sexta-feira, 12 de julho de 2019

Uma peregrinação secreta com: "Em teu ventre", de José Luís Peixoto

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Um especial agradecimento à Magda do blogue Stone Art Books por me ter convidado para o grupo do Livro Secreto e por ter aguentado todos os meus pensamentos, bons e maus. 


Em fevereiro de 2017, iniciou-se a 2.ª edição do Livro Secreto, uma iniciativa da Maria João e da Magda, e terminou, em julho de 2019, quase dois anos e meio depois, altura em que recebi, em casa, o livro mais viajado que possuo, uma vez que percorreu, via CTT, o Norte a Sul do País, num total de 5.810 Km. Achei que este facto é simplesmente uma curiosidade que causa espanto, assim como o facto de a distância maior alcançada, entre cidades, ter sido entre Faro e Sabrosa,  num total de 621 Km.


Para esta peregrinação livresca, elegi o livro "Em teu ventre", de José Luís Peixoto (podem ler mais aqui), porque foi um livro que me marcou especialmente e porque é sobre as aparições de Nossa Senhora de Fátima aos três pastorinhos.


Ora, desde pequena que oiço esta história, mas, com o passar dos anos, passei de crente rendida a cética assumida. Porém, "Em teu ventre", há uma abordagem diferente.


O autor, com as suas palavras, reinventou e desmitificou o assunto. Já ninguém mete medo com o inferno, nem obriga a rezar Padres Nossos nem Avés Marias infindáveis. E as suas palavras levam-nos a refletir sobre a fragilidade daquelas três crianças, sobre a maternidade, e sobre a mentira e a verdade.


O livro é, para mim, muito especial e nesta viagem trouxe marcas que o tornaram único e inegualável.


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Nas páginas deste livro, encontrei frases que suscitaram mais a atenção, sublinhadas a lápis, e alguns comentários, simples e sinceros:


«Antigamente não havia grande espaço para se ser criança...começava a envelhecer-se depressa (Fabiana)»


«A maternidade é um campo de críticas (Alexandra)»


«Nós com a nossa mania que entendemos os outros e entendemos aquilo porque eles passam, onde estão e como estão. Ilusão. Vai ser sempre apenas e só uma tentativa (Silvina)».


 


E esta foi a peregrinação secreta do meu livro... e as palavras dele voaram, de casa em casa, nas asas de uma história feita de pedaços de memória e de vidas passadas.


Palavras, onde estão quando preciso delas? 


Será que um simples obrigada bastará? !


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quarta-feira, 10 de julho de 2019

A filha do coveiro, de Joyce Carol Oates | Opinião

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A Mafalda recomendou-me este livro e agradeço-lhe imenso por isso. Obrigada, Mafalda, este livro deixo-me com vontade de ler mais desta autora, embora não existam ainda muito livros dela traduzidos em Portugal (e não me apetece lê-los em inglês:))


 


Opinião: Vou começar por vos deixar uma pequena nota em relação à obra, uma vez que não se trata de uma biografia e sim de uma obra de ficção baseada em factos reais. Isto deixou-me muito surpreendida, porque, quando leio um livro, não procuro saber a vida do autor. Aliás, não o faço para não ser influenciada. Só depois, e antes de escrever a minhas ideias, é que que faço alguma pesquisa. Eis senão quando me deparo com a informação de que este romance é baseado na história da avó de autora, conforme se comprova através da dedicatória:



Para Blanche Morgenstern, a «filha do coveiro».



É verdade que passei os olhos pela dedicatória, mas não prestei muita atenção, pois não entendi o seu significado. Mas vamos aos factos reais nesta história.


 


O pai de Joyce Carol Oates, já com 70 anos, resolveu contar o segredo de família relativamente ao avô Morgenstern. Este, depois de ter morto a mulher, matou-se com um tiro. A filha, Blanche Morgenstern, sobreviveu. A autora além de desconhecer esta história também não sabia que a avó era de ascendência judia. 


Nada mais é biográfico, o resto é imaginação de Oates, segundo julgo.


