Kafka é o nome que o protagonista escolhe para si mesmo quando decide fugir. Um nome inventado, talvez um escudo, talvez uma libertação. Sai de casa para se afastar de uma relação paterna marcada pela violência e pela ausência, e parte em busca da mãe e da irmã que desapareceram quando ele era apenas uma criança. É acompanhado pelo “rapaz-corvo”, essa voz interior que lhe fala, o aconselha e o julga- uma consciência que ora protege, ora atormenta.
“O teu coração é como um grande rio depois de uma forte chuvada.”
Em paralelo, conhecemos Nakata, um velho que perdeu a memória e a capacidade de ler depois de um estranho acidente na infância, mas que ganhou dons inexplicáveis: fala com gatos, compreende o que o mundo não explica e, por vezes, faz com que peixes chovam do céu. Um personagem terno e enigmático que parece existir num plano próprio, guiado apenas pela simplicidade e pela intuição.
Murakami tece entre estes dois mundos uma teia de realismo mágico: gatos falantes, florestas vivas, espíritos errantes e objetos simbólicos que nos levam a questionar onde termina o sonho e começa a realidade. Há também uma presença constante da música e da literatura, como se ambas fossem pontes invisíveis entre as dimensões que as personagens habitam.
“Quando estás acordado, sempre podes suprimir a imaginação. Mas não podes eliminar os sonhos.”
No início, estranhei. A meio, confundi-me. No fim, percebi que essa estranheza nunca desapareceria — pelo contrário, cresceu comigo. Terminei o livro com mais perguntas do que respostas, e nem todas boas.
É impossível ignorar o desconforto que certas passagens provocam, sobretudo na forma como as personagens femininas são apresentadas. Em Murakami, as mulheres parecem nascer do olhar masculino (são corpos, desejos, presenças etéreas que servem a transformação interior dos homens). A sexualização é constante, e algumas cenas ultrapassam o limite do necessário. Fica a sensação de que a profundidade feminina é sacrificada em nome da fantasia.
Ainda assim, há algo de magnético em Kafka à Beira-Mar. É um livro que se lê com perplexidade e, talvez, com fascínio. Uma viagem espiritual, mítica e confusa, mas também uma reflexão sobre a culpa, a memória e o destino. Murakami convida-nos a aceitar o mistério, a caminhar na névoa e a encontrar sentido no absurdo.
Esta foi uma leitura partilhada e intensa com o grupo #KafkaGirls, uma experiência literária cheia de descobertas e vozes que se cruzaram no espelho da interpretação. Agradeço à Sara por me ter levado a mergulhar neste mar simbólico, um mar onde, por mais que tentemos compreender, acabamos sempre à deriva, entre o sonho e o despertar.
E assim é a vida.
4 comentários:
Li este livro há muito tempo (mais de uma década) e sei que adorei e que, na altura, era um dos meus livros preferidos. Fui-me esquecendo da história e fui lendo mais livros do Murakami e comecei a aperceber-me da questão das personagens femininas... Parece ser um tema comum na escrita dele e isso incomoda-me. Retirou o encanto e deixei de ler o autor por inteiro.
"Gostaria" de reler este livro um dia, porque hoje em dia já não me lembro de absolutamente nada dele, mas saber que é mais um que tem esse problema tira-me logo a vontade de o fazer...
Li Sputnik, meu amor há uns anos e lembro-me de ter sentido alguma estranheza também. Desta vez li Kafka à Beira-Mar numa leitura partilhada e gostei muito da experiência. É realmente um livro que convida à discussão.
Quanto à questão das personagens femininas, começo a achar que é algo muito ligado à cultura, ou a uma sociedade diferente da nossa. No Peito Grande, Ancas Largas, do autor chinês Mo Yan, que ganhou o Nobel, também encontrei uma personagem masculina com um fetiche que desconhecia por completo e que me deixou perplexa - porque existe mesmo!
Ainda assim, como gosto da escrita do Murakami, sei que vou querer ler mais dele, mas provavelmente não o farei tão cedo
*um personagem masculino*
Agora que falou no Sputnik, Meu Amor é que me apercebi que foi esse que li e adorei, e não este da publicação O meu cérebro fugiu... Nem consigo explicar como aconteceu esta confusão
Tinha este na minha lista para ler, mas nunca o cheguei a fazer por essas razões. Li o Norwegian Wood e encontrei o mesmo problema. Talvez seja algo cultural mesmo... Acho que ainda não tenho conhecimento literário suficiente de autores dessa zona para perceber.
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