quinta-feira, 18 de julho de 2019

Clube de leitura em modo de listas literárias

clube.jpg


Quantos livros podemos ler durante a vida inteira? Muito poucos. Se fizermos uma média de um livro por semana, durante 70 anos, dá uma média de 3.640 livros numa vida. Se calhar quase ninguém consegue ler tanto. E se da próxima vez ficarem chocados ao saber que alguém não leu um determinado livro, lembrem-se disto: a maioria dos livros no mundo nunca será lido, incluindo alguns dos melhores livros de sempre. É por isso que é importante ler sempre o que gostamos. 


 


No clube de leitura Livros & Ca, que se reuniu, no dia 13 de julho, na Biblioteca Municipal de Leiria, esta breve introdução serviu de mote ao tema das listas literárias. Assim, além das nossas leituras (na fotografia), o tema das listas literárias deu azo a uma reflexão importante e que é do agrado a qualquer bibliófilo.


 


Se seguirmos as indicações, por exemplo, da lista 1001 livros para ler antes de morrer e, tendo em conta o número de livros que podemos vir a ler durante a toda uma vida, os 1001 livros parecem-nos um número mais razoável e até exequível. 


 


Ora, as listas servem como mera indicação de livros eleitos por alguém e que merecem (ou não) ser lidos. Contudo, não podemos desanimar se não conseguirmos ler tudo, porque, como vimos, isso é completamente impossível. Acresce que cada vez mais se publicam mais e mais livros. Só em Portugal, se não estou em erro, são publicadas cerca de 15.000 novas edições por ano. Conseguem imaginar?! São muuuuiiiitos!!!


 


A propósito de ler muito, vocês perguntam: mas qual é a relação com a temática das listas literárias???


Tendo em conta que a lista dos 1001 livros para ler antes de morrer é extensíssima, proponho-vos que procurem a resposta através de uma outra lista. A BBC já fez a experiência há uns anos atrás, mas não deixa de ser interessante verificar quantos livros já leram, o que, segundo a BBC, difilmente, somará mais de 6 livros.


 


Para descobrirem a resposta, à vossa pergunta, basta sublinharem e contabilizarem os livros que já leram. No nosso clube de leitura chegamos à conclusão de que lemos muito mais do que 6 livros, o que é a  prova de que a BBC está redondamente enganada [ou então os ingleses andam a ler muito pouco:)].


 


E vocês, quantos livros já leram desta lista? 


1 — Orgulho e Preconceito (1813), Jane Austen


2 — O Senhor dos Anéis (1954), J. R. R. Tolkien


3 — Jane Eyre (1847), Charlotte Brontë


4 — Harry Potter e a Pedra Filosofal (1997), J. K. Rowling


5 — Mataram a Cotovia (1960), Harper Lee


6 — Bíblia Sagrada


7 — O Monte dos Ventos Uivantes (1847), Emily Brontë


8 — 1984 (1949), George Orwell


9 — Trilogia Mundos Paralelos, Philip Pullman (1995-2000)