 


Portanto, o romance inicia-se em 1959 com a jovem mãe, Rebeca Schwart, que trabalha numa fábrica. No regresso a casa, num percurso que faz diariamente junto a um canal, ela é abordada por um homem que a confunde com Hazel Jones. Rebeca desconfia e consegue fugir ilesa.


No capítulo seguinte, a história volta atrás, para 1936, ano em que, depois da fuga da Alemanha nazi, Anna, a mãe de Rebeca, dá à luz, no porto de Nova Iorque, no meio da imundice. O pai, Jacob, antigo professor de matemática, é forçado a aceitar o emprego de Coveiro em Milburn, facto que nunca irá aceitar e que o levará a sentir-se discriminado e a um estado de verdadeira paranoia. Passam então a morar numa casa velha no interior do cemitério. Jacob transforma-se num tirano e isola a família. Proíbe a mulher de falar alemão e os filhos Herschel e Gus de terem amigos. Mas quando estes saiem de casa o pai mata Anna e suicida-se de seguida. Rebeca sai ilesa, embora assista a toda a cena.  A sua professora Rose Lutter toma conta dela, por ser menor, porém, esta sai de casa sem qualquer consideração ou atenção pela tutora. É então que conhece Niles Tignor e cometerá o maior erro da sua vida. 


 


Senti muita apreensão pelo futuro de Rebeca. Muitas das vezes não concordei com as suas decisões, embora ela lute por aquilo que acredita. Acho que é uma personagem muito bem construída, percebemos tudo o que se passa com ela, exceto mais no final da história em que parece que se transforma numa pessoa hermética, cheia de segredos. Desagradou-me esta faceta dela e esperei que, com todas as desgraças que ocorreram, no final se revelasse uma pessoa melhor. Na minha opinião, isso não aconteceu. Será que o dinheiro passou a ser mais importante?!


 


Posto isto, neste livro, um retrato cru da sociedade americana, o tema predominante é a violência, psicológica e física. É um retrato duro e visceral. A escrita, por vezes, também é dura:



A história não tem existência. Tudo o que existe são indivíduos, e, destes, só existem momentos singulares separados uns dos outros, como vértebras partidas.



 



No barco, tínhamos de comer o que nos davam. Comida estragada com bolor e baratas. Pegava nelas e esmagava-as com o pé e continuava a comer, a fome era muita. Ou isso ou morrer à fome. Quando atracámos, já tinhamos as tripas carcomidas e toda a gente cagava sangue e pus (...)



 


 


 


Numa linguagem simples, direta e realista, Joyce Carol Oates entrega-nos uma imagem de Rebeca (baseada na sua avó Blanche) como se tratasse do seu testemunho real, não deixando de lado nada, nem os seus defeitos. 


Gostei muito da escrita, com frases curtas, e da história inquietante. Recomendo.


 


Classificação: 4/5* (Só não dou 5* por culpa da Rebeca. O dinheiro muda muito as pessoas e gostaria de que a mensagem fosse outra).


 


 

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Pensamentos na Natureza

A palavra pedestrianismo significa a atividade desportiva praticada em ambientes naturais. É um bocado difícil de pronunciar e não gosto particularmente dela. Ora, tendo em conta que sou uma simples iniciante nesta prática, não a vou utilizar de todo e, tal como outras palavras do dicionário, ficará apenas nas suas páginas inquientantes até que o abra de novo.


Esta atividade física ao ar livre permite aliviar o stess do dia-a-dia e é uma forma de combater o sedentarismo. Além disso, proprociona a observação da natureza, da flora, de algumas aves e funciona como aromaterapia. Sim, leram bem. Aromaterapia porque o cheiro do mato, das flores, ou da natureza, em geral, é salutar e agradável - longe da confusão e dos cheiros da cidade.


Neste post, como já perceberam, não venho falar de livros. Claro que podemos viajar através das leituras. Mas a proximidade com a natureza, os cheiros e os sons aguçam os sentidos e revigoram a alma.


