sexta-feira, 6 de março de 2020

Mania de quem sabe escrever

Quem se identifica com a escrita dita a roçar a perfeição dirá que mudar uma vírgula e alterar uma palavra por um sinónimo é uma maneira de escrever melhor. No entanto, em contexto de trabalho, diria que nada é mais pernicioso do que esperar que tudo saia bem à primeira ou arrogar-se o supra-sumo nessa matéria.

Na escola primária, aprendemos que mudar uma vírgula de sítio poderá matar a verdade e a voz das próprias palavras quando retira o sentido e são expurgadas do devido contexto. E desde cedo aprendemos que escrever tem regras  (como as daqui), no entanto, talvez o aprume dos dedos colocados corretamente, por quem sabe, no teclado [que não o nosso], adquira toda uma nova forma e conteúdo, superior e elegante e, erróneamente, pensamos que há coisas que só acontecem aos outros. Mas quando não existe uma carta de instruções de quem tem a mania, ou uma qualquer bula que nos oriente a hora da toma [vai buscar], engolimos as vírgulas com vontade de lhes gritar vários sinónimos de impropérios néscios.

Creio que o alto patamar de intransigência, por parte de quem tem a mania, não provem da superioridade inteletual que se dirime com táticas dirigidas aos seus supostos serviçais, antes os coloca entre quem não soube assumir uma liderança estimulante. 

E, então, uma vírgula, um sinónimo, podem ou não fazer alguma diferença? Poder, podem, mas não devem. Poder não é dever assim como para se ser soberano na matéria não basta parecer mas, sobretudo, há que saber sê-lo. Diante um tal espezinhamento, a assertividade dos argumentos apenas iriam ter o condão de enfadar e acintar quem tem uma tal mania - palavra que, curiosamente, se transverte por "apego excessivo ou obsessivo a uma ideia ou intenção". E entender isto como escrever melhor do que outro não é mais do que uma obsessão - palavra que, curiosamente, siginifica "perseguição diabólica".  Por essas e por outras, prefiro manter uma espécie de si-lên-cio perante tanta imperfeição, usando como argumento alguém que percebe da escrita quando sente e que sente o que escreve.


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terça-feira, 3 de março de 2020

A última carta, de Cecelia Ahern

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Sinopse: Aqui.


Opinião: Depois de P.S - eu amo-te, fiquei curiosa para ler este livro, porque queria muito saber como prosseguiu a vida de Holly sete anos após a última carta de Gerry. Tenho de admitir que na minha cabeça surgiram vários planos para a vida dela. Por exemplo, esperei voltar a encontrá-la casada e já com filhos. No entanto, já devia ter aprendido que nos livros, tal como na vida real, há mudanças e reviravoltas inesperadas.


Holly Kennedy tem 37 anos, está mais velha, tem um namorado, chamado Gabriel, e abriu uma loja de coisas vintagem em segunda mão com a irmã Ciara.


Este é o começo do livro e para ser sincera não estava à espera de uma mudança tão grande ao nível da vida profissional de Holly, uma vez que em P.S. ela trabalhava numa revista. Via ali um futuro promissor e esperava outro rumo na história. Tenho de admitir que (por ser verdade) quase passei a fazer parte da família e, claro, a família tem o direito a ter uma opinião e sabe sempre o que é melhor (só que não).


Quando Holly faz um podcast sobre o seu processo de luto e fala nas cartas do marido, Ângela Carberry fica interessada na sua história e quer que Holly a ajude. Falar de mágoa e desgosto afeta a todos, mas Holly não quer repisar o que passou e praticamente foge de Ângela. Quando esta morre, Holly sente-se culpada e é obrigada a repensar uma forma de ajudar os outros. É, então, que começa a relacionar-se com os membros do clube P. S.- eu amo-te e a ajudar a escrever as suas próprias mensagens aos entes queridos. 


"Talvez não seja a morte que nos revolta ou assusta, mas o facto de não a podermos controlar".


Contrariamente a P.S.- eu amo-te, não dei por mim a sorrir mas a sentir emoções com mais intensidade, tanto que chorei com Ginika. E, talvez por ter lido os dois livros de enfiada, nunca desejei tanto que o final correspondesse aos meus desejos, numa espécie de pedido à lua quando se tem as estrelas.