10 — Grandes Esperanças (1861), Charles Dickens


11 — Mulherzinhas (1869), Louisa May Alcott


12 — Tess dos D’Urbervilles (1892), Thomas Hardy


13 — Catch-22 (1961), Joseph Heller


14 — A Peste (1947), Albert Camus


15 — Rebecca (1938), Daphne du Maurier


16 — O Hobbit (1937), J. R. R. Tolkien


17 — O Canto do Pássaro (1993), Sebastian Faulks


18 — À espera no Centeio (1951), J. D. Salinger


19 — A Mulher do Viajante no Tempo (2003), Audrey Niffenegger


20 — Middlemarch: Um Estudo da Vida na Província (1871), George Eliot


21 — E Tudo o Vento Levou (1936), Margaret Mitchell


22 — O Grande Gatsby (1925), F. Scott Fitzgerald


23 — A Casa Soturna (1853), Charles Dickens


24 — Guerra e Paz (1867), Lev Tolstói


25 — À Boleia Pela Galáxia (1979), Douglas Adams


26 — Reviver o Passado em Brideshead (1945), Evelyn Waugh


27 — Crime e Castigo (1866), Fiódor Dostoiévski


28 — As Vinhas da Ira (1939), John Steinbeck


29 — Alice no País das Maravilhas (1865), Lewis Carroll


30 — O Vento nos Salgueiros (1908), Kenneth Grahame


31 — Anna Karénina (1877), Lev Tolstói


32 — David Copperfield (1850), Charles Dickens


33 — A Oeste Nada de Novo (1929), Erich Maria Remarque


34 — Emma (1815), Jane Austen


35 — Persuasão (1817), Jane Austen


36 — O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (1950), C. S Lewis


37 — O Menino de Cabul (2003), Khaled Hosseini


38 — O Bandolim do Capitão Corelli (1994), Louis de Bernières


39 — Memórias de uma Gueixa (1997), Arthur Golden


40 — Ursinho Pooh (1921), Alan Alexander Milne


41 — A quinta dos animais (1945), George Orwell


42 — O Código Da Vinci (2006), Dan Brown


43 — Cem Anos de Solidão (1967), Gabriel García Márquez


44 — Folhas de Erva (1855), Walt Whitman


45 — A Mulher de Branco (1860), Wilkie Collins


46 — Anne de Green Gables (1908), Lucy Maud Montgomery


47 — Longe da Multidão (1874), Thomas Hardy


48 — A história de Uma Serva (1985), Margaret Atwood


49 — O Deus das Moscas (1954), William Golding


50 — Expiação (2001), Ian McEwan


51 — A Vida de Pi (2001), Yann Martel


52 — Duna (1965), Frank Herbert


53 — Cold Comfort Farm (1932), Stella Gibbons


54 — Sensibilidade e Bom senso (1811), Jane Austen


55 — Um Bom Partido (1993), Vikram Seth


56 — A Sombra do Vento (2001), Carlos Ruiz Zafón


57 — Um Conto de Duas Cidades (1859), Charles Dickens


58 — Admirável Mundo Novo (1932), Aldous Huxley


59 — O Estranho Caso do Cão Morto (2003), Mark Haddon


60 — O Amor nos Tempos do Cólera (1985), Gabriel García Márquez


61 — Ratos e Homens (1937), John Steinbeck


62 — Lolita (1955), Vladimir Nabokov


63 — A História Secreta (1992), Donna Tartt


64 — Rumo ao Farol (1927) Virginia Woolf


65 — O Conde de Monte Cristo (1845), Alexandre Dumas


66 — Pela Estrada Fora (1957), Jack Kerouac


67 — Jude the Obscure (1895), Thomas Hardy


68 — O Diário de Bridget Jones (1996), Helen Fielding


69 — Os Filhos da Meia-Noite (1981), Salman Rushdie


70 — Moby Dick (1851), Herman Melville


71 — Oliver Twist (1838), Charles Dickens


72 — Drácula (1897), Bram Stoker


73 — O Jardim Secreto (1911), Frances Hodgson Burnett


74 — Crónicas de Uma Pequena Ilha (1995), Bill Bryson


75 — Ulisses (1922), James Joyce


76 — A Campânula de Vidro (1963), Sylvia Plath


77 — Pergunte ao Pó (1939), John Fante


78 — Germinal (1885), Émile Zola


79 — A Feira das Vaidades (1847), William Makepeace Thackeray


80 — Possessão (1992), Antonia Susan Byatt


81 — Um Conto de Natal (1843), Charles Dickens


82 — Atlas das Nuvens (2004), David Mitchell


83 — A Cor Púrpura (1982), Alice Walker


84 — Os Vestígios do Dia (1989), Kazuo Ishiguro


85 — Madame Bovary (1856), Gustave Flaubert


86 — Memórias de Adriano (1951), Marguerite Yourcenar


87 — A Teia de Charlotte (1952), Elwyn Brooks White


88 — As Cinco Pessoas que Encontramos no Céu (2003), Mitch Albom


