quarta-feira, 10 de maio de 2017

O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa | Livro secreto # 2 |

 


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 Achei a escrita brilhante, algo poética, e muito original, mas isso não aconteceu logo, nem foi "amor" à primeira vista. Aprendi a gostar quando "digeri" a história e, a certa altura, percebi a estrutura da narrativa. Portanto, no início, estranhei e não conseguia perceber bem quem, onde e porquê, nem a razão de estranhar tanto as palavras. Na leitura, andei como se estivesse perdida à procura da rua certa e a navegar na incerteza (Será bom? Será mau?). No entanto, mantive a mente aberta e embarquei no desconhecido (ainda não tinha lido nada deste autor).


Félix Ventura, um albino angolano, vende passados, e a osga, que assume o papel de narradora participante, narra e percebe tudo o que se passa. Mas embora se perceba logo quem é Félix, o mesmo não acontece com a osga. Só lá mais para o meio do livro é captei que o narrador era uma osga e que esta tinha sido, numa reencarnação anterior, um humano chamado Eulálio.Enfim, mais vale tarde do que nunca, lá diz o ditado popular.


O Félix constrói histórias e árvores genealógicas fantásticas para figuras importantes da sociedade cujo passado é duvidoso mas que saem como se fossem descendentes de "sangue azul".  Podemos "ver" aqui uma crítica à sociedade angolana e aos valores presentes na mesma e, na minha opinião, essa capacidade crítica é camuflada pela forma de escrever do autor. Tanto assim é que só depois de a história avançar, se percebe o alcance de certas frases (e quem concordar que ponha a mão no ar ou escreva um comentário).



Também eu crio enredos, invento personagens, mas em vez de os deixar presos dentro de um livro dou-lhes vida e atiro-as para a realidade.



 


Sinopse: Félix Ventura. Assegure aos seus filhos um passado melhor. É a partir deste cartão-de-visita que se desenrolam os capítulos de "O Vendedor de Passados", novo romance de José Eduardo Agualusa. A mentira e a verdade, o(s) homem(s) e o(s) seu(s) duplo(s), a memória e a memória da memória, a ficção e a realidade. Angola ("é importante ironizar com a sociedade angolana, que é uma sociedade que se construiu e se continua a construir assente em muitas ficções" - o autor ao Público, 19/06/04). Tudo poderia acontecer. Tudo poderia ter acontecido. «A determinada altura a osga recorda a mãe num momento da sua vida passada: "Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolhe os livros" (p.122). José Eduardo Agualusa provavelmente escolhe a vida.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Línguas-de-gato | Pesadelo na cozinha # 30

Olá. Disponho de pouco tempo para vos miar qualquer coisa, pelo que me lembrei dos últimos acontecimentos. Não é o que estão a pensar, pois o pesadelo na cozinha é um programa sobre uma realidade na qual ainda não ponho a minha patinha direita. Parece-me demasiado estranho os humanos sujeitarem-se e exporem-se a comentários ou até ao encerramento do seu estabelecimento pela ASAE. Os humanos deveriam ter um pouco de noção e pensar que o dinheiro não é tudo. A remodelação de um estabelecimento não é um milagre ou o euromilhões. Todos têm de se esforçar e os meus olhos felinos arregalam-se quando isso não acontece. E mais mio quando verifico que cá em casa o pesadelo na cozinha está a ser tolerado de forma inaudita. Eu conto. A Pipoca só pensa em passear e não quer nada estar fechada, vai dai arranha as cadeiras e sobe para cima da mesa. Ontem, até comeu o resto do bolo do dia da mãe que ficou em cima da mesa! O chefe diria: não tenham cuidado que ainda fecham a casa. Não adianta os humanos vêem e ficam aborrecidos com as traquinices da gata, mas depois passa e continua tudo na mesma. Já dizia o outro: falam, falam mas não fazem nada!!! 


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quarta-feira, 3 de maio de 2017

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado

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Se têm um clube de leitura e se o tema sorteado é animais, podem optar por este livro, bem pequenino, que se lê num ápice. Foi o que fiz, em janeiro deste ano, para o Clube das Conversas Livrásticas e espero, sinceramente, que não enjoem com mais uma conversa estória sobre gataria, até porque li no início do ano e começo a ficar assoberbada com a quantidade de livros, lidos, sem a minha modesta apreciação.


Bom, retomando o que disse no início quanto à gataria, não estamos perante uma estória fantasiosa qualquer. Tudo tem um significado. Aliás, se pensarmos bem, a metáfora prende-se com o que pensamos sobre o que é viver em sociedade.


Os animais são apresentados com caraterísticas humanas e receiam que o gato mate a andorinha.O gato é velho e mau, e a andorinha é jovem e inocente  (nessa parte, os animais do Parque têm uma certa razão).Será preconceituoso dizer que a tendência natural é a de desejarmos o melhor para os mais novos, bem longe dos inimigos ou de perigos? Afinal, será que o amor tem idade e raça?!


Considero que a escrita não é dirigida a uma criança pequena (isto se atendermos a que foi escrito para o próprio filho) e que as ilustrações, famosas, não deixam de ser algo estranhas. Questionei-me sobre o sentido para o final triste e após alguma reflexão, julgo que o escritor pretendeu transmitir uma moral, ou seja, o mundo só poderá avançar se as pessoas aceitarem as diferenças, sejam elas sociais, raciais, culturais ou até de idade.


 


«O mundo só vai prestar 


Para nele se viver
No dia em que a gente ver
Um gato maltês casar
Com uma alegre andorinha
Saindo os dois a voar
O noivo e sua noivinha
Dom Gato e Dona Andorinha».


 


Neste pequeno, grande, livro, que se estranha e depois se entranha, ficaram muitas perguntas, mas a que mais me intriga e que gostaria de descobrir é se acham que a serpente comeu o gato?


 


  


Sinopse: Jorge Amado escreveu O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá em 1948, para o seu filho João Jorge, quando este completou um ano de idade. O texto andou perdido, e só em 1978 conheceu a sua primeira edição, depoi de ter sido recuperado pelo filho e levado a Carybé para ilustrar. Com ilustrações belíssimas, para um belíssimo texto, a história de amor do Gato Malhado e da Andorinha Sinhá continua a correr mundo fazendo as delícias de leitores de todas as idades.


 

terça-feira, 2 de maio de 2017

Línguas-de-gato | Despacito pouquito humanos?! # 29

Olá. Despacito anda no ar. O que significa, perguntam? Significa que passa devagar, mas devagar se vai ao longe. Um exemplo, à laia de enquadramento e como quem não está a puxar a pata à sua comida, é o da  nova legislação que reconhece os animais como "seres vivos dotados de sensibilidade e objeto de proteção jurídica". Vem despacito, suavizito, delicadeza, e vamos "pegando pouquito, pouquito". E que o Papa nos abençoe a todos. Pruuu pruuu...


Ora, que sou um gato já toda a gente sabe (ou não?). E sou uma coisa, certo ou errado?  Então, [Despacito] esta legislação estabelece que os animais de companhia devem ser "confiados a um ou a ambos os cônjuges, considerando, nomeadamente, os interesses de cada um dos cônjuges e dos filhos do casal e também o bem-estar do animal". Humpff, como gato não sei bem o que os humanos pretendem, em especial se numa altura destas ninguém quiser o animal. Eu reinvidico os meus direitos de se tratado como humano e pronto!