quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Olive Kitteridge, de Elizabeth Strout

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Sinopse: aqui


Opinião: Este é o segundo livro que leio da mesma autora de “Meu nome é Lucy Barton”e, tendo em conta que venceu o Pulitzer de ficção em 2009 e que foi adaptado a uma minissérie da HBO, encontrei razões fortíssimas para sentir logo curiosidade.


A prosa, que tão bem caracteriza Elizabeth Strout, é por vezes poética e por vezes crua, porém, neste livro, ela optou por escrever não uma mas 13 histórias, independentes, estruturalmente aproximadas ao género de contos, cuja única ligação é Olive Kitteridge, uma professora de matemática reformada. Portanto, o título do livro refere-se à personagem principal (Olive), embora, na minha humilde opinião,  Henry, o marido de Olive, farmacêutico simpático, merecesse ter um papel de maior destaque. 


Na pequena vila de Crosby, no litoral do Maine, todos se conhecem e os dramas surgem como  histórias isoladas, as quais fazem parte das vivências da comunidade. Este é um dos motivos para,  inicialmente, pensar que se trata de um romance que aparenta ser um conjunto de contos sobre pequenos dramas dos habitantes de uma pequena vila e, sobretudo, sobre a antipática Olive. Contudo, sabemos bem que as aparências enganam, cabendo ao leitor tirar as suas próprias conclusões, conforme explicarei de seguida.


Para mim, a subtileza neste livro está, portanto, na forma como a autora transfere para o leitor um certo ónus ao nível da leitura, dependendo muito de quem lê e da forma como o faz, ou da escolha entre ler o livro todo de seguida ou ir saboreando a leitura, ou até ao nível das simpatias e antipatias para com os personagens. Eu, por exemplo, terei sempre o Henry na memória enquanto Olive é apenas uma lembrança espartilhada pelas histórias de outros personagens.


Este livro é uma espécie de desafio lançado ao leitor, pois ele terá de tentar descobrir os detalhes e as mudanças desta personagem (Olive) que, quer se goste ou não, prima pela singularidade da imperfeição inerente ao ser humano. 


E vocês, já leram?


 


Classificação: 4/5*


 


 


Oferecido pela editora para opinião

terça-feira, 13 de outubro de 2020

O Anjo de Munique, de Fabiano Massimi

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Sinopse:aqui.


Opinião: A morte da sobrinha de Hitler, Angela Raubal, é até hoje um mistério. Os rumores diziam que foi a grande paixão da vida de Hitler, que este controlava a sua vida e que possuía um fanatismo ao ponto de lhe proibir qualquer tipo de amizade ou independência própria. Será que isto possui algum fundo de verdade?


Fabiano Massimi, editor e escritor, tem uma teoria, agarra na história, investiga, e dá uma resposta neste livro, misturando a realidade e a ficção de uma forma totalmente verosímil.


Tudo se inicia em Munique, em setembro de 1931, a poucas semanas das eleições que trarão poder aos nazis. Sigrifried Saue, comissário da polícia, é chamado à moradia do número 16 da Prinzregentenplatz, onde supostamente Geli, de 22 anos, se suicidou. Ao lado do seu corpo um revólver pertencente ao seu tio Adolf Hitler. Pequenos pormenores como este, bem como a posição do corpo e o quarto imaculado, levam a que Saue sinta que algo não bate certo naquele cenário. E essa sensação agudiza-se mais ainda quando, passadas escassas horas, mandam encerrar a investigação, o corpo é cremado e o relatório médico desaparece.  Será que alguém tenta impedir que se descubra quem matou Geli?


A procura de respostas levam o leitor a partilhar suspeitas e a participar na investigação perigosa protagonizada por Saue e o seu colega Mutti. Sente-se a adrenalina e, sobretudo, um enorme desejo de descobrir o verdadeiro culpado quando a tese de homicídio começa a ganhar força.


O cenário da morte de Geli e de outros personagens, as cartas assinadas com a letra H, as testemunhas manipuladas, as provas que desaparecem e as ameaças de morte, conferem a esta história todos os ingredientes necessários para uma leitura compulsiva, emocionante e intrigante.