89 — As Aventuras de Sherlock Holmes (1892), Arthur Conan Doyle


90 — A Casa na Árvore (1939-1951), Enid Blyton


91 — Coração das Trevas (1899) Joseph Conrad


92 — O Pequeno Príncipe (1943), Antoine de Saint-Exupéry


93 — Fábrica das Vespas (1984), Iain M. Banks


94 — Era uma vez em Watership Down (1972), Richard Adams


95 — Uma Conspiração de Estúpidos (1980), John Kennedy Toole


96 — A Náusea (1938), Jean-Paul Sartre


97 — Os Três Mosqueteiros (1844), Alexandre Dumas


98 — Hamlet (1609), William Shakespeare


99 — A Fantástica Fábrica de Chocolate (1964), Roald Dahl


100 — Os Miseráveis (1962), Victor Hugo 


 


 

segunda-feira, 15 de julho de 2019

1793, de Niklas Natt Och Dag | Opinião


1793-b.JPG


Opinião: Este livro suscitou-me de imediato a atenção, porque a capa se destaca em termos de design gráfico (como podem ver na fotografia) e porque tenho lido alguns autores suecos que me brindaram com histórias de pôr os nervos em franja - o que adoro, devo confessar.


Nicklas Natt Och Dag, neste livro de estreia, recebeu um prémio da Academia Sueca de Escritores de Crime e recebeu vários elogios por esse feito. Num deles, o de Erik Axl Sund, é referido que se trata de «Um thriller histórico sem paralelo e de grande qualidade literária. É cru, elegante, comovente e extremamente cativante até à última página». Existem outros, mas acho que este comentário resume muito bem todas as qualidades do livro 1793.


Quando iniciei a leitura, estranhei logo o facto de a polícia parecer actual, com relatórios e comissários, o que me deixou um pouco de pé atrás no que ao rigor histórico diz respeito. Não obstante essa “ligeireza” histórica, acabei por gostar da narrativa  sem quaisquer subterfúgios.


Mas vamos à história. Em Estocolmo, no Outono de 1793, um cadáver flutua no lago Fatburen. Dois pequenos vagabundos dão o alerta. E o guarda Mickel Cardell, sem o braço esquerdo, despe o casaco com dificuldade e nada em direção ao que julga ser uma carcaça de um animal. Mas então vê o corpo desfigurado, com a duas órbitas oculares vazias e, na boca, não vê um único dente. Entra depois em cena Cecil Winge, advogado, que trabalha com a polícia, que irá trabalhar no caso com o guarda Cardell e os dois irão procurar o assassino, começando por tentar descobrir qual a identidade do homem desfigurado e desmembrado. Para Winge é urgente encontrar esse assassino cruel, uma vez que está doente e sabe que não viverá muito mais tempo.



«Winge combate a morte com a mesma bússola que o guiou toda a vida – a razão. Esta diz-lhe que todos temos de morrer e que todos estamos a morrer. Ajuda. Mas, quando os suores nocturnos chegam e a mente vagueia livremente, é a sua morte em particular que o atormenta, não a ideia de morte em geral. Contempla todos os pormenores. A infecção irá espalhar-se pelas articulações e pelo esqueleto, como o que acontece a muitos dos que sofrem desta doença? Irá morrer no sono ou em agonia e paroxismo? Que tormentos sofrerá? Quando mais nada ajuda, tenta convencer-se de que a maior parte de si morreu da última vez que viu a mulher. Mas é um fraco consolo quando a parte de si que ainda vive é aquela que consegue sentir dor».


 



Winge, que é justo, racional e inteligente, bebe para esquecer. Achei impressionante a forma como os personagens masculinos tentam resolver os problemas recorrendo à bebida, mas, no século XVIII, era um hábito muito comum.  Penso que seria uma forma de sobreviverem à realidade, à miséria e às injustiças e agruras da vida. Curiosamente, Kristofer Blix é um cobarde que, surpresa, também bebe, e nós vamos ficar a conhecer a sua história através de cartas que ele escreve à sua irmã, já falecida. Uma narrativa diferente da anterior, mas que resultou muito bem, uma vez que aí é relatada toda a vida deste personagem.