Cecelia Ahern voltou a surpreender-me, mais uma vez, através desta história, sentida e cheia de emoções, cujo desenvolvimento acarretou um maior envolvimento na missão em torno de vários personagens que nos comovem e nos prendem até à última página. 
Gostei bastante.


Classificação: 4/5*


Oferta da editora



 

domingo, 1 de março de 2020

A noite em que o verão acabou, de João Tordo

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Sinopse: aqui.


Opinião: Li este livro para a leitura conjunta no grupo da Isabel Caldeira, do blog Manta de Histórias. Eu nunca tinha feito a experiência e espero voltar a repetir.


Depois de ler Ensina-me a voar sobre os telhados, o tamanho deste livro intimidou-me um pouco, mas assim que comecei a ler passou a ser insignificante. Além disso, o facto de ler 50 páginas por dia, para a leitura conjunta, tornou tudo ainda mais interessante.


A história inicia-se no verão de 1987, quando o adolescente Pedro Taborda apaixona-se por Laura Walsh, filha mais velha de Noah Walsh, um nova-iorquino, muito rico, com negócios de caráter duvidoso. 


Laura empresta um livro a Pedro e ele decide que um dia se tornará escritor, tal como Gary List. Dez anos depois, Pedro, decidido a tornar-se escritor, vai estudar para Nova-Iorque.O professor,  Gary List, acaba por se tornar seu amigo, apesar de uma mentira que o levou ao seu curso de literatura. Gostei bastante deste personagem, especialmente pela sua excentricidade, não deixando de concordar quando diz o seguinte:


"Nos policiais aprendemos muito sobre a arte de contar, confirmou ele. «Todas as narrativas, até mesmo as que foram escritas pelos génios da literatura, labutam na mesma matéria. Sexo, ambição e inveja. Senão, veja: Madame Bovary; Moby Dick; Crime e Castigo; Hamelet; Cervantes; Shakespeare e Conrad; Roth, Dostoievsky e Nabakov. Depois chegou a modernidade e deu cabo destes princípios".


"A partir de meados do século XX, muitos escritores decidiram sacrificar o ofício em favor do significado e começaram a debruçar-se sobre o absurdo da existência humana, culminado nestas coisas intragáveis  que abundam nas livrarias e recebem críticas elogiosas do The New York Times, cujos escribas não conseguem evitar repetir-se e usam sempre os mesmos epítetos. Um livro que espelha a condição humana. Profundamente original. Uma nova voz"


Acredito que este livro poderá ser adaptado ao cinema, uma vez que tem todos os ingredientes necessários, desde romance a investigação criminal e, ainda, um mistério em torno não de um mas de dois homicídios. E foi este mistério que me manteve presa e com vontade de descobrir o final, porque, embora ao longo da leitura fossem dadas algumas pistas, é totalmente inesperado e surpreendente. 


O thrilher é um género em que o autor se estreou e que recomendo sem hesitar.


 


Classificação: 5/5*

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

P. S. - eu amo-te, de Cecelia Ahern

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Sinopse: Aqui.


Opinião: «Há livros que devemos evitar, e este é um deles?!». Se pensam assim é porque acham que o livro é apenas mais uma história lamechas que não merece uma oportunidade, ou então viram o filme e julgam que não vale a pena ler o livro. Não podiam estar mais enganados. Nem eu.Tenho de admitir que parti para esta leitura com essa ideia em mente, no entanto, o filme é diferente, confirmando-se que a minha regra atual - primeiro leio o livro e depois vejo o filme - é a que permite formar uma opinião fundamentada sobre uma história baseada num livro.


Depois deste enquadramento, julgo ser chegado o momento de apresentar os personagens principais. Holly e Gerry formam um casal feliz, que vive em Dublin. Eles têm discussões e  defeitos como qualquer outro casal. Eles são um casal muito apaixonado, que se conhece  desde a adolescência, Mas, então, esta história não é sobre «apaixonaram-se e viveram felizes para sempre?». De facto, não é. É antes sobre a fase de superação da morte de alguém querido e sobre a forma como se vive com as recordações (neste caso, mantidas por Gerry através de cartas que deixou para Holly).