Um thriller é sempre um thriller, mas uns são mais do que outros e, neste caso, a investigação e a imaginação do autor superou a História. Uma estreia que aconselho sem sombra de dúvida. 


 


Classificação: 5/5


 


Oferta da editora para opinião

sexta-feira, 31 de julho de 2020

O enigma do quarto 622, de Joël Dicker

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SINOPSE: aqui.


OPINIÃO: Este é um dos escritores que acompanhei desde o início e que me conquistou logo pela dose certa de mistério e de crime à mistura. É que são só as minhas estórias preferidas e acredito que, com o tempo, ele irá destronar a própria Agatha Christie. Tenho fé.


«O enigma do quarto 622» é o quinto livro de Joël Dicker e, tal como nos anteriores romances, o autor agarra-nos desde a primeira página. Bem sei que são 610 páginas, mas acreditem que não se sentem a passar (ou a folhear) até porque queremos descobrir quem foi o assassino e o que se passou no quarto 622 do luxuoso hotel nos Alpes suíços (Palace de Verbier). E é o próprio escritor, Joël Dicker, que, quinze anos depois, para fugir a um desgosto amoroso e para fazer o luto do seu estimado editor, irá então iniciar a investigação, tendo por companhia, e principal colaboradora, uma cliente do hotel, hospedada no quarto ao lado do seu, chamada Scarlett Leonas.


Nesta estória, nada é o que parece e as inúmeras personagens, incluindo o próprio autor, levaram-me a questionar tudo e a ficar sempre de pé atrás, e só quase no final é que desconfiei quem poderia ser o suspeito número um. E quase acertei! 


Já o autor, enquanto personagem, não achei que tivesse, aqui, um especial impacto, dado andar quase sempre a «reboque» da Scarlet. Aliás, como fã, sou suspeita, pois gostaria que tivesse desenvolvido essa parte de outra forma.


Achei ainda curioso que, enquanto personagem, recordasse de Bernard de Fallois, o seu editor, e que se lembrasse  do nome do seu livro preferido [E tudo o Vento Levou],  mas creio que se percebe que a  intenção é tão só de lhe prestar uma homenagem, dado que:«Era uma inspiração para a vida, uma estrela na Noite».


N´O enigma do quarto 622, o leitor é apanhado de surpresa, porque «O mais importante (...), não é como a (...) história acaba, mas o modo como enchemos as páginas até lá. Porque a vida, como um romance, deve ser uma aventura. E as aventuras são as férias da vida».


Um livro fantástico que recomendo vivamente. 


 


CLASSIFICAÇÃO: 5/5*


 


Oferta da editora para opinião


 

Voar no quarto escuro, de Márcia Balsas

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«Sou eu a minha prisão, agora. Até acordar cercada por grades, algures.»
Eduarda apenas sonhara em refazer a sua vida após a morte do marido, que a deixou sozinha no mundo com uma filha adolescente. Não desconfiou que essa nova casa, com um novo companheiro, a conduziria a uma vida de violência, destinada ao esquecimento. Anos de submissão encaminham-na para uma noite de tempestade.
Este é o momento em que as paisagens tão dissonantes da vida de seis mulheres se entrelaçam de uma forma inegável, numa demanda pelo significado da vida. Mães, filhas, amigas, amantes, casas devastadas pela dúvida e pela loucura - todas obrigadas a enfrentar o medo de voar no quarto escuro.










OPINIÃO:

No dia 5 de outubro de 2019, no 2.º Encontro de Booktubers, realizado na Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira em Leiria, tive a oportunidade de ver e ouvir a Márcia Balsas quando assisti à apresentação do livro "Voar sobre o quarto escuro". Recordo-me de ela contar como surgiu a ideia para escrever uma história com personagens ficcionadas, as quais existiam apenas na sua cabeça, cujas vivências e dilemas poderiam ser reais.

Durante o mês de junho, com o projeto "On the Road" da  Ana Paula Catarino, da Cristina Luis e da Silvéria Miranda, o livro chegou cá a casa e tive a possibilidade de confirmar aquelas palavras da Márcia e, claro, de conhecer melhor a escrita dela. Gostei especialmente de algumas passagens:


"Chove. Caminha com cautela por causa do chão escorregadio. Tem medo de cair, mas não pode ficar mais magoada. A ironia é quase cómica, não fosse as dores provocadas pelo riso".