Depois de ter ultrapassado a reacção de estranheza inicial, comecei a questionar, ainda, o facto de este livro não ter a presença de uma personagem feminina forte e corajosa. De facto, até à terceira parte (o livro tem quatro partes), apenas é feita uma breve menção à mulher do Winge e à prostituta Johanna, sendo que, quando surge a Anna Stina, quase a meio de livro, esta personagem feminina introduz um novo folgo ao enredo. Ela é surpreendente e muito diferente dos outros personagens, o que torna tudo mais interessante.


No livro, 1973, existem muito personagens, os quais vão surgindo e desaparecendo de seguida. Mickel Cardell, Cecil Winge, Kristofer Blix e Anna Stina, são os que se destacam e, embora, no decurso da história, tenha gostado mais de uns do que outros, todos tiveram um final que foi do meu agrado.


O escritor conseguiu dar uma nova voz à ficção histórica. A narrativa é dura, crua e sem qualquer tipo de enfeites linguísticos. As personagens são interessantes e bem desenvolvidas. E a história é intensa, invulgar e muito bem escrita. Gostei muito. Vale a pena ler.


Classificação: 5/5*



sexta-feira, 12 de julho de 2019

Uma peregrinação secreta com: "Em teu ventre", de José Luís Peixoto

20190710180647_IMG_1599.JPG


Um especial agradecimento à Magda do blogue Stone Art Books por me ter convidado para o grupo do Livro Secreto e por ter aguentado todos os meus pensamentos, bons e maus. 


Em fevereiro de 2017, iniciou-se a 2.ª edição do Livro Secreto, uma iniciativa da Maria João e da Magda, e terminou, em julho de 2019, quase dois anos e meio depois, altura em que recebi, em casa, o livro mais viajado que possuo, uma vez que percorreu, via CTT, o Norte a Sul do País, num total de 5.810 Km. Achei que este facto é simplesmente uma curiosidade que causa espanto, assim como o facto de a distância maior alcançada, entre cidades, ter sido entre Faro e Sabrosa,  num total de 621 Km.


Para esta peregrinação livresca, elegi o livro "Em teu ventre", de José Luís Peixoto (podem ler mais aqui), porque foi um livro que me marcou especialmente e porque é sobre as aparições de Nossa Senhora de Fátima aos três pastorinhos.


Ora, desde pequena que oiço esta história, mas, com o passar dos anos, passei de crente rendida a cética assumida. Porém, "Em teu ventre", há uma abordagem diferente.


O autor, com as suas palavras, reinventou e desmitificou o assunto. Já ninguém mete medo com o inferno, nem obriga a rezar Padres Nossos nem Avés Marias infindáveis. E as suas palavras levam-nos a refletir sobre a fragilidade daquelas três crianças, sobre a maternidade, e sobre a mentira e a verdade.


O livro é, para mim, muito especial e nesta viagem trouxe marcas que o tornaram único e inegualável.


20190710181316_IMG_1624.JPG


Nas páginas deste livro, encontrei frases que suscitaram mais a atenção, sublinhadas a lápis, e alguns comentários, simples e sinceros:


«Antigamente não havia grande espaço para se ser criança...começava a envelhecer-se depressa (Fabiana)»


«A maternidade é um campo de críticas (Alexandra)»


«Nós com a nossa mania que entendemos os outros e entendemos aquilo porque eles passam, onde estão e como estão. Ilusão. Vai ser sempre apenas e só uma tentativa (Silvina)».


 


E esta foi a peregrinação secreta do meu livro... e as palavras dele voaram, de casa em casa, nas asas de uma história feita de pedaços de memória e de vidas passadas.


Palavras, onde estão quando preciso delas? 