A minha cruzada/caminhada no Vale do Lapedo durou duas horas e meia e foi uma verdadeira descoberta. É que o Vale do Lapedo, aqui perto da cidade de Leiria, é um local lindíssimo. As encostas são íngremes e existem declives acentuados aos quais devemos estar atentos - para não cair ribanceira à baixo.


O mais difícil foi iniciar esta caminhada (cerca de 45 minutos à espera), dado que os trilhos eram muito estreitos e, nesse dia, compareceram 670 participantes ( o que, embora longe da cidade, é muito trânsito engarrafado, como devem calcular). Enquanto esperavamos fui observando as pessoas (também fazem parte da natureza, a humana)  e alguns levavam mochilas enormes com uma caneca pendurada, outros estavam acompanhados dos filhos e conhecidos, e outros, ainda, levaram o cão (o que me fez recordar o livro d´Os Cinco, logo quando não era suposto pensar em livros!). Travei conhecimento com o Trincas, um cão preto e branco, que foi o participante percorreu os trilhos diversas vezes, porque o seu entusiasmo o levava a correr e a voltar para trás a correr e a voltar para trás. A certa altura tomou banho e o seu corricar animado passou a molhar as nossas pernas. 


No Abrigo do Lagar Velho, situado no extremo oeste do vale, na margem esquerda da ribeira, foram feitas descobertas arqueológicas importantes. Estudos apontam que o Abrigo tem entre 20 000 e 30 000 anos. A descoberta da primeira pintura rupestre, em 1998, levou a que os arquólogos explorassem o local, tendo sido descoberto o menino do Lapedo. Com cerca de 24 500 anos, o fóssil terá pertencido a uma criança que teria nascido do cruzamento de um Homo neanderthalensis e um Homo sapiens. 


Num percurso de 6 km, íngreme e atribulado, adorei conhecer o Vale do Lapedo, a sua história, enquanto fui observando tudo e todos. Claro que encontrei muitos motivos para tirar fotografias. Espero que gostem.


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quinta-feira, 4 de julho de 2019

Uma conclusão óbvia (ou talvez não) no dia de aniversário da Wook.

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A wook fez 20 anos no passado dia 1 de julho e lançou a loucura nas redes sociais com um sorteio, em dois momentos do dia, um de manhã e outro à tarde. Na primeira tentativa, de manhã, não cheguei sequer a conseguir entrar no site e este encerrou em menos de 5 minutos depois. E assim de repente puff, já tinham sido oferecidos 1.000 livros.


Mas, apesar dos comentários negativos, designamente que se trataria de um embuste, que era uma treta e que era impossível alguém ter sido agraciado com a prenda prometida e muito menos terem sido oferecidos 1.000 livros, resolvi voltar a tentar da parte da tarde, até porque não tinha nada a perder - e um livrólico que se prese tenta sempre aumentar o espólio de leituras. 


Então, retomando a história do dia em que fui bafejada pela sorte e consegui o maior feito livresco ao arrebanhar o verdadeiro tesouro de natal (porque este é quando nós quisermos, vá), na segunda tentativa consegui entrar no site da Wook e ganhar o livro A Rapariga Sem Nome.


E como é que foi isso???


Cliquei furiosamente no ecrã do telemóvel. Só isto. Não há mistério nenhum. Fui atualizando e olhando para o número correspondente aos livros que iam sendo oferecidos. 2, 6, 10, e por aí fora. Depois de entrar no site foi tudo muito rápido e, numa questão de segundos, escolhi uma novidade, coloquei no carrinho e conclui a compra a custo zero. E então respirei finalmente, dado que respirar poderia fazer cair a ligação. Ou terá sido os nervos???


Não sei bem o que se passou.


A conclusão óbvia que retiro é a de que a lei da oferta não é igual à da procura, tal como a velocidade da procura, neste caso, não é igual à velocidade com que a oferta foi encerrada.  


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quarta-feira, 3 de julho de 2019

A Prova, de Stéphane Allix | Opinião

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ResumoMais do que querer provar que a vida continua depois da morte, o objectivo é explorar como se estabelece a comunicação ente os vivos e os mortos. Este livro mudou a vida do autor. Talvez também mude a sua.