"Seca uma lágrima saudosa do falecido, «era de boas contas, não falhava», e fica a matutar nas injustiças da vida enquanto tira os copos da máquina, já secos, prontos para mais uma rodada".


"«Nunca» é outra palavra curiosa, usada tantas vezes de modo leviano, sem percepção do seu sentido limite. Talvez por não haver sentido no fim, porque quando se chega lá, ao fim, não se tem essa consciência. Depois do fim, nada".




Neste livro, existem oito personagens femininas e cada uma vivencia uma situação de: violência doméstica, desespero, solidão, sexualidade, depressão e até suicídio. São tudo temas atuais , pertinentes mas muito difíceis de abordar. Assim, pese embora tenha gostado da escrita e da forma como as personagens vão surgindo, achei que a leitura de tantos problemas ao mesmo tempo me transmitiu um peso, um fardo e uma falta de esperança. Para explicar melhor, talvez consiga fazê-lo utilizando uma linguagem metafórica, uma vez que durante a leitura senti como se ouvisse um fado com letra muito bonita e com uma música muito triste. Não obstante, as minhas impressões foram boas ao nível da escrita e gostei muito de ter ficado a conhecer o primeiro romance da Márcia.




quarta-feira, 8 de julho de 2020

A cidade das mulheres, de Elizabeth Gilbert

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SINOPSE: aqui.

OPINIÃO: Depois de ter lido o livro "A Marca de Todas as Coisas" fiquei com boa impressão da escrita desta autora e convencida de que ela sabe retratar bem personagens femininas. Com base nesta experiência de leitura assumo que as minhas expetativas relativamente "A cidade das mulheres" eram elevadas, no entanto Gilbert veio provar a minha opinião inicial.

A história inicia-se em abril de 2010, quando Vivian recebe uma carta de Ângela (que só se descobrirá quem é mais para o final), na qual esta pede a Vivian que conte o que foi para o pai dela. E Vivian, assumindo a qualidade de narradora, conta a sua vida a Ângela (ou ao leitor) recuando até o verão de 1940, altura em que tinha apenas 19 anos.

Vivian, a estudar na Faculdade de Vassar, é mandada de volta para casa dos pais, uma vez que ela não obteve aproveitamento nos exames. Apesar do prestígio da faculdade, Vivian não manifestou qualquer interesse em frequentar as aulas, preferindo costurar vestidos a estudar. Os pais, por vergonha ou por não saberem lidar com a filha, resolvem "despacha-la" no comboio para ir morar em Manhattam com a tia Peg (dona do teatro Lily Playhouse). De jovem inexperiente, rica e sem rumo, a vida de Vivian muda radicalmente quando trava conhecimento com várias personagens que a fascinam. É assim que na companhia de Celia Ray, corista no teatro da tia, embarca na aventura ("La vida Louca") madrugada fora, aproveitando ao máximo a vida e o divertimento noturno, em modo desbragado. Porém, essa alegria e vivacidade é ameaçada por problemas relacionados com ampla liberdade da jovem, embora esta continue a desempenhar, competentemente, a tarefa de figurinista do teatro da tia Peg, gerido com mão de ferro por Olive, caraterizada como implicativa mas de grande coração conforme se verificará ao longo da história.

O título "A cidade das mulheres" é o nome da peça de teatro que o tio de Vivian, Billy, escreve para a grande atriz Edna Parker Watson. O título alude a isso e a mais, porque conhecemos e acompanhamos várias personagens femininas interessantes que residem todas no Lily Playhouse.

A meio do livro, o ritmo da história diminuiu um pouco, porém, quando julguei que não ia acontecer nada de novo, Gilbert conseguiu dar um novo folgo e apanhar-me desprevenida e bem desperta para o que se segue. 

"A cidade das mulheres" é uma história absorvente sobre liberdade, paixão, romance, descoberta, erros e crescimento pessoal, em que o fascínio reside na narrativa simples e direta alicerçada na construção de personagens quase reais. Gostei muito e aconselho vivamente.

 

 

Classificação: 4, 5/5*