sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Dois poemas de «Guião de Caronte»

 

 



Bato à porta de nada ensurdecido e bronco,
forrado a lama seca ou sarro destes anos
que mais que tudo me vestiram de tonto,´
dos que limpam os carros com a baba que lhes cai
sobre a cinza do fato; bato à porta do nada
sem dizer ui nem ai mas apenas grunhindo
de olho embaciado sem o cristal da lágrima,
bato à porta com braços, pernas, bocas e dentes,
mas sem saber no fundo, mas sem saber de caras
se deveras lhe bato quando lhe bato assim,
no nada dessa porta, ou ela bate em mim.


Pedro Tamen, em Foro das Letras, Janeiro de 1998

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O Amor nos Tempos de Cólera # 29


 

Autor: Gabriel García Márquez

Ano:1988

N.º de Páginas: 371

Editora: Dom Quixote

 

Sinopse: História de uma paixão infeliz, o presente romance descreve a epopeia sentimental de um amante repudiado que durante toda a sua longa existência, desde o furioso incêndio juvenil ao crepuscular fogo da velhice, manteve uma inquebrantável fidelidade à sua antiga noiva. Ao longo deste rio imaginário correm também as águas de muitos outros idílios,tranquilos ou enlouquecidos, selvagens ou apaziguados, senis ou adolescentes,prisioneiros da grilheta conjugal ou libertos pela comporta do instinto.

Decorrendo numa cidade portuária do Caribe entre finais do século passado e os primeiros decénios do nosso século. O Amor nos Tempos de Cólera utiliza todos os ingredientes clássicos do género folhetinesco, apresentando uma espécie de inventário passional, onde se consignam tantos as mais cruas imposições da carne como os meandros subtis do sentimento, e propondo por fim aos seus leitores uma obra de construção perfeita, em que do princípio ao fimse respira a atmosfera de magia que serve de alimento a todas as histórias de amor.

 

Opinião: Iniciei a releitura deste livro com muitas expectativas, uma vez que a primeira vez que o li foi em 1989 (e sim tenho a certeza, porque a data está escrita pela pessoa que mo ofereceu:).Depois de tanto tempo, é óbvio que não me recordava de nada (embora suspeito que deveria). Ainda recorri à sinopse, mas constatei que não contem um resumo e não sei se as edições atuais o fazem. De uma forma simplista, a história é sobre Fermina Daza, Florentino Ariza e Juvenal Urbino. Começamos por conhecer o casal, Fermina e Juvenal, já idosos, e, depois, iremos descobrir a paixão que Florentino nutre por Fermina, durante cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias.

É uma leitura agradável de se fazer, embora não haja uma sequência lógica e temporal dos factos, e, muitas das vezes, a trama, em torno dos personagens decorre em simultâneo ou em separado, para cada um. Ainda assim, o leitor consegue acompanhar a história, o que demonstra um absoluto domínio da forma narrativa.

Conseguimos imaginar, muito bem, o primeiro amor de Florentino, bem como as cartas, os bilhetinhos à Fermina, e as esperas que ele lhe faz, sentado no banco do Parque. Todo este amor platónico dura até à velhice, porque ele jurou ficar com ela, nem que tivesse de esperar que o marido morresse.

As partes menos positivas são: as longas narrativas; as inúmeras paixões carnais de Florentino; e o infeliz amor de América Vicuña.

 

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O que dizem os teus livros (4)





 



 



Hoje, vamos conhecer a bloguer, menos in do pedaço,  Maria das Palavras, que sonha viver das palavras, destruir mitos e escrever para os outros ou, na maioria das vezes, só para si. Ora, para quem não conhece, uma vezes surge a Maria-pragmática, outras a Maria-Sarcasmo ou a Maria-Alegria e, noutras, a Maria-Divertida. E vocês perguntam: são tantas Marias numa só? São, porque ela busca o divertimento nas palavras, ela brinca com elas, e faz "trocadilhos", e desconstrói ideias. Enfim, eu não tenho palavras.



Desde que idade tens uma paixão por livros? 

M:Desde que me lembro de mim. Não sei que idade tinha, mas aprendi a ler antes de ir para a escola. Não porque os meus pais me tenham tentado ensinar, mas liam muito para mim e um dia eu pedi-lhes para ser eu a ler. Acharam que tina decorado o livro para estar a dizer tudo certo. Depois testaram outros e chegaram à conclusão que eu sabia mesmo ler. Creio que foi a combinação dos meus pais lerem muito para mim com a magia da Rua Sésamo que fez isso acontecer.

 

Qual o tipo de livro que costumas ler?

M: Sou muito de fases, mas diria que o mais recorrente é o tipo de livro que mistura história real/factos com um pouco de ficção. Deve ter um nome e eu nem o sei.

 

O que gostas mais durante  a leitura? 

M: A concentração total. O resto do mundo que se escapa para entrarmos num novo. Ou seja, o facto de não permitir que façamos mil coisas ao mesmo tempo, como nos exige a vida em tantos outros momentos.