Opinião: Este livro é sobre um tema que muitos procuram esquecer e poucos ousam refletir, não sei se por desconhecimento ou se por receio. Como leitora ávida de assuntos relacionados com a religião e de histórias sobre quem comunica com o além, ou não tivesse lido Alan Kardec e outros livros que abordam o tema da espiritualidade, embarquei, com alguma bagagem, numa experiência única. 



Lê-lo é como dar pequenos passos e percorrer um caminho de espanto perante as experiências de vida dos médiuns, os sentimentos, impressões e imagens que lhes são transmitidas, a eles, sem que, no caso, tenham sido feito leituras corporais ou fornecidas quaisquer pistas.


O autor, Stéphane Allix, deixou de ser repórter de guerra após a morte do irmão num acidente de carro. Cerca de 12 anos depois, coloca cinco objetos no caixão do pai e, um ano depois, interrogará seis médiuns de forma a que o pai comunique com ele e lhe diga quais são.



"Cada um dos seis médiuns descreveu-me a mesma pessoa, porque esta pessoa está viva (…). Estamos eternamente ligados".



Este teste ou experiência revela-se um verdadeiro jogo de pictonary, uma vez que os médiuns desconhecem completamente qual o objetivo, possuem pouca informação e, nas sessões, aparecem o avô, o irmão e um irmão do avô, que é desconhecido na família do autor.  


Já todos sentimos arrepios inexplicáveis, uma sensação que nos deixa desconfortáveis. Geralmente, o assunto da vida depois da morte poderá ter esse efeito. Mas já pensaram que não sabemos as respostas a todas as perguntas nem o que estamos a fazer neste planeta? Não gostariam de saber? As nossas crenças, ou a ausência delas, não impedem que cada um de nós desenvolva a capacidade para percecionar o que permanece inacessível aos nossos sentidos?  A esta última pergunta respondo com um sim. Vivemos presos ao que acreditamos e ao que nos foi transmitido.


Nesta leitura, gostei muito da médium Christelle, a qual conseguiu conjugar o seu dom com a sua profissão de auxiliar de enfermagem. Ela ouve os mortos e ajuda-os, indo ao encontro do que eles lhe pedem para fazer e ou transmitir. Fascinou-me conhecer a vida destes seis médiuns, desde o momento em que tomam consciência das suas capacidades, geralmente em crianças, até a altura em que abandonam as suas profissões (com exceção da Christelle) para se dedicarem inteiramente à sua missão.


Depois de ter lido vários livros sobre o tema sinto que cada vez mais não podemos ignorar algo que faz parte da nossa essência. No entanto, A Prova não fornece detalhes sobre o Além. Fala antes dos espíritos, daqueles que geralmente permanecem num determinado lugar junto dos vivos, enquanto almas que precisam de ajuda, de luz e de amor. E relata  bem a necessidade de compreender melhor a partida dos que nos são queridos.



"Desde a morte do meu irmão – seu filho -, o meu pai pensava nisso constantemente e oscilava entre esperança e resignação. Não dizia muito, mas, durante os momentos que falávamos, sentia o sofrimento, a dor e a tristeza que a dúvida que o habitava a cada segundo representava. Parecia prisioneiro, dilacerado entre sensações contrárias. E os livros cuja leitura eu lhe sugeria não demonstravam fazer vacilar de forma duradoura a que ele chamava, com uma triste coragem, a «muralha imensa da bruma»".



Este livro ajuda a libertarem-se das amarras do materialismo e da «muralha imensa da bruma», e a compreenderem a capacidade de comunicação dos mortos, bem como a importância da mediunidade no processo de luto. 


Quer sejam meros curiosos ou realmente interessados no tema, recomendo esta leitura para que não sejam enganados, nem apanhados desprevenidos. A sério. Este livro é fascinante.


 


Classificação: 5/5*


Livro oferecido pelo clube do autor para opinião,