Será que um simples obrigada bastará? !


20190710181154_IMG_1619.JPG

quarta-feira, 10 de julho de 2019

A filha do coveiro, de Joyce Carol Oates | Opinião

20190623_203623.jpg


A Mafalda recomendou-me este livro e agradeço-lhe imenso por isso. Obrigada, Mafalda, este livro deixo-me com vontade de ler mais desta autora, embora não existam ainda muito livros dela traduzidos em Portugal (e não me apetece lê-los em inglês:))


 


Opinião: Vou começar por vos deixar uma pequena nota em relação à obra, uma vez que não se trata de uma biografia e sim de uma obra de ficção baseada em factos reais. Isto deixou-me muito surpreendida, porque, quando leio um livro, não procuro saber a vida do autor. Aliás, não o faço para não ser influenciada. Só depois, e antes de escrever a minhas ideias, é que que faço alguma pesquisa. Eis senão quando me deparo com a informação de que este romance é baseado na história da avó de autora, conforme se comprova através da dedicatória:



Para Blanche Morgenstern, a «filha do coveiro».



É verdade que passei os olhos pela dedicatória, mas não prestei muita atenção, pois não entendi o seu significado. Mas vamos aos factos reais nesta história.


 


O pai de Joyce Carol Oates, já com 70 anos, resolveu contar o segredo de família relativamente ao avô Morgenstern. Este, depois de ter morto a mulher, matou-se com um tiro. A filha, Blanche Morgenstern, sobreviveu. A autora além de desconhecer esta história também não sabia que a avó era de ascendência judia. 


Nada mais é biográfico, o resto é imaginação de Oates, segundo julgo.


 


Portanto, o romance inicia-se em 1959 com a jovem mãe, Rebeca Schwart, que trabalha numa fábrica. No regresso a casa, num percurso que faz diariamente junto a um canal, ela é abordada por um homem que a confunde com Hazel Jones. Rebeca desconfia e consegue fugir ilesa.


No capítulo seguinte, a história volta atrás, para 1936, ano em que, depois da fuga da Alemanha nazi, Anna, a mãe de Rebeca, dá à luz, no porto de Nova Iorque, no meio da imundice. O pai, Jacob, antigo professor de matemática, é forçado a aceitar o emprego de Coveiro em Milburn, facto que nunca irá aceitar e que o levará a sentir-se discriminado e a um estado de verdadeira paranoia. Passam então a morar numa casa velha no interior do cemitério. Jacob transforma-se num tirano e isola a família. Proíbe a mulher de falar alemão e os filhos Herschel e Gus de terem amigos. Mas quando estes saiem de casa o pai mata Anna e suicida-se de seguida. Rebeca sai ilesa, embora assista a toda a cena.  A sua professora Rose Lutter toma conta dela, por ser menor, porém, esta sai de casa sem qualquer consideração ou atenção pela tutora. É então que conhece Niles Tignor e cometerá o maior erro da sua vida. 


 


Senti muita apreensão pelo futuro de Rebeca. Muitas das vezes não concordei com as suas decisões, embora ela lute por aquilo que acredita. Acho que é uma personagem muito bem construída, percebemos tudo o que se passa com ela, exceto mais no final da história em que parece que se transforma numa pessoa hermética, cheia de segredos. Desagradou-me esta faceta dela e esperei que, com todas as desgraças que ocorreram, no final se revelasse uma pessoa melhor. Na minha opinião, isso não aconteceu. Será que o dinheiro passou a ser mais importante?!


 


Posto isto, neste livro, um retrato cru da sociedade americana, o tema predominante é a violência, psicológica e física. É um retrato duro e visceral. A escrita, por vezes, também é dura:



A história não tem existência. Tudo o que existe são indivíduos, e, destes, só existem momentos singulares separados uns dos outros, como vértebras partidas.



