temas psicológicos profundos e o lado obscuro do ser humano, a experiência intrigante à medida que os segredos da família Xavier vêm à tona, revela segredos obscuros que nem o próprio Jung previu.