 

Quais os fatores que influenciam a escolha de um livro? 

M: Críticas de pessoas que já sei que têm gostos semelhantes aos meus, operam verdadeiros milagres nas minhas estantes. Quando estou na livraria, mesmo que seja a capa ou o título a chamar a atenção, é a sinopse que me faz decidir. Se me garantir um bom enredo ou tiver as palavras mágicas “baseado em factos reais” sou bem capaz de o trazer. É por isso que não posso entrar muitas vezes em livrarias...



Descreve sentimentos que só um leitor entende. 

M: As pessoas comparam muito ler a ver um filme ou uma série. O filme ou a série são mais rápidos, fazem mais trabalho por nós porque não precisamos imaginar: já está tudo lá. Parece uma vantagem. Muita gente se afasta dos livros por achar que é de facto uma vantagem: ver um filme relaxa mais. Mas não é verdade. Enquanto vemos algo na TV estamos a responder a mensagens, ou a comunicar com a pessoa que está ao lado, recebemos a imagem, o som, e desdobramo-nos a fazer outras coisas. Quando entramos num bom livro o resto do mundo cai na ravina. Somos nós e as letras na nossa mente. E não há nada que nos empreste mais paz do que isso.

 

As histórias, por vezes, têm uma enorme carga emocional. Já alguma vez choraste ou riste? Se sim, quais foram os livros em que isso aconteceu? 

M: Não sou a pessoa mais expansiva do mundo...já me terei emocionado mil vezes, interiormente com as páginas de um livro – sobretudo as finais. Mas se algum me fez chorar ou gargalhar de forma visível certamente tentei disfarçá-lo e não vou confessá-lo. Permitam-me a timidez.

 

O que dizem os teus livros? 

M: Dizem que não tenho medo de viajar. As minhas estantes estão repletas de destinos diferentes (não falo de guias turísticos, mas de tipos de estórias). E creio que uma coisa tem muito a ver com a outra.



***

Mais uma entrevista que me deu prazer em publicar, especialmente pelo sorriso que me conseguiu arrancar quando li a resposta à pergunta pessoal que apresentei à Maria: Concordas com a frase de Marguerite Duras: "Os homens gostam das mulheres que escrevem. Mesmo que não o admitam. Uma escritora é um país estrangeiro"?

M: Raro será o homem que o admita, mas creio que é uma frase verdadeira. Uma mulher que escreve é, ao mesmo tempo, alguém que se mostra e que adensa o mistério. E os homens - os verdadeiros - saberão apreciar esta característica em vez de a temer. A vantagem mais óbvia é outra e e tem a ver com o desdobramento da expressão popular "quanto mais chora, menos m*ja". Da mulher pode dizer-se que: quanto mais escreve, menos grita. 







Muito obrigada, do fundo do .

 




 





domingo, 27 de novembro de 2016

Línguas-de-gato | O Lado Negro do Natal # 12

Fala-se muito do Natal, desde as decorações às prendas, as quais, por sinal, já se encontram debaixo da árvore de Natal. Os miúdos andam eufóricos a tentar adivinhar o que está dentro de cada embrulho colorido. É uma festa de cor muito bonita para os meus olhos felinos,porém, há sempre um porém ou um mas em cada conversa, esquecem-se sempre de embrulhar uma prenda para mim! Ok. Eu sou um gato. Ok. Às vezes, porto-me mal.No entanto, o espírito do Natal dos gatos disse-me que isso não importa nada, desde que eu ensine a família. E aprender é isso: ensinar a viver, apesar dos contratempos, das adversidades, da falta de dinheiro, ou do familiar, amigo ou vizinho que não gostamos. E também saber perdoar o gato que roí o cabo do computador, afia as unhas no cortinado, na cadeira ou no sofá..O que é que eu estou para aqui a dizer? Estou velhote e já não faço nada disto! 
A quem estivera ler, aconselho a que não percam a esperança nem o espírito do Natal. Enão digo isto para parecer bem na fotografia, digo com a convicção de quem não quero conhecer NUNCA o Krampus! Ele é tão feio e tão, tão mau! No dia em que assisti ao filme dele, estávamos, eu e os humanos, todos juntos no mesmo sofá,quentinhos e aconchegadinhos, mas eu passei o tempo todo aterrorizado. O Krampus, que é o oposto do São Nicolau ou do Pai Natal, é uma criatura semelhante a um demónio, com chifres e pés de Cabra, e ele pune as crianças que são más. Trata-se de uma lenda. Fiquei muito confuso, uma vez que li aqui que fizeram um estudo (brilhante!), no qual concluíram que acreditar no Pai Natal é prejudicial para as crianças, porque quando as crianças descobrem que não é real, deixam deacreditar no que lhe dizem. A lógica é: dizer a verdade, dizer que não existe o Pai Natal e depois? Mais uma vez um estudo incompleto, porque não analisaram a hipótese de que as crianças gostam da magia do Natal e dizer a verdade é não alimentar a esperança, esse sentimento tão importante para a vida dos humanos! E se revelarmos apenas o Lado Negro do Natal, ficamos muito tristes, como quandos abemos que é gasto o valor de 700 mil euros em iluminações só na cidade de Lisboa e que esse dinheiro daria para comprar muita comida para os humanos e para os animais abandonados nos canis, por esse país fora. O Lado Negro do Natal anda aí. Avisem-me se virem o Krampus. Estou escondido debaixo do sofá, mas não lhe digam nada!