«Os amigos e a família iam e vinham, ajudando-a umas vezes com as lágrimas, outras vezes fazendo-a rir. Mas, mesmo no seu riso faltava algo. Nunca parecia verdadeiramente feliz; parecia apenas estar a passar o tempo enquanto esperava por outra coisa qualquer. Estava cansada de simplesmente existir; queria viver».


A escritora Irlandesa Cecelia Ahern surpreendeu-me uma vez mais, pois nos seus livros há sempre um tema delicado, e neste conseguiu abordar o processo de luto, introduzindo certos acontecimentos cómicos através das amigas de Holly, Denise e Sharon.


«A câmara apontou nessa direção. Por baixo dos lençois de seda dourada pareciam três porquinhos a digladiar-se debaixo de um cobertor. Sharon, Denise e Holly rebolavam, aos gritos umas com as outras,  tentando passar o mais despercebidas possível, para que ninguém desse por elas».


«Denise e Sharon uivaram de riso pela maravilhosa escolha musical e fizeram-lhe uma grande festa».


Posto isto, reforço a ideia de que quem viu o filme não pode deixar de ler o livro, mas, se este conselho ainda for a tempo, não o façam por essa ordem. Primeiro o livro. Sempre. 


Enquanto leitora, apreciei muito mais o livro, porque este romance é triste, comovente e  divertido, mas é, sobretudo, uma lição de vida e de esperança.


Leiam porque vale a pena. 


 


Classificação: 4/5*


 


Oferta da editora

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Uma família quase normal, de Mattias Edvardsson

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Sinopse: "Stella é uma adolescente comum, de uma família honesta. O pai, Adam, é pastor da Igreja da Suécia, respeitado e de uma moral irrepreensível, casado com Ulrika, advogada de defesa. Os Sandell são a família perfeita, até que Stella é acusada do assassinato brutal de um homem muito mais velho, Christopher Olsen. Mas que motivo poderia ela ter para conhecer um homem de negócios obscuro, quanto mais para o matar? Tudo deve não deve passar de um erro terrível".


 


Opinião: Este thriller psicológico é sobre uma família e sobre Stella, uma rapariga de 18 anos, acusada de homicídio e todas as provas apontam para que tenha sido ela. Os pais, claro, acreditam na sua inocência e, uma vez que a mãe, advogada, não a pode representar, arranjam um advogado. No entanto, Stella recusa-se a contar o que se passou e não quer receber a visita dos pais.


Nesta história, aparentemente simples, fui "entrando" na cabeça dos personangens e aos poucos fui percebendo o que as move, primeiro na perspetiva do pai, depois da filha e, por último, da mãe. De facto, a narrativa é dividida em três partes e o leitor vai acompanhando a história de uma forma sequencial. Não há quebras e o facto de ser contado na primeira pessoa torna tudo real, pois é como se fossem eles a contar os seus segredos. 


Esta estrutura tripartida da história permitiu o adensar do mistério em torno da morte e, ao mesmo tempo, desvendar as falhas, segredos, dúvidas e certos acontecimentos do passado, o que tornou tudo muito mais interessante. Revela ainda que o escritor pensou muito na forma de "humanizar" as personagens.


Acho que Adam, o pai, pastor, religioso, defensor da verdade, é um personagem ambíguo pois preocupa-se com a filha e ao mesmo tempo com a forma como os outros os julgam. Já Ulrika, a mãe, defende a filha a todo o custo, embora confesse que gostava que ela fosse como a melhor amiga da filha, Amina.


" A minha menina assustada. Levanto-me ligeiramente do lugar, equilibro-me nos bicos dos pés e estendo o braço. Não estar ali para ajudar a nossa própria filha. Não há maior traição"


Stella tem sonhos e tem problemas psicológicos, que nenhum psicólogo conseguiu entender, mas é muito inteligente (mas será que foi capaz de  de matar?).


"O trabalho de qualquer psicólogo é basicamente inserir as outras pessoas numa das matrizes que aprendeu. Sugestão: deviam fazer exactamente o contrário! Razão: cada pessoa é um ser único".


Este livro lê-se tão facilmente que não descansei enquanto não o terminei de ler. Fiquei totalmente presa à teia de acontecimentos que se vão sucedendo rapidamente, mas o que realmente me conquistou foi a densidade psicológica de cada um dos personagens.


Classificação: 5/5*


Oferta da editora