 



No barco, tínhamos de comer o que nos davam. Comida estragada com bolor e baratas. Pegava nelas e esmagava-as com o pé e continuava a comer, a fome era muita. Ou isso ou morrer à fome. Quando atracámos, já tinhamos as tripas carcomidas e toda a gente cagava sangue e pus (...)



 


 


 


Numa linguagem simples, direta e realista, Joyce Carol Oates entrega-nos uma imagem de Rebeca (baseada na sua avó Blanche) como se tratasse do seu testemunho real, não deixando de lado nada, nem os seus defeitos. 


Gostei muito da escrita, com frases curtas, e da história inquietante. Recomendo.


 


Classificação: 4/5* (Só não dou 5* por culpa da Rebeca. O dinheiro muda muito as pessoas e gostaria de que a mensagem fosse outra).


 


 

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Pensamentos na Natureza

A palavra pedestrianismo significa a atividade desportiva praticada em ambientes naturais. É um bocado difícil de pronunciar e não gosto particularmente dela. Ora, tendo em conta que sou uma simples iniciante nesta prática, não a vou utilizar de todo e, tal como outras palavras do dicionário, ficará apenas nas suas páginas inquientantes até que o abra de novo.


Esta atividade física ao ar livre permite aliviar o stess do dia-a-dia e é uma forma de combater o sedentarismo. Além disso, proprociona a observação da natureza, da flora, de algumas aves e funciona como aromaterapia. Sim, leram bem. Aromaterapia porque o cheiro do mato, das flores, ou da natureza, em geral, é salutar e agradável - longe da confusão e dos cheiros da cidade.


Neste post, como já perceberam, não venho falar de livros. Claro que podemos viajar através das leituras. Mas a proximidade com a natureza, os cheiros e os sons aguçam os sentidos e revigoram a alma.


A minha cruzada/caminhada no Vale do Lapedo durou duas horas e meia e foi uma verdadeira descoberta. É que o Vale do Lapedo, aqui perto da cidade de Leiria, é um local lindíssimo. As encostas são íngremes e existem declives acentuados aos quais devemos estar atentos - para não cair ribanceira à baixo.


O mais difícil foi iniciar esta caminhada (cerca de 45 minutos à espera), dado que os trilhos eram muito estreitos e, nesse dia, compareceram 670 participantes ( o que, embora longe da cidade, é muito trânsito engarrafado, como devem calcular). Enquanto esperavamos fui observando as pessoas (também fazem parte da natureza, a humana)  e alguns levavam mochilas enormes com uma caneca pendurada, outros estavam acompanhados dos filhos e conhecidos, e outros, ainda, levaram o cão (o que me fez recordar o livro d´Os Cinco, logo quando não era suposto pensar em livros!). Travei conhecimento com o Trincas, um cão preto e branco, que foi o participante percorreu os trilhos diversas vezes, porque o seu entusiasmo o levava a correr e a voltar para trás a correr e a voltar para trás. A certa altura tomou banho e o seu corricar animado passou a molhar as nossas pernas. 


No Abrigo do Lagar Velho, situado no extremo oeste do vale, na margem esquerda da ribeira, foram feitas descobertas arqueológicas importantes. Estudos apontam que o Abrigo tem entre 20 000 e 30 000 anos. A descoberta da primeira pintura rupestre, em 1998, levou a que os arquólogos explorassem o local, tendo sido descoberto o menino do Lapedo. Com cerca de 24 500 anos, o fóssil terá pertencido a uma criança que teria nascido do cruzamento de um Homo neanderthalensis e um Homo sapiens. 


Num percurso de 6 km, íngreme e atribulado, adorei conhecer o Vale do Lapedo, a sua história, enquanto fui observando tudo e todos. Claro que encontrei muitos motivos para tirar fotografias. Espero que gostem.


20190630093829_IMG_1450.JPG


20190630101951_IMG_1458.JPG


20190630105113_IMG_1479.JPG


20190630103853_IMG_1474.JPG


20190630100124_IMG_1455.JPG


20190630102339_IMG_1466.JPG


20190630111559_IMG_1495.JPG