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O que dizem os teus livros (3)



Hoje, vamos conhecer a super, hiper e mega simpática Ana, do blogue Chic´Ana. Ela identifica-se com a sua citação preferida "Não posso mudar a direção do vento, mas posso ajustar as minhas velas para chegar sempre ao meu destino", porque a vida, tal como ela é, é carregada de sonhos, de sorrisos, mas também de ilusões e de tristezas, de conquistas e de perdas. Tal como um barco em alto mar, podemos ser agraciados por um vento forte ou embalados por revoltas correntes, podemos ser retirados do nosso porto seguro e acolhedor, contudo podemos sempre alinhar os nossos objetivos, ajustar as nossas velas para abraçar o nosso caminho e chegar ao tão desejado destino! 

Chic´Ana surgiu assim de uma forma natural para relatar as aventuras do dia-a-dia! E que divertidas que são!

 

Desde queidade tens uma paixão por livros? 

Sinceramente,desde que me recordo. Lembro-me que os livros fizeram parte da minha infância,do meu crescimento. Os meus pais incutiram o hábito de me contarem sempre uma história ao adormecer, de tal forma, que ainda hoje não consigo adormecer sem ler algumas páginas.

 

Qual o tipo de livro que costumas ler?

Não tenho um único género. Gosto de romances, gosto de policiais, gosto de ficção científica e do fantástico, gosto de tudo um pouco, até das famosas bandas desenhadas.

 

O que gostas mais durante a leitura? 

Gosto da imaginação, da forma como o nosso espírito viaja e tem a capacidade de recriar cenários, ambientes e emoções. Com um livro nunca estamos sós e aqui está uma grande verdade, conhecemos novos países,culturas, profissões. Conhecemos outras épocas, personagens reais ou fictícias.Conhecemos o mundo num único lugar!

 

Quais os fatores que influenciam a escolha de um livro? 

Quando escolho um livro, a sinopse é extremamente importante. Se esta me cativa,raramente o conteúdo do livro me desilude. Depois temos também os nossos autores de eleição, com os quais já sabemos que é sempre uma escolha segura.

 

Descreve sentimentos que só umleitor entende. 

Acho que o laço que se cria entre oleitor e o livro é algo único. Único e especial, de tal forma, que é impossível de descrever. Há sempre uma ansiedade em saber o que vai acontecer a seguir, há personagens pelas quais nos apaixonamos e outras que odiamos com todas asnossas forças. Acho que acabamos por transportar o que se encontra no papel para a realidade. 

 

As histórias, por vezes, têm umaenorme carga emocional. Já alguma vez choraste ou riste? Se sim, quais foram oslivros em que isso aconteceu? 

Já, já chorei compulsivamente, já ri muito também. Ui, foram tantos e tantos, posso indicar já os dois últimos livros que li, por todo o contexto, por achar que tinha pontos em comum com os livros: O Beijo da Morte de C.R. Olim, qualquer um da Juliet Marillier, acho que chorei em todos eles, precisamente por me colocar muitas vezes no lugar dos personagens.

 

O que dizem os teus livros? 

Aqui está uma pergunta muitointeressante, e gostava que fossem eles a responder. Como tal não é possível, achoque acima de tudo diriam que são de tal forma variados que agradariam a todosos leitores! A diferença é um grande tesouro e a aprendizagem nunca é demais.



 

*** 


Depois de ler as respostas da entrevista, pensei, e pensei muito, sobre a pergunta/desafio a colocar à Chic´Ana . Eu costumo visitar o blogue dela (para me ajudar nesta fase Pollyana) e, por isso, nada mais natural do que colocar, à divertida e aventureira Ana, a seguinte pergunta:

Ana, se fosses um personagem de um livro, achas que farias o jogo do contente com a Pollyanna, de Eleanor H. Porter?

Sem dúvida que o faria. Aliás, é um dos meus lemas de vida: extrair sempre algo positivo de todas as situações. Ao invés de ficarmos tristes pela ausência de algo, porque não valorizar a presença de qualquer outra coisa? Altos e baixos, todos os temos, portanto, quando estamos contentes, há que prolongar o momento, quando estamos menos bem, há que pensar que será apenas a rampa de lançamento para subirmos sempre mais alto!

Muito obrigada, do fundo do